Em Men­ton o Car­na­val ri­ma com li­mão

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Du­ran­te du­as se­ma­nas, os ci­tri­nos, com as su­as es­tá­tu­as enor­mes, agi­tam a vi­da pa­ca­ta des­ta ci­da­de fran­ce­sa às por­tas de Itá­lia, país do qual pa­re­ce ter her­da­do o char­me e o mag­ne­tis­mo que lan­ça so­bre quem aca­ba de che­gar. Sou­sa Ribeiro

eu­ros e en­vol­ve umas qua­tro cen­te­nas de pessoas na co­mis­são de fes­tas, uns 200 ar­tis­tas e pou­co mais de uma cen­te­na de agen­tes res­pon­sá­veis por manter a or­dem ao lon­go dos dias em que de­cor­re o fes­ti­val – tal­vez um pou­co mais de­pois dos ac­tos ter­ro­ris­tas que afec­ta­ram al­gu­mas cidades fran­ce­sas, co­mo Ni­ce, por exem­plo.

To­dos os anos, re­pe­te-se o ri­tu­al: o primeiro pas­so, a exem­plo do que su­ce­de pre­ci­sa­men­te com o fa­mo­so Car­na­val de Ni­ce, con­sis­te em deAE­nir a te­má­ti­ca, es­te ano as fes­tas do mundo, nu­ma decisão que terá for­ço­sa­men­te de ser va­li­da­da pelo pre­si­den­te da câ­ma­ra. A fa­ce de Men­ton al­te­ra-se de acordo com o te­ma es­co­lhi­do, ofe­re­cen­do um con­jun­to de es­cul­tu­ras fas­ci­nan­tes, com a van­ta­gem de também po­de­rem ser vis­tas à noi­te (es­te ano a 15, 21 e 28 de Fevereiro), nos mes­mos Jar­dins Bi­ovès e num espectácul­o deAE­ni­do co­mo Jar­dins de Lu­miè­res, um mundo de luz que se abre à ima­gi­na­ção sob um céu por vezes apenas ilu­mi­na­do por uma lua tí­mi­da.

De re­pen­te, em­bo­ra ainda lon­ge, já se ou­vem os tam­bo­res que, im­pa­ci­en­tes, rom­pem o si­lên­cio da noi­te. O espectácul­o, pa­go, é um dos mais aguar­da­dos du­ran­te es­tes dias de fes­ta em Men­ton, o cor­so noc­tur­no (nes­ta edição nas noi­tes de 20 e 27 de Fevereiro), a agi­ta­ção des­cen­do so­bre a ci­da­de mal ela se dei­xa ba­nhar pe­los tons cre­pus­cu­la­res. Os sons fes­ti­vos inun­dam as ru­as e o es­pí­ri­to de Men­ton, a mú­si­ca con­sa­gra múl­ti­plos des­ti­nos, são as dan­ças, o fol­clo­re, os car­ros ale­gó­ri­cos car­re­ga­dos de la­ran­jas e li­mões, ar­tis­tas de rua por entre fo­gos e fu­mos, um desAE­le que me­xe com a ha­bi­tu­al se­re­ni­da­de da ci­da­de.

Tu­ris­mo de In­ver­no

Se os Jar­dins Bi­ovès são, oAE­ci­al­men­te, con­si­de­ra­dos o ber­ço des­te cer­ta­me que não tem pa­ra­le­lo (em ter­mos de di­men­são) no mundo, a ver­da­de é que a história do Fes­ti­val do Li­mão (ou a que lhe dá ori­gem), re­co­nhe­ci­do pelo mi­nis­té­rio da cultura fran­cês e ins­cri­to no in­ven­tá­rio do Pa­tri­mó­nio Cultural e Ima­te­ri­al da UNESCO, é ainda mais an­ti­ga – ou não es­ta­ria pron­ta para co­me­çar a vi­ver apenas a 87.ª edição.

