O Ch­rist­mas pud­ding é o bo­lo natalício in­glês que mais fal­ta faz à Con­so­a­da por­tu­gue­sa

Publico - Fugas - - O GATO DAS BOTAS - Mi­guel Esteves Cardoso

Até às du­as da tar­de do dia

17 de De­zem­bro, uma se­gun­da­fei­ra, ain­da é pos­sí­vel fa­zer uma en­co­men­da no Fort­num’s e re­ce­ber as igua­ri­as na­ta­lí­ci­as an­tes do Na­tal.

O Fort­num’s é a me­lhor mer­ce­a­ria in­gle­sa pa­ra quem não per­ce­be na­da de mer­ce­a­ria in­gle­sa. Is­to sig­ni­fi­ca que tu­do o que têm à ven­da é de con­fi­an­ça. Não é pre­ci­so in­ves­ti­gar an­tes de com­prar. Pa­ga-se um bo­ca­di­nho mais (mui­to me­nos do que se pen­sa) por es­ta tran­qui­la ga­ran­tia.

É no Na­tal que o Fort­num’s se en­che de in­gle­ses, es­co­ce­ses e ga­le­ses.

Du­ran­te o res­to do ano são mais os tu­ris­tas que vi­si­tam, com­pran­do par­voí­ces bo­ni­ta­men­te em­ba­la­das, co­mo o pés­si­mo chá em sa­qui­nhos.

O Fort­num’s ver­da­dei­ro é na ca­ve on­de es­tá a ver­da­dei­ra mer­ce­a­ria, as car­nes, o pei­xe, o pão, a fru­ta, o sal­mão fu­ma­do, os quei­jos, os vi­nhos (de­li­ci­o­sa­men­te es­co­lhi­dos por Ja­mie Waugh), os des­ti­la­dos - e o en­can­ta­dor wi­ne bar on­de há sem­pre os­tras e quei­jos do pró­prio Fort­num’s pa­ra pe­tis­car.

Sem­pre fes­te­jei o Na­tal à in­gle­sa, cheio de in­ve­ja dos me­ni­nos por­tu­gue­ses que abri­am os pre­sen­tes na vés­pe­ra de Na­tal - e não de­pois do al­mo­ço do dia de Na­tal, co­mo nós.

Mas com o tem­po - co­mo sem­pre acon­te­ce - fui per­ce­ben­do que a mi­nha sor­te não era as­sim tão má. É ver­da­de que nos dei­tá­va­mos ce­do na vés­pe­ra de Na­tal mas mal acor­dá­va­mos tí­nha­mos os pre­sen­tes que o Pai Na­tal dei­xa­va na cha­mi­né da co­zi­nha. Eram pre­sen­tes fei­tos em Por­tu­gal (tam­bo­res, es­to­jos de car­pin­ta­ria, bo­ne­cos) mas eram co­lo­ri­dos e fa­zi­am ba­ru­lho. Os pre­sen­tes sé­ri­os - fei­tos nos Es­ta­dos Uni­dos e na In­gla­ter­ra - fi­ca­vam pa­ra de­pois de al­mo­ço.

Te­nho mui­ta pe­na que a ex­ce­len­te co­zi­nha in­gle­sa se­ja mal co­nhe­ci­da, a co­me­çar pe­la pró­pria In­gla­ter­ra. A mar­ma­la­de, que é o me­lhor (e mais va­ri­a­do) do­ce de la­ran­ja que co­nhe­ço, es­tá em de­clí­nio por­que os jo­vens gos­tam de ou­tras coi­sas ao pe­que­no­al­mo­ço.

Es­te Na­tal até o fa­mo­so Ch­rist­mas pud­ding en­trou em re­ces­são por­que as pes­so­as com me­nos de 35 anos pre­fe­rem o pan­ne­to­ne. Des­cul­pe? Sim, quem escreveu es­sa no­tí­cia de De­zem­bro de 2018 não sa­be que o Ch­rist­mas pud­ding, co­mo a pa­la­vra pud­ding in­di­ca (sig­ni­fi­ca so­bre­me­sa), se co­me no fi­nal da re­fei­ção, en­quan­to o pan­ne­to­ne se co­me a to­da a ho­ra (ide­al­men­te ao lan­che) ex­cep­to de­pois do al­mo­ço de Na­tal.

