Co­lhei­ta de 2018: pro­va­vel­men­te a me­lhor des­te sé­cu­lo

Publico - Fugas - - VINHOS - Pe­dro Gar­ci­as

Se em Por­tu­gal exis­tis­se a tra­di­ção das ven­das de vi­nhos en pri­meur (ain­da an­tes de se­rem en­gar­ra­fa­dos e che­ga­rem ao mer­ca­do), valia a pe­na fa­zer já al­gu­mas com­pras de vi­nhos da co­lhei­ta de 2018. Em al­gu­mas re­giões ain­da se vin­di­ma, mas do que se co­nhe­ce po­de afir­mar-se com se­gu­ran­ça que o ano de 2018 vai ter um lu­gar re­ser­va­do na ga­le­ria das co­lhei­tas an­to­ló­gi­cas em Por­tu­gal. So­bre­tu­do nos tin­tos. Com al­gu­ma pro­ba­bi­li­da­de, po­de­rá ser mes­mo a me­lhor des­te sé­cu­lo — e nes­tes 18 anos já hou­ve vá­ri­as co­lhei­tas ex­tra­or­di­ná­ri­as.

Fa­lo de qua­li­da­de. Em quan­ti­da­de, foi me­nor. Hou­ve mui­tos pro­ble­mas um pou­co por to­do o país, co­mo que­da de gra­ni­zo, ata­ques se­ve­ros de míl­dio e es­cal­dão. No iní­cio de Agos­to, quan­do as tem­pe­ra­tu­ras se apro­xi­ma­ram dos 50 graus du­ran­te al­guns di­as, o ce­ná­rio era qua­se ca­tas­tró­fi­co. As uvas mais ex­pos­tas co­ze­ram e se­ca­ram e o que se co­me­çou a ver em mui­tas vi­nhas — ca­chos res­se­qui­dos ao pen­du­rão — fez au­men­tar ain­da mais o am­bi­en­te de­pres­si­vo que se ha­via ins­ta­la­do com as tro­vo­a­das da Primavera e o avan­ço do míl­dio. Mas, cu­ri­o­sa iro­nia, a va­ga de ca­lor dos pri­mei­ros di­as de Agos­to aca­bou por ter al­go de pro­vi­den­ci­al, por­que per­mi­tiu es­tan­car o míl­dio (a par­tir de cer­ta tem­pe­ra­tu­ra, a do­en­ça dei­xa de pro­gre­dir) e pou­par os vi­ti­cul­to­res a mais tra­ta­men­tos fi­tos­sa­ni­tá­ri­os.

Ao con­trá­rio do oí­dio, o míl­dio não afec­ta a qua­li­da­de do vi­nho, ape­nas in­flui na quan­ti­da­de. De­pois de ata­ca­das, as uvas ou não nas­cem ou se­cam. Ora, me­nos uvas é qua­se sem­pre si­nó­ni­mo de mai­or qua­li­da­de. No Dou­ro, o po­vo diz que “ano de míl­dio é ano vin­ta­ge”. Cla­ro que ano “vin­ta­ge” pa­ra uns é ano hor­ri­bi­lis pa­ra ou­tros, so­bre­tu­do pa­ra aque­les que de­pen­dem da ven­da de uvas. Hou­ve gen­te que per­deu qua­se tu­do nes­ta co­lhei­ta. Es­ses, e fo­ram mui­tos, não te­rão bo­as re­cor­da­ções de 2018, nem me­re­cem que se fa­le em vin­di­ma glo­ri­o­sa. Se­ria glo­ri­o­sa se fos­se ge­ne­ri­ca­men­te mui­to pro­du­ti­va e de gran­de qua­li­da­de.

Vin­di­mas des­sas acon­te­cem mui­to ra­ra­men­te. E, com as al­te­ra­ções cli­má­ti­cas, a pro­ba­bi­li­da­de de acon­te­ce­rem é, em boa ver­da­de, mais di­mi­nu­ta. Há ca­da vez mais fe­nó­me­nos cli­má­ti­cos ex­tre­mos e os ci­clos da vi­nha tor­na­ram-se mais im­pre­vi­sí­veis.

Nes­te ano agrí­co­la, o In­ver­no foi frio e se­co, o que é sem­pre bom pa­ra a ne­ces­sá­ria dor­mên­cia da vi­nha. Mas foi tam­bém pou­co chu­vo­so (68% abai­xo do va­lor mé­dio). No fi­nal da es­ta­ção, 84% do ter­ri­tó­rio na­ci­o­nal es­ta­va em se­ca se­ve­ra e ex­tre­ma. Na co­lhei­ta de 2017, as vi­nhas já che­ga­ram ao fi­nal do seu ci­clo em com­ple­to stress hí­dri­co. Uma Primavera pou­co chu­vo­sa e um Ve­rão no­va­men­te se­co e se­ria uma tra­gé­dia. A vi­dei­ra, ape­sar de mui­to re­sis­ten­te, tam­bém tem os seus li­mi­tes. Mas a Primavera pro­lon­gou o frio do In­ver­no e trou­xe mui­ta chu­va (e mui­to míl­dio, co­mo já foi di­to). Foi a ter­cei­ra Primavera mais chu­vo­sa des­de 1931. En­che­ram-se as bar­ra­gens e as ter­ras de água e o frio foi atra­san­do a re­ben­ta­ção da vi­nha. Em 2017, quan­do che­gá­mos a Agos­to, as uvas es­ta­vam pron­tas a vin­di­mar, apa­nhan­do to­da a gen­te de sur­pre­sa. Es­te ano, o Ve­rão che­gou tar­de e a ma­tu­ra­ção foi-se alon­gan­do no tem­po cer­to, ar­ras­tan­do o gros­so da vin­di­ma pa­ra Se­tem­bro e Ou­tu­bro, co­mo an­ti­ga­men­te. A par­tir de Se­tem­bro, a am­pli­tu­de tér­mi­ca tam­bém foi au­men­tan­do (di­as quen­tes e noi­tes mais fres­cas) e o fim da ma­tu­ra­ção de­cor­reu nas con­di­ções ide­ais, com tem­po se­co.