Men­ton, co­mo tan­tos ou­tros lu­ga­res ao lon­go da Cô­te d’Azur, pou­co mais co­nhe­cia do que o tu­ris­mo de Ve­rão, man­ten­do-se qu­a­se nas tre­vas nos ou­tros me­ses do ano. Nos dias de ho­je, a vi­zi­nha que encanta os ita­li­a­nos pro­duz pelo me­nos uma de­ze­na de gran­des eventos du­ran­te o ano, pelo que é ra­ro o mês em que na­da acon­te­ce na ci­da­de.

Mas o Fes­ti­val do Li­mão, com to­dos aque­les ci­tri­nos co­lo­ca­dos ma­nu­al­men­te (a mão-de-obra que Men­ton re­quer é ele­va­da), mos­tran­do lu­ga­res do mundo, per­so­na­gens de li­vros que mar­ca­ram os nos­sos dias de in­fân­cia, na­que­le tom ama­re­lo e la­ran­ja, per­ma­ne­ce co­mo o acon­te­ci­men­to do ano, com cla­ros benefícios para a in­dús­tria do tu­ris­mo. Nos úl­ti­mos anos, são ca­da vez mais os con­vi­tes re­cu­sa­dos pe­la edi­li­da­de de Men­ton

O Fes­ti­val do Li­mão é um dos gran­des acon­te­ci­men­tos do ano em Men­ton, ci­da­de da Cô­te d’Azur

para ex­por­tar o Fes­ti­val do Li­mão, de­se­ja­do um pou­co por todo o la­do, em al­gu­mas das mai­o­res cidades chi­ne­sas, em Ko­be, no Ja­pão, em Or­lan­do, nos Es­ta­dos Uni­dos, ou mes­mo na Aus­trá­lia.

Deve-se ao tu­ris­mo e aos ho­te­lei­ros, já em AE­nais do sé­cu­lo XIX, a ideia de cri­ar um desAE­le com for­tes li­ga­ções ao Car­na­val para ani­mar a ci­da­de nos dias de In­ver­no. Num cur­to es­pa­ço de tempo, reis e prin­ce­sas, ar­tis­tas e anó­ni­mos co­me­ça­ram a ser atraí­dos a Men­ton, às su­as fes­tas e aos seus pa­lá­ci­os; nem a pró­pria rai­nha Vic­to­ria, com um rei­na­do apenas su­pe­ra­do por Isabel II, re­sis­tiu aos seus fes­te­jos car­na­va­les­cos. Já era muito mais do que um ru­mor, o Car­na­val de Men­ton; o seu fo­go-de-ar­ti­fí­cio (a não perder na sequên­cia de uma vi­si­ta ao Jar­dins de Lu­miè­res) an­da­va de bo­ca em bo­ca. É uma vez mais um ho­te­lei­ro a ter a ideia de inau­gu­rar, nas tra­sei­ras do seu lu­xu­o­so ho­tel, em Men­ton, em 1928, uma ex­po­si­ção que tinha o li­mão co­mo prin­ci­pal atrac­ti­vo.

No ano se­guin­te, a iniciativa era adop­ta­da pe­la câ­ma­ra, que pro­mo­via o ci­tri­no na sua pra­ça mais sim­bó­li­ca, sem gran­de con­vic­ção no iní­cio, mas cres­cen­do ra­pi­da­men­te, para se tornar ce­ná­rio de pro­mo­ção dos pro­du­tos da terra, dos seus vi­nhos e da sua gas­tro­no­mia, já a mú­si­ca e os desAE­les em tra­jes tra­di­ci­o­nais se iam ocu­pan­do de con­quis­tar também o seu es­pa­ço.

Há quem ju­re, por es­tes la­dos, que a pri­mei­ra vez em que o ter­mo Fes­ti­val do Li­mão foi es­cu­ta­do cor­ria o ano de 1933 – a ser ver­da­de, Men­ton fes­te­ja o seu 87.º ani­ver­sá­rio mas não nos con­vi­da para a 87.ª edição (in­viá­vel a or­ga­ni­za­ção du­ran­te os anos da II Guer­ra Mun­di­al mas não só).

