O Pa­ço len­to de on­de veio a in­de­pen­dên­cia

Publico - Fugas - - VILA VIÇOSA -

A ri­que­za es­tá to­da nos sa­lões. Có­mo­das do sé­cu­lo XVII, o dou­ra­do de um ca­dei­rão Ro­cail­le, ta­pe­ça­ria per­sa e de Ar­rai­o­los, por­ce­la­na chi­ne­sa, pe­ças ra­ras do Ja­pão, São Fran­cis­co Xavier a se­gu­rar um co­ra­ção com a mão es­quer­da, as pin­tu­ras a óleo do rei D. Car­los, a co­lec­ção de cris­tais. Tu­do vis­to na pe­num­bra na­tu­ral do Ou­to­no, an­tes que o sol aca­be de des­cer, já que não há luz eléc­tri­ca no Pa­ço Du­cal de Vi­la Vi­ço­sa (ca­bos bran­cos so­bre fres­cos do sé­cu­lo XVI não fi­ca­ri­am bem). “O es­pa­ço mais ani­ma­do” da ca­sa é, no en­tan­to, a co­zi­nha, con­fir­ma Ti­a­go Sal­guei­ro, téc­ni­co su­pe­ri­or da Fun­da­ção da Ca­sa de Bra­gan­ça, que ge­re o es­pa­ço. Era aqui que per­to de 40 tra­ba­lha­do­res le­van­ta­vam re­ci­pi­en­tes de co­bre pa­ra aque­cer a água dos ba­nhos, es­ma­ga­vam alho com a aju­da de um gran­de al­mo­fa­riz e fa­bri­ca­vam em enor­mes ta­chos as cei­as faus­to­sas dos anos de 1500 em di­an­te. Saíam so­pas de ce­va­di­nha, lei­tões as­sa­dos, foie gras, ca­pões com ar­roz, pão-de-ló e ma­da­le­nas. As ce­bo­las vinham dos três hec­ta­res da Hor­ta do Re­guen­go (cul­ti­va­da até aos anos 60 do sé­cu­lo pas­sa­do) e as car­nes das ma­nhãs e tar­des de ca­ça na Ta­pa­da Re­al, on­de cons­ta que ain­da ho­je cor­rem ve­a­dos e ga­mos.

Mas não era a co­zi­nha que os du­ques de Bra­gan­ça que­ri­am mos­trar aos vi­si­tan­tes. Quan­do um mem­bro da cor­te es­pa­nho­la - ou um em­bai­xa­dor ja­po­nês - che­ga­va com as su­as cal­ças abai­xo do jo­e­lho a Vi­la Vi­ço­sa, a fa­cha­da ma­nei­ris­ta de 110 me­tros, to­da em már­mo­re - “o mai­or exem­plar da arquitectura ci­vil do nos­so país” - tra­ta­va de ex­cla­mar: “Re­pa­rem on­de es­tá o po­der!” “O que eles sem­pre ten­ta­ram fa­zer, atra­vés de uma ló­gi­ca de in­fluên­cia po­lí­ti­ca, foi, pe­las pin­tu­ras mu­rais e a ri­que­za da de­co­ra­ção, mos­trar aos con­vi­da­dos e à pró­pria cor­te que es­ta­va em Lis­boa que o du­que de Bra­gan­ça era uma fi­gu­ra de pe­so no pa­no­ra­ma ibé­ri­co e até eu­ro­peu”, con­cre­ti­za o nos­so guia.

O “pe­so” veio a con­fir­mar-se em 1640, com a su­bi­da do du­que D. João II ao tro­no (tor­nan­do-se, en­tão, D. João IV) e a Res­tau­ra­ção da In­de­pen­dên­cia de­pois de 60 anos de do­mí­nio fi­li­pi­no (em­bo­ra a so­be­ra­nia por­tu­gue­sa ape­nas te­nha si­do ofi­ci­al­men­te re­co­nhe­ci­da em 1668). No sé­cu­lo XVII, não ha­via ou­tra fa­mí­lia que não a de Bra­gan­ça com es­ta­tu­to pa­ra fa­zer fren­te ao po­der es­pa­nhol. E, além do cul­ti­vo das ar­tes, é a tal “es­tra­té­gia de en­ce­na­ção do po­der”, na ex­pres­são de Ti­a­go Sal­guei­ro, que se des­do­bra nu­ma vi­si­ta ao pas­sa­do eru­di­to do Pa­ço Du­cal, on­de cer­ca de 350 pes­so­as pres­ta­vam ser­vi­ços, “num ri­tu­al mui­to se­me­lhan­te ao da cor­te re­al em Lis­boa”.

A mo­ral e o ho­mi­cí­dio

Pa­ra per­cor­rer to­do o Pa­ço - con­tan­do com a Ar­ma­ria, o Te­sou­ro, o Mu­seu de Car­ru­a­gens e a Co­lec­ção de Por­ce­la­nas (há ain­da os mu­seus de Ca­ça e de Ar­que­o­lo­gia no Cas­te­lo de Vi­la Vi­ço­sa) - é pre­ci­so um dia in­tei­ro. Já a vi­si­ta mais cur­ta, no An­dar No­bre, du­ra cer­ca de 45 mi­nu­tos. Não é fá­cil hu­ma­ni­zar uma ca­sa que vi­ve dos mor­tos, mas há um es­for­ço por par­te de quem nos guia em tor­nar fi­gu­ras co­mo D. Jai­me, o cons­tru­tor do Pa­ço; D. João II, o pri­mei­ro du­que a tor­nar-se rei; ou D. Ma­nu­el II, o bi­blió­fi­lo que su­cum­biu à im­plan­ta­ção da Re­pú­bli­ca, ho­mens com má­goa, que fa­zi­am a bar­ba e li­am po­e­sia.

D. Jai­me, por exem­plo, se­ria um su­jei­to me­lan­có­li­co que, ape­sar de

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Portugal

© PressReader. All rights reserved.