A mo­da de um vi­nho fo­ra de mo­da

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Há vi­nhos tão per­fei­tos, tão per­fei­tos que aca­bam por nos abor­re­cer e cair ra­pi­da­men­te no es­que­ci­men­to. E há vi­nhos com de­fei­tos que, pri­mei­ro, se es­tra­nham e de­pois se ins­ta­lam de­fi­ni­ti­va­men­te nas nos­sas ca­te­go­ri­as de pra­zer e tor­nam-se me­mó­ri­as pa­ra o fu­tu­ro. O Qu­an­ta Ter­ra In­tei­ro de 2008 é um des­ses vi­nhos. Não, não é um vi­nho pa­ra es­tre­an­tes nem pa­ra pa­la­tos ha­bi­tu­a­dos ou de­se­jo­sos de vi­nhos ma­ci­os, com aro­mas de fru­ta ma­du­ra, ta­ni­nos su­a­ves e aci­dez con­tro­la­da. É sem dú­vi­da um vi­nho que sai fo­ra das con­ven­ções da mar­ca Qu­an­ta Ter­ra. Ex­cep­to na sua aber­tu­ra pa­ra ar­ris­car, que se com­pro­va com o lan­ça­men­to de bran­cos com vá­ri­os anos de guar­da.

O In­tei­ro da du­pla Jor­ge Al­ves/ Cel­so Pe­rei­ra é, por­tan­to, o con­trá­rio das con­ven­ções. É um vi­nho com aro­ma for­te­men­te mar­ca­do pe­la aci­dez vo­lá­til, já sem fru­ta, com ta­ni­no ru­go­so e uma as­pe­re­za glo­bal im­pres­si­va e tão crua que só se apre­cia a sé­rio com co­mi­da. Mas por is­so, ou ape­sar dis­so, é um vi­nho me­mo­rá­vel. As sen­sa­ções que pro­vo­ca vão con­tra mui­to do que se con­ven­ci­o­nou ser um pa­drão de pro­va, mas são as­ser­ti­vas e ines­que­cí­veis. Há no seu con­cei­to rus­ti­ci­da­de e pri­ma­ris­mo. Mas é es­sa di­men­são que lhe con­fe­re ca­rác­ter, que o tor­na au­tên­ti­co e que cau­sa sur­pre­sa e pra­zer.

Pa­ra uma ca­sa as­so­ci­a­da a gran­des tin­tos, e ain­da a mai­o­res bran­cos, o In­tei­ro de 2008 é uma ex­tra­va­gân­cia. A sua apre­sen­ta­ção coin­ci­diu com a do Ma­ni­fes­to de 2015 (95/50 eu­ros), o Qu­an­ta Ter­ra Re­ser­va (93/24 eu­ros) e o sem­pre mag­ní­fi­co Qu­an­ta Ter­ra Bran­co (94/24 eu­ros), um le­que de gran­des vi­nhos mas ain­da as­sim vi­nhos que se en­cai­xam nu­ma cer­ta ro­ti­na do Dou­ro. O In­tei­ro, que pas­sou dois anos em bar­ri­ca e seis em cu­bas de ci­men­to, é um ca­so à par­te. Ten­so, com­ple­xo, in­tri­gan­te, de­sa­fi­a­dor é um da­que­les vi­nhos ra­di­cais que va­lem a ex­pe­ri­ên­cia. Pro­du­zi­ram-se 1800 gar­ra­fas. Ma­nu­el Car­va­lho

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