A vo­ca­ção tu­rís­ti­ca da fes­ta aAEr­ma­se ca­da vez mais: quan­do o Car­na­val pa­re­ce mer­gu­lhar deAE­ni­ti­va­men­te na som­bra do de Ni­ce, sur­ge o Fes­ti­val do Li­mão para o sal­var, com no­vos

mo­ti­vos, pro­mo­ven­do um ci­tri­no com re­pu­ta­ção, ex­por­ta­do du­ran­te anos e anos em cai­xas de ma­dei­ra para tan­tos des­ti­nos no mundo. O aro­ma do li­mão, a be­le­za do li­mo­ei­ro, o per­fu­me e o exo­tis­mo, to­dos eles fo­ram ex­plo­ra­dos num tempo ca­da vez mais dis­tan­te, si­tu­a­do em AE­nais do sé­cu­lo XIX, para pro­mo­ver o ter­mo re­cen­te­men­te in­ven­ta­do por Stephen Li­e­gard, Cô­te d’ Azur, tão pre­sen­te ainda ho­je – e tal­vez mais ainda ho­je – no ima­gi­ná­rio de tan­tos tu­ris­tas.

O de­clí­nio do li­mão

É pre­ci­sa­men­te no AE­nal do sé­cu­lo XIX que se as­sis­te ao de­clí­nio da cultura dos ci­tri­nos na região. Aper­ta-se a con­cor­rên­cia, vin­da de Espanha e da Si­cí­lia, Men­ton e o seu porto per­dem ca­pa­ci­da­de de res­pos­ta, as novas cons­tru­ções para ve­ra­ne­an­tes avan­çam so­bre os ter­ri­tó­ri­os an­tes ocu­pa­dos por ter­re­nos agrí­co­las, on­de se de­sen­vol­via, entre ou­tras, a cultura do li­mão.

Men­ton co­me­ça a aAEr­mar-se co­mo ci­da­de bal­ne­ar e, as­so­ci­a­da a ela, es­se fes­ti­val tão sin­gu­lar, num tempo com li­mões lo­cais, nou­tro, mais re­cen­te, com li­mões espanhóis. Ho­je, um pou­co por aqui e por ali, tenta-se res­ga­tar a for­ça do li­mão de Men­ton, re­lan­çan­do a sua cultura, com novas plan­ta­ções e ven­da de pro­du­tos as­so­ci­a­dos, des­ti­na­dos à gas­tro­no­mia ou à cos­mé­ti­ca. Mas o tu­ris­mo foi ga­nhan­do for­ça, Men­ton já tinha, em 1913, mais de seis de­ze­nas de ho­téis – o frio ma­ta­va os li­mo­ei­ros (co­mo em 1956 e 1963) e o ca­lor atraía os tu­ris­tas. Mas até 1955 Men­ton re­ve­la­va-se au­to-suAE­ci­en­te na pro­du­ção de li­mões, sem se­quer ima­gi­nar que um dia, em con­sequên­cia des­se mau humor do clima, ha­ve­ria de ter de recorrer a Marrocos para as­se­gu­rar a cor nos seus dias fes­ti­vos.

A ten­dên­cia já vi­nha a acen­tu­ar-se, Men­ton es­ta­va ca­da vez mais de­pen­den­te dos mer­ca­dos ex­ter­nos para ma­te­ri­a­li­zar o Fes­ti­val do Li­mão e, de for­ma gra­du­al, coin­ci­din­do com a es­cas­sez, com o pre­ço, mas também com a con­ju­ga­ção de co­res, ape­lan­do aos dou­ra­dos de AE­nal de tarde, a la­ran­ja co­me­ça a im­por-se on­de an­tes rei­na­va o li­mão. Bas­ta re­gres­sar aos anos de 1980 para ob­ser­var a ma­nei­ra rápida co­mo o pro­du­to lo­cal foi per­den­do, de for­ma ir­re­me­diá­vel, para os ci­tri­nos pro­ve­ni­en­tes do Sul de Itá­lia, para as po­pu­la­res la­ran­jas de Va­lên­cia, para todo um mundo co­mer­ci­al que se abria e ao mes­mo tempo pa­re­cia fe­char-se so­bre Men­ton.

