Qua­tro dé­ca­das de um gran­de vi­nho

Publico - Fugas - - QUINTA DO CÔTTO -

Oi­to vi­nhos, dois por dé­ca­das e uma con­clu­são: os me­lho­res tin­tos Quin­ta do Côt­to Gran­de Es­co­lha fo­ram fei­tos nos anos 1980 e 90, quan­do ain­da eram ar­ro­lha­dos com ro­lhas de cor­ti­ça, o ál­co­ol não pas­sa­va dos 13 % e os vi­nhos eram fei­tos em gran­des cu­bas de ci­men­to.

Mais de 30 anos de­pois, os Gran­de Es­co­lha 1985 e 1987 con­ti­nu­am so­ber­bos (mais exu­be­ran­te o 87, mais de­li­ca­do o 85). O no­tá­vel es­que­le­to tâ­ni­co e a gran­de fres­cu­ra natural de am­bos (res­su­mam a bos­que hú­mi­do) man­têm-nos ain­da vi­vos e chei­os de vi­gor. Os Gran­de Es­co­lha 1990 e 1994 não fi­cam atrás. O pri­mei­ro é um vi­nho sem ares­tas, qua­se a ro­çar a per­fei­ção. Com a mes­ma mar­ca aro­má­ti­ca dos an­te­ri­o­res, é um tin­to fi­no, se­do­so e ten­so. Por sua vez, o 1994 é mais sel­va­gem e in­tri­gan­te. Tem sa­bo­res ain­da mais ter­ro­sos e men­to­la­dos, os ta­ni­nos pa­re­cem de um vi­nho com me­ta­de da ida­de e a aci­dez é vi­vís­si­ma. É um da­que­les tin­tos fo­go­sos que nos de­sa­fi­am, que me­xem com a nos­sa bo­ca e a nos­sa ca­be­ça. O me­lhor de to­dos, se ti­vés­se­mos que es­co­lher.

Os vi­nhos des­te sé­cu­lo são igual­men­te mui­to bons, mas já um pou­co di­fe­ren­tes. O ál­co­ol foi su­bin­do de co­lhei­ta pa­ra co­lhei­ta e os vi­nhos tor­nam-se mais con­cen­tra­dos, em­bo­ra sem­pre com gran­de gar­ra tâ­ni­ca e fres­cu­ra. A tran­si­ção co­me­çou a dar-se com o Gran­de Es­co­lha 2001 (mais pró­xi­mo dos an­te­ri­o­res do que dos su­ce­dâ­ne­os) e o pon­to de vi­ra­gem con­su­mou-se com o 2007, o pri­mei­ro Gran­de Es­co­lha a ser en­gar­ra­fa­do com screw­cap. Es­te ve­dan­te é bom pa­ra pre­ser­var a fru­ta dos vi­nhos, por­que blo­queia mais o oxi­gé­nio. Mas as ro­lhas de cor­ti­ça per­mi­tem uma mai­or trans­fe­rên­cia de oxi­gé­nio e os tin­tos mais tâ­ni­cos ne­ces­si­tam des­sa oxi­ge­na­ção pa­ra irem ar­re­don­dan­do. Não ad­mi­ra, por is­so, que nes­te Gran­de Es­co­lha, tal co­mo no 2012, o ta­ni­no se­ja mais du­ro. Os vi­nhos pa­re­cem ter me­nos ida­de. E são tam­bém mais an­gu­lo­sos, ape­sar de pos­suí­rem mai­or ma­du­re­za.

O úl­ti­mo da pro­va foi o 2015, lan­ça­do re­cen­te­men­te e já com ro­lha de cor­ti­ça. É um tin­to com 14,4% de ál­co­ol (o 1985, por exem­plo, ti­nha só 12,3% de ál­co­ol) que jun­ta uvas de vi­nhas ve­lhas (51%), Tou­ri­ga Na­ci­o­nal (38%) e Tou­ri­ga Fran­ca (11%). Um Dou­ro tí­pi­co, por­tan­to. Tí­pi­co pe­las cas­tas e pe­la con­cen­tra­ção, ri­que­za aro­má­ti­ca e in­ten­si­da­de de sa­bor, mas com o plus de pos­suir tam­bém uma fres­cu­ra bal­sâ­mi­ca já me­nos co­mum na re­gião e que é uma das mar­cas dis­tin­ti­vas dos Quin­ta do Côt­to Gran­de Es­co­lha. Ain­da é novo, mas pro­me­te mui­to.

O vi­nho con­ta já com a as­si­na­tu­ra de Lou­ren­ço Char­ters, 30 anos, um dos mais pro­mis­so­res enó­lo­gos du­ri­en­ses da no­va ge­ra­ção e que es­tá tam­bém por trás do lan­ça­men­to de dois no­vos tin­tos: o Quin­ta do Côt­to Bas­tar­do 2106 (20 eu­ros) e o Quin­ta do Côt­to Vi­nha do Do­te (20 eu­ros), es­te pro­ve­ni­en­te de uma pro­pri­e­da­de si­tu­a­da mes­mo jun­to à Quin­ta do Val­la­do e que che­gou à fa­mí­lia em 1865, in­cluí­da no do­te que Ro­sa Ca­ro­li­na Pin­to Bar­rei­ros te­ve que dar pa­ra ca­sar com o en­tão mor­ga­do de Ci­da­de­lhe, An­tó­nio Mon­tez Cham­pa­li­maud. Dois vi­nhos bem dis­tin­tos mas igual­men­te be­lís­si­mos. Mais di­ges­ti­vo e ra­çu­do o pri­mei­ro; mais den­so, car­nu­do e es­pe­ci­a­do o se­gun­do.

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