Co­mo fi­car com uma boa ideia do Na­tal in­glês? O pre­ço de dois bons pa­net­to­nes, in­cluin­do os por­tes, é 100 eu­ros (tal­vez os dois me­lho­res se­jam o de Igi­nio Mas­sa­ri e o da mer­ce­a­ria Peck, em Mi­lão).

A van­ta­gem do Fort­num’s é que co­bram 15 li­bras pe­los por­tes se­jam quais fo­rem o vo­lu­me e o pe­so da en­co­men­da. Va­le a pe­na apro­vei­tar pa­ra man­dar vir as ex­ce­len­tes (e pe­sa­das) com­po­tas e mar­ma­la­des

que eles têm.

Por 100 eu­ros com­pra-se o ini­gua­lá­vel Ch­rist­mas pud­ding - o King Ge­or­ge de 454 gra­mas (1 li­bra) vem nu­ma ti­ge­la de por­ce­la­na e cus­ta 25 li­bras. O Iced Ch­rist­mas ca­ke vem nu­ma lata, co­mo de­ve ser, e tam­bém cus­ta 25 li­bras.

Um boião de brandy but­ter

cus­ta 5 li­bras (pa­ra der­re­ter no Ch­rist­mas pud­ding) e uma mão cheia de brandy snaps (bo­la­chas es­ta­la­di­ças) mais 5 li­bras. So­bram 40 li­bras: 15 pa­ra os por­tes e, bem es­ti­ca­di­nhos, 30 li­bras pa­ra o li­vro de Tom Par­ker-Bo­wles (ir­mão da Ca­mil­la) cha­ma­do Fort­num’s Ch­rist­mas, as­si­na­do pe­lo au­tor.

O Ch­rist­mas pud­ding é um bo­lo en­char­ca­do de pas­sas, sul­ta­nas, co­rin­tos e ou­tras fru­tas se­cas que tem um sa­bor úni­co. Pa­ra ser­vi­lo dei­ta-se co­nha­que (ou rum,

O Ch­rist­mas pud­ding é um bo­lo en­char­ca­do de pas­sas, sul­ta­nas, co­rin­tos e ou­tras fru­tas se­cas que tem um sa­bor úni­co

con­for­me o ape­te­ci­men­to) e pe­ga­se-lhe fo­go. Apa­gam-se as lu­zes e é mui­to bo­ni­to e natalício.

De­ve ser ser­vi­do com cus­tard.É fá­cil de fa­zer co­mo de­ve ser (na­tas, ovos e uma va­gem de bau­ni­lha) mas tam­bém é ale­gre fa­zer ba­to­ta e usar cus­tard ins­tan­tâ­nea, co­mo o da mar­ca Bird’s. O im­por­tan­te é que o cus­tard não se­ja do­ce.

Pa­ra cho­ver no mo­lha­do acres­cen­ta-se brandy but­ter (man­tei­ga ba­ti­da com co­nha­que) ao pud­ding e, mal se der­re­te, vai pa­ra a bo­qui­nha.

Em su­ma: acho que o Ch­rist­mas pud­ding se acres­cen­ta bem à Con­so­a­da (e à aguar­den­te) por­tu­gue­sa.

P.S. Quan­to ao Ch­rist­mas ca­ke, é ape­nas um bo­lo de fru­tas mas é mui­to mais com­pli­ca­do do que is­so. A mi­nha mãe co­me­ça­va a fa­zê­lo em Ou­tu­bro por­que ga­nha mui­to em es­pe­rar três me­ses den­tro de uma lata, a ama­du­re­cer com a aguar­den­te com que é mo­lha­do. Fi­ca pa­ra ou­tra al­tu­ra.

JENNY DETTRICK/GETTY IMAGES

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