Há re­gis­tos de 1982, de nú­me­ros que conAEr­mam es­ta evo­lu­ção, com a mar­ca da Sociedade de Ar­te e de História

de Men­ton: na sua obra O Li­mão de Men­ton, de 2005, ela re­ve­la que, nes­se tempo, há qu­a­se 40 anos, em ca­da 100 to­ne­la­das de ci­tri­nos, 85% eram pro­ve­ni­en­tes da Si­cí­lia, al­guns cres­cen­do aos pés do mon­te Et­na, uns 10% oriun­dos da Flo­ri­da, do Te­xas e da Cór­se­ga e so­men­te uns 5% na­ti­vos. O li­mão de Men­ton é vis­to, para os lo­cais, co­mo demasiado gos­to­so e pre­ci­o­so, sem aci­dez, do­ce, tão do­ce que se po­de co­mer cru, um des­per­dí­cio para or­na­men­tar o fes­ti­val do ci­tri­no. Do li­mão, em Men­ton, faz­se mar­me­la­da e li­cor; in­fu­sões com mis­tu­ra de azei­te; e também bis­coi­tos para ter­mi­nar es­ta já lon­ga de­pen­dên­cia do li­mão. Mas não para de­co­rar.

Por uma ques­tão de es­té­ti­ca, im­por­ta-se: che­gam os ci­tri­nos e os tu­ris­tas, uns e ou­tros go­zam des­te clima que abençoa Men­ton du­ran­te tan­tos dias do ano.

Baía aben­ço­a­da

A ci­da­de, a mais oriental da Cô­te d’Azur, é pri­vi­le­gi­a­da por se en­con­trar nu­ma baía pro­te­gi­da por cin­co ir­mãos: para oci­den­te, o Cap-Mar­tin, para ori­en­te, na di­rec­ção de Itá­lia, pe­la Poin­te de la Mor­to­la; Men­ton bei­ja o Me­di­ter­râ­neo e as­pi­ra a beijar os Al­pes – os ou­tros três ir­mãos são o Mont-Agel, o Mont-Ours e o Ber­ce­au, to­dos si­tu­a­dos a uma al­ti­tu­de entre os 1149 e os 1200 me­tros, am­pa­ran­do a ci­da­de co­mo um be­bé num ber­ço cá­li­do.

É fá­cil deixar-se se­du­zir por ela, por es­se clima tão be­nig­no. To­dos jun­tos, entre os mais me­diá­ti­cos, os no­tá­veis que lá vi­ve­ram já exi­gem cin­co de­dos: Guy de Mau­pas­sant, Ro­bert Louis Ste­ven­son, Gus­ta­ve Flau­bert e Kathe­ri­ne MansAEeld, sem es­que­cer aque­le que se­rá o mais querido de to­dos para a po­pu­la­ção, Je­an Coc­te­au, re­si­den­te em Men­ton entre 1956 e 1958 e ainda ho­je re­cor­da­do co­mo um dos ho­mens que mais con­tri­buiu para o cresciment­o da ci­da­de.

Em Se­tem­bro de 1957, en­quan­to o po­e­ta Je­an Coc­te­au tra­ba­lha­va na de­co­ra­ção da sa­la de ma­tri­mó­ni­os (on­de ho­je se po­dem ver mui­tas das su­as obras e ce­ná­rio de tan­tos ma­tri­mó­ni­os ao lon­go dos tempos), o pre­si­den­te da câ­ma­ra, na altura, Fran­cis Pal­me­ro, propôs-lhe abrir um mu­seu com as su­as obras em Men­ton. Pa­re­ce que Coc­te­au não achou mui­ta pi­a­da à ideia – não se­rá si­nis­tro um mu­seu das mi­nhas obras, terá Coc­te­au per­gun­ta­do.

É pelo Bas­ti­on (im­por­tan­te con­sul­tar in­for­ma­ção tu­rís­ti­ca para não ser sur­pre­en­di­do com even­tu­ais chei­as) que se re­vê par­te do tes­ta­men­to de Je­an Coc­te­au. Je chan­ge­rais les ou­e­vres dés qu’ el­les pren­dont un air d’ ha­bi­tu­de.

