Sa­la­man­ca, ci­da­de dou­ra­da

Publico - Fugas - - FUGAS DOS LEITORES -

A es­tra­da ain­da não deu en­tra­da na ci­da­de mas já se avis­ta a tor­re da ca­te­dral.

Al­ta e es­cul­pi­da, de pi­ná­cu­los per­fu­ran­tes, mag­ne­ti­za-nos as aten­ções à me­di­da que nos apro­xi­ma­mos, e quan­do a luz do sol lhe in­ci­de pe­lo ân­gu­lo cer­to a pe­dra de que é cons­truí­da qua­se ad­qui­re um bri­lho de mel. Dão­lhe o no­me de “ci­da­de dou­ra­da” e o epí­te­to as­sen­ta-lhe bem, pois Sa­la­man­ca é, sem som­bra de dú­vi­da, uma ci­da­de cu­ja be­le­za nos en­can­ta.

Por cer­to se­rá por cau­sa da ri­que­za edi­fi­ca­da do seu cen­tro his­tó­ri­co, que é pa­tri­mó­nio mun­di­al da UNESCO. Pa­ra além das ca­te­drais que se jun­tam nes­sa mo­nu­men­tal pe­ça re­li­gi­o­sa — a ca­te­dral velha, mais gó­ti­ca, à ca­te­dral nova, bar­ro­ca, e cu­ja tor­re do re­ló­gio se en­tor­tou li­gei­ra­men­te ao pas­sar do ter­ra­mo­to de 1755 —, há to­do um con­jun­to de re­can­tos e fa­cha­das por ex­plo­rar, co­mo se uma fe­bre cons­tru­ti­va hou­ves­se de­co­ra­do, de uma vez só, to­do o seu nú­cleo ci­ta­di­no. Há a ca­pe­la de San Es­te­ban, a fa­mo­sís­si­ma e ele­gan­te Pla­za Mayor, a Cle­ren­cía e a pi­to­res­ca Ca­sa das Con­chas, de­co­ra­da a qua­se 300 vi­ei­ras, e ain­da o portal da Uni­ver­si­da­de — que é das mais an­ti­gas do mun­do —, ren­di­lha­do de pormenores es­cul­tó­ri­cos e ain­da de um ba­trá­quio que ho­je é tam­bém sím­bo­lo de Sa­la­man­ca e pre­en­che as pra­te­lei­ras das lo­jas de sou­ve­nirs. Mas to­da uma his­tó­ria mais an­ti­ga a atra­ves­sa, de mu­çul­ma­nos, bár­ba­ros e ro­ma­nos, e por cer­to se re­co­men­da atra­ves­sar a pon­te que es­tes úl­ti­mos cons­truí­ram so­bre o Tor­mes, pa­ra que as tor­res, os cam­pa­ná­ri­os e as cú­pu­las nos de­sa­fi­em o olhar uma vez mais…

Co­mo se­ria, se subs­ti­tuís­se­mos a pe­dra de uma ci­da­de por ou­tra di­fe­ren­te? O xis­to las­ca-se, for­ra os te­lha­dos das al­dei­as de mon­ta­nha que há es­pa­lha­das por es­se mi­o­lo de Por­tu­gal, a al­vu­ra do már­mo­re que só se en­con­tra nes­se tri­ân­gu­lo do Alen­te­jo qua­se ofus­ca o vi­si­tan­te num dia de Ve­rão: o Por­to é gra­ní­ti­co, mais den­so, de uma be­le­za aus­te­ra e for­ti­fi­ca­da, Lis­boa des­can­sa à mar­gem do Te­jo, bran­ca, cal­cá­ria e lu­mi­no­sa, co­mo al­guém que se dei­ta a apa­nhar sol… Pois que se­ria se tro­cas­sem a ro­cha de uma ci­da­de por ou­tra — se o Por­to fos­se se­di­men­tar e Lis­boa mag­má­ti­ca?

Pe­la tar­de len­ta: o sol cai mor­no, de viés, e as ru­as sa­la­man­qui­nas en­chem-se des­se ruí­do bem cas­te­lha­no, en­tre­gan­do-nos um con­vi­te pa­ra per­cor­rê-las. De on­de vem es­ta es­sên­cia, es­ta be­le­za? Tal­vez se­ja da pe­dra, es­sa que é igual e re­pe­ti­da, re­ves­tin­do to­dos os pormenores ar­qui­tec­tó­ni­cos. Cha­mam-lhe “Pi­e­dra franca” ou “are­nis­ca de Vil­la­mayor”, é um are­ni­to de quart­zo com al­guns felds­pa­tos, vem (ou vi­nha) das pe­drei­ras das ime­di­a­ções, ser­ra-se e trans­por­ta-se com fa­ci­li­da­de, é abun­dan­te e fá­cil de es­cul­pir. Tal­vez se­ja por cau­sa da pe­dra, des­se seu cas­ta­nho le­ve ou ama­re­lo in­ten­so, que a luz saia re­flec­ti­da de ou­tra ma­nei­ra, com es­se bri­lho ave­lu­da­do…

É im­pos­sí­vel per­cor­rer uma ci­da­de des­te gé­ne­ro sem to­car, nem que se­ja por dis­trac­ção, nas pe­dras que lhe cons­tro­em as ru­as. E em Sa­la­man­ca, mais pre­ci­sa­men­te nu­ma das por­tas da ca­te­dral, há mes­mo uma pe­dra es­cul­pi­da em que se de­ve pôr a mão, co­mo pro­mes­sa de boa sor­te: não é uma rã — é sim um co­e­lho — e de tan­tos ho­mens já lhe te­rem to­ca­do o seu bri­lho mu­dou, pa­re­cen­do qua­se me­tá­li­co.

An­dré Al­mei­da Pai­va

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