Foi uma vin­di­ma sem chu­va e is­so é sem­pre um fac­tor de­ter­mi­nan­te na qua­li­da­de da pro­du­ção. Mas o que ver­da­dei­ra­men­te dis­tin­gue a co­lhei­ta de 2018 é o ex­tra­or­di­ná­rio equi­lí­brio dos vi­nhos. No Dou­ro, por exem­plo, as uvas che­ga­ram per­fei­tas à ade­ga, sãs e com um equi­lí­brio pou­co co­mum em ter­mos de aci­dez e ál­co­ol pro­vá­vel. “Em tin­tos, é uma vin­di­ma mui­tís­si­ma boa, das mais equi­li­bra­das que te­nho vis­to. Tan­to pa­ra DOC Dou­ro co­mo pa­ra Por­to. Nos bran­cos, é uma co­lhei­ta boa, não ex­tra­or­di­ná­ria”, as­se­gu­ra Luís Sot­to­mayor, o di­rec­tor de eno­lo­gia da Ca­sa Fer­rei­ri­nha.

Nos Vi­nhos Ver­des, em par­ti­cu­lar em Mon­ção-Mel­ga­ço, “a vin­di­ma de 2017 já ti­nha si­do a me­lhor des­ta dé­ca­da, mas es­ta ain­da vai ser me­lhor”, ga­ran­te An­sel­mo Men­des. “Os bran­cos de Lou­rei­ro es­tão fa­bu­lo­sos e os Al­va­ri­nho não per­de­ram tan­ta aci­dez co­mo no ano pas­sa­do. Es­tão me­nos tro­pi­cais. Têm o per­fu­me an­ti­go do Al­va­ri­nho, mais a flo­res e me­nos a pe­ras e ou­tras fru­tas”, acres­cen­ta.

Na Bair­ra­da, a úni­ca quei­xa é pa­ra a que­bra na pro­du­ção.

Luís Pa­to, por exem­plo, per­deu 70% da pro­du­ção de Tou­ri­ga Na­ci­o­nal, que usa pa­ra os seus vi­nhos de en­tra­da de ga­ma. “A qua­li­da­de é mui­to boa por­que, com as per­das, con­cen­trou mais. Co­lhe­mos Ba­ga com 13 de ál­co­ol e 6,5 de aci­dez, o que é fan­tás­ti­co. Há um mai­or equi­lí­brio ál­co­ol/ açú­car em re­la­ção a 2016, por exem­plo. As co­lhei­tas de 2017 e de 2015 tam­bém fo­ram mui­to bo­as”, diz.

Pau­lo Nu­nes faz vi­nhos no Dão (Ca­sa da Pas­sa­rel­la), Bair­ra­da (Ca­sa de Sai­ma) Dou­ro (Cos­ta

Bo­al) e Trás-os-Mon­tes (Pa­lá­cio dos Tá­vo­ras) e o que tem vis­to em to­das as ade­gas on­de tra­ba­lha “é mui­to, mui­to bom”. “No Dão, vi­nhos com es­te equi­lí­brio só me lem­bro dos de 2008 e mes­mo es­ses não sei se che­gam ao ní­vel dos des­te ano”, afir­ma.

On­de pa­re­ce ha­ver mais dú­vi­das é no Alen­te­jo. Jo­a­na Ro­que do Va­le, enó­lo­ga da Ro­que­va­le, diz que es­tá a ser um ano di­fí­cil na ade­ga, por cau­sa dos pro­ble­mas que ocor­re­ram na vi­nha com o es­cal­dão e o míl­dio e tam­bém al­gu­ma po­dri­dão, em­bo­ra, re­gra ge­ral, os vi­nhos se­jam “mui­to bons”. Por seu la­do, Rui Re­guin­ga fa­la num ce­ná­rio a du­as co­res: “Os bran­cos es­tão be­lís­si­mos, com boa fru­ta e boa aci­dez. Mas os tin­tos são mais di­fí­ceis de en­ten­der. No Alen­te­jo, cos­tu­ma­mos aca­bar a vin­di­ma com os tin­tos qua­se pron­tos a ir pa­ra a gar­ra­fa. Es­te ano es­tão mais aus­te­ros, mais áci­dos e um pou­co mais du­ros.”

Os vi­nhos pre­ci­sam de tem­po pa­ra se mos­tra­rem.

Após o In­ver­no, já se sa­be­rá com mais cer­te­za se a co­lhei­ta de 2018 é, co­mo tu­do in­di­ca, re­al­men­te fa­bu­lo­sa. A úni­ca ver­da­de in­ques­ti­o­ná­vel que já se po­de avan­çar é do do­mí­nio da vi­ti­cul­tu­ra: as cas­tas que me­lhor re­sis­ti­ram aos fe­nó­me­nos cli­ma­té­ri­cos des­te ano e ao míl­dio fo­ram as cas­tas tra­di­ci­o­nais. As cas­tas “no­vas”, es­tran­gei­ras ou na­ci­o­nais plan­ta­das fo­ra da re­gião tra­di­ci­o­nal, “le­va­ram um por­ra­dão”, co­mo bem ob­ser­va­va Luís Pa­to. Não va­le a pe­na que­rer contrariar a na­tu­re­za, nem mui­to me­nos ig­no­rar a sa­be­do­ria dos an­ti­gos.

DATO DARASELIA

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