Gos­to de ca­mi­nhar por es­tes la­dos, mais para lá, pe­la es­pla­na­de des Sa­blet­tes, de de­sem­bar­car nos es­pa­ços de­di­ca­dos a Je­an Coc­te­au, co­mo o bas­tião que aqui se le­van­ta des­de 1636, por ou­tros, mais fu­tu­ris­tas, também de­di­ca­dos a es­te homem que dei­xou uma mar­ca pro­fun­da na cultura de Men­ton.

A ci­da­de es­ten­de-se para lá do Fes­ti­val do Li­mão, vis­ta do mar é uma ci­da­de vai­do­sa, que se mi­ra sem­pre nas águas, com aque­las co­res, tan­tas co­res, por on­de vai es­prei­tan­do a Égli­se St-Mi­chel, so­bre quem re­cai o es­ta­tu­to de uma das mais su­bli­mes entre as igre­jas bar­ro­cas des­ta zo­na de Fran­ça. Na ci­da­de an­ti­ga, pro­jec­tan­do-se so­bre as vi­e­las por on­de apenas o vento pa­re­ce pas­sar, a igre­ja, com o seu in­te­ri­or cla­ra­men­te de inspiração ita­li­a­na, des­ta­ca-se a qualquer altura pelo meio da ar­qui­tec­tu­ra, pe­la for­ça do seu cam­pa­ná­rio. Mas não só: as su­as pa­re­des aco­lhem eventos ao lon­go do im­por­tan­te fes­ti­val de mú­si­ca que de­cor­re em Agosto, a at­mos­fe­ra em que está plan­ta­da, tão cheia de ma­gia, ro­de­a­da de tem­plos de culto e do cemitério de on­de a pa­no­râ­mi­ca se es­ten­de, re­ce­be os fãs do râguebi em pe­re­gri­na­ção, pres­tan­do a sua ho­me­na­gem ao in­ven­tor do desporto, Wil­li­am Webb El­lis, se­pul­ta­do em Men­ton.

Cain­do na ver­ti­cal so­bre as águas do Me­di­ter­râ­neo, Men­ton tem uma vo­ca­ção tu­rís­ti­ca, bal­ne­ar mas também cultural, cheia de tra­di­ções. Por is­so, o Fes­ti­val do Li­mão per­ma­ne­ce co­mo ele­men­to mais próximo des­ses cos­tu­mes an­ces­trais, está ca­da vez mais en­rai­za­do na cultura da ci­da­de, agar­ra­do à me­mó­ria lo­cal co­mo uma la­pa a uma ro­cha e tão cheio de his­tó­ri­as des­se tempo em que ne­nhum ou­tro li­mão tinha o per­fu­me do de Men­ton.

Ni­ce é o aeroporto mais próximo de Men­ton, si­tu­a­do a me­nos de 30 qui­ló­me­tros de dis­tân­cia. De Lisboa, há du­as com­pa­nhi­as aé­re­as, a easy­Jet (www.easy­jet. com) e a TAP (www.fly­tap.pt), que ofe­re­cem li­ga­ções di­rec­tas (não ne­ces­sa­ri­a­men­te diá­ri­as) para aque­la ci­da­de fran­ce­sa – e também do Porto, nas mes­mas con­di­ções, no ca­so da pri­mei­ra. A par­tir de Ni­ce, dis­põe de múl­ti­plas al­ter­na­ti­vas (de com­boio, de tá­xi, de car­ro alu­ga­do, entre ou­tras) para che­gar a Men­ton, lo­ca­li­da­de dos Al­pes-Ma­rí­ti­mos, nes­se cu­ri­o­so triângulo de­fi­ni­do pe­la Pro­ven­ça, os Al­pes e a Cos­ta Azul.

Mi­ra­zur

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Pre­ço: entre 160 e 260 eu­ros. Em 2019, o Mi­ra­zur con­quis­tou três es­tre­las Mi­che­lin e o es­ta­tu­to de me­lhor res­tau­ran­te do mundo, de acordo com o re­no­ma­do World’s 50 Best Res­tau­rants. Aqui, nes­te es­pa­ço do argentino Mau­ro Co­la­gre­co, com uma pa­no­râ­mi­ca ines­que­cí­vel so­bre o mar, os pre­ços para me­nus de de­gus­ta­ção não são para to­dos os bol­sos (e re­ser­var também não é má op­ção para quem não quer perder a opor­tu­ni­da­de de co­mer no me­lhor res­tau­ran­te do mundo).

“Está a ver aque­las pe­dras to­das lá em bai­xo”?, apon­ta a se­nho­ra de so­ta­que aço­ri­a­no para a con­ti­nen­tal que se­guia lo­go atrás no avião. “São vi­nhas.” “E dão vi­nho?”, res­pon­de­lhe a mu­lher.

Sim, as vi­nhas de pedra do Pi­co dão vi­nho. Os vi­nhos sin­gu­la­res são mes­mo as­sim, sa­em de lu­ga­res im­pro­vá­veis e di­fí­ceis. No Pi­co, a paisagem vi­nha­tei­ra foi es­cri­ta na la­va, mes­mo so­bre o mar, num clima se­mi­tro­pi­cal perfeito para as prin­ci­pais pra­gas da vi­nha. É uma paisagem tão es­ma­ga­do­ra que nun­ca nos can­sa­mos de exal­tar a sua be­le­za. Volta-se uma e ou­tra vez e re­pe­te-se a mes­ma sen­sa­ção de es­pan­to e des­lum­bra­men­to. “O Pi­co faz lem­brar o mon­te Fu­ji, no Ja­pão. Na par­te in­ter­mé­dia da mon­ta­nha, pa­re­ce que estamos na Suí­ça ou na No­va Ze­lân­dia. Na zo­na das vi­nhas, é pa­re­ci­do com Lan­za­ro­te. Mas em Lan­za­ro­te é só cin­za e no Pi­co não”, re­su­me, cer­tei­ro e em­pol­ga­do,

An­ton Ptush­kin, you­tu­ber ucra­ni­a­no que an­da há três a vi­a­jar pelo mundo e que en­con­trá­mos a AEl­mar vi­nhas na zo­na nor­te da ilha.

Há al­go de Íta­ca na ilha do Pi­co. Não a Íta­ca de Ulis­ses, até porque para che­gar à ilha ne­gra não é ne­ces­sá­rio en­fren­tar ada­mas­to­res, nem os hu­mo­res de Po­seí­don, o deus do mar. É mais a ideia de Íta­ca co­mo a ilha a que se quer sem­pre voltar, para re­a­ver as me­mó­ri­as felizes, sen­tir o mag­ne­tis­mo da sua mon­ta­nha e sa­bo­re­ar o de­li­ci­o­so vi­nho que sai da imen­sa teia de qua­drí­cu­las de pedra sol­ta, obra tão gi­gan­tes­ca co­mo era, nou­tros tempos, sair ao mar à ca­ça da ba­leia.

26 de Ju­lho de 1924. Quan­do o bar­co em que Raul Bran­dão se­guia se apro­xi­ma­va do Pi­co, vin­do do Fai­al, as vi­dei­ras den­tro dos cur­rais de pedra já de­vi­am dar uns pin­gos de ver­de à paisagem. Mas a ima­gem que o escritor AE­xou no seu ca­der­no de vi­a­gem

(que vi­ria a dar ori­gem ao li­vro As Ilhas Des­co­nhe­ci­das) foi a de uma ilha “ne­gra até às en­tra­nhas, na pró­pria terra, na ba­ga­ci­na das prai­as, no pó das es­tra­das, nas ca­sas, nos cam­pos di­vi­di­dos e sub­di­vi­di­dos por mu­ros de la­va, nas igre­ji­nhas das al­dei­as, re­quei­ma­das e tristes”. O as­pec­to, acres­cen­tou, era o “de um gran­de lu­to, de uma gran­de de­so­la­ção”.

Por es­sa altura, o “lu­to” era também so­ci­al e eco­nó­mi­co. A AE­lo­xe­ra di­zi­ma­ra boa par­te dos vi­nhe­dos e in­tro­du­zi­ra uma mu­dan­ça pro­fun­da na estrutura fun­diá­ria da ilha. Até aí, re­cor­da Pau­li­no Cos­ta, o di­rec­tor do ga­bi­ne­te téc­ni­co da paisagem da cultura da vi­nha na ilha do Pi­co, o mo­de­lo fun­diá­rio era muito pa­re­ci­do com o do Dou­ro. Ha­via gran­des “quin­tas”, que che­ga­vam a ir do mar até à mon­ta­nha, com a casa do pro­pri­e­tá­rio no meio. Per­ten­ci­am, so­bre­tu­do, a fa­mí­li­as AE­dal­gas do Fai­al, para quem o Pi­co era uma es­pé­cie de quin­tal que ge­ri­am à dis­tân­cia de um olhar ou de uma cur­ta vi­a­gem de bar­co. O Pi­co vi­veu qu­a­se sem­pre na de­pen­dên­cia da ilha vi­zi­nha, nu­ma su­bal­ter­ni­da­de his­tó­ri­ca que co­me­çou lo­go em 1482, quan­do, pe­ran­te o in­su­ces­so no po­vo­a­men­to por par­te do seu primeiro ca­pi­tão do­na­tá­rio, Ál­va­ro Or­ne­las, a in­fan­ta Be­a­triz de­ci­dir ane­xar a ges­tão do no­vo ter­ri­tó­rio à ca­pi­ta­nia do Fai­al, con­ce­den­do aos ha­bi­tan­tes des­ta ilha a possibilid­ade de cri­a­rem ga­do no Pi­co sem te­rem que vi­ver lá.

De­pois da AE­lo­xe­ra, os gran­des pro­pri­e­tá­ri­os do Fai­al co­me­ça­ram a ven­der as ter­ras aos ca­sei­ros e a par­ti­cu­la­res e a pro­pri­e­da­de co­me­çou a frag­men­tar-se. Para mui­tos pi­ca­ro­tos, com­prar ter­ras aos AE­dal­gos do Fai­al so­ou a gri­to do Ipi­ran­ga. Só que o tempo áu­reo do vi­nho do Pi­co já tinha pas­sa­do. No seu au­ge, na pri­mei­ra me­ta­de do sé­cu­lo XIX, chegou a pro­du­zir mais de 20 milhões de litros de vi­nho. Mas, no AE­nal do primeiro quar­tel

É uma paisagem tão es­ma­ga­do­ra que nun­ca nos can­sa­mos de exal­tar a sua be­le­za

do sé­cu­lo XX, a pro­du­ção já só re­pre­sen­ta­va cer­ca 1% da­que­le vo­lu­me – umas 100 pi­pas apenas.

Um dos seus me­lho­res mer­ca­dos, a Rússia, im­plo­di­ra. Em 1917, a re­vo­lu­ção bol­che­vi­que tinha co­lo­ca­do AEm à di­nas­tia Ro­ma­nov e le­va­do ao poder o partido de Le­ni­ne. O úl­ti­mo czar, Ni­co­lau II, acabou exe­cu­ta­do, jun­ta­men­te com a mu­lher e os AE­lhos. Na ca­ve do pa­lá­cio, fo­ram en­con­tra­das al­gu­mas gar­ra­fas de vi­nho do Pi­co. Não foi um aca­so. O vi­nho do Pi­co era mes­mo fa­mo­so na cor­te russa. Me­re­ceu até uma re­fe­rên­cia de Tols­toi no seu li­vro Guer­ra e Paz.

O vi­nho “pas­sa­do”

Que vi­nho era es­se? Era o Verdelho “pas­sa­do”, um bran­co de uvas bem ma­du­ras. O his­to­ri­a­dor e sa­cer­do­te aço­ri­a­no Gas­par Fru­tu­o­so (1522-1591) re­su­miu-o as­sim: “É tão ge­ne­ro­so e for­te que em na­da ce­de ao que na

Ma­dei­ra cha­mam Mal­va­zia; an­tes pa­re­ce que es­te vence aque­le, porque da Mal­va­zia, pou­ca quan­ti­da­de bas­ta para ali­e­nar um homem do seu juí­zo, não se aco­mo­da tan­to à saú­de; po­rém o vi­nho pas­sa­do do Pi­co em­pre­ga-se mais em gas­tar os maus hu­mo­res, con­for­tar o estô­ma­go, ale­grar o co­ra­ção, e avi­var, e não fa­zer perder o juí­zo, e uso da ra­zão, além de ser su­a­vís­si­mo no gos­to, e muito ‘con­for­ta­ti­vo’, ainda só com o chei­ro; e por is­so é muito es­ti­ma­do”.

Não tinha a do­çu­ra de um Porto ou de um Ma­dei­ra, porque, ao contrário des­tes, não era for­tiAE­ca­do com aguar­den­te. Era um vi­nho mais se­co. A fer­men­ta­ção po­dia du­rar mais de um ano. “Es­se é que era o vi­nho que ia para os cza­res, para os reis, para os Pa­pas. O res­to, que era o gros­so da pro­du­ção, era vi­nho co­mum, mais fra­co, que os in­gle­ses com­pra­vam para abas­te­cer as su­as co­ló­ni­as”, ex­pli­ca For­tu­na­to Gar­cia, um

dos pou­cos pro­du­to­res que con­ti­nua a pro­du­zir o tra­di­ci­o­nal “pas­sa­do” sem adi­ci­o­nar aguar­den­te. Fá-lo se­guin­do os pre­cei­tos do pai, Duarte Gar­cia, fa­le­ci­do em 2007 e que em 1970, de­pois de saber da descoberta no pa­lá­cio dos Ro­ma­nov, co­me­çou a en­gar­ra­far o seu vi­nho com a mar­ca Czar. Um acha­do.

Há uns tempos, de­pois de um com­pra­dor rus­so lhe ter pe­di­do um texto so­bre a história do vi­nho do Pi­co e a sua li­ga­ção aos cza­res, For­tu­na­to Gar­cia foi in­ves­ti­gar e des­co­briu que só nas du­as pri­mei­ras dé­ca­das do sé­cu­lo XIX en­tra­ram no porto de São Pe­ters­bur­go cer­ca de 24 mil litros de vi­nho “pas­sa­do”. Ca­da pipa de 225 litros era ven­di­da a cer­ca de 60 dó­la­res, “o mes­mo que ga­nha­va um homem do Pi­co em todo o ano”, diz.

O vi­nho “pas­sa­do” era ca­ro porque a sua pro­du­ção era di­fí­cil e re­du­zi­da. Pro­du­zia-se, so­bre­tu­do, nos cam­pos de la­ji­do da Cri­a­ção Ve­lha (con­ce­lho da Ma­da­le­na), San­ta Lu­zia, Pon­ta do Mistério (São Roque do Pi­co) e Baía da En­gra­de (Piedade, no con­ce­lho de La­jes do Pi­co). Eram lu­ga­res im­pos­sí­veis para qualquer ou­tra cultura que não a vi­nha. E mes­mo a vi­nha não foi uma descoberta ób­via e ime­di­a­ta.

Jul­ga-se que a pri­mei­ra vi­nha do Pi­co foi plan­ta­da no lu­gar da Sil­vei­ra, nas La­jes do Pi­co, na zo­na sul da ilha, mais quen­te e ami­gá­vel e por on­de co­me­çou o po­vo­a­men­to. A vi­ti­cul­tu­ra es­ten­deu-se de­pois à Prai­nha do Nor­te, mais a les­te, e só bas­tan­te mais tarde é que chegou à zo­na oes­te, nos ac­tu­ais con­ce­lhos da Ma­da­le­na e São Roque e on­de se si­tu­am os prin­ci­pais núcleos de vi­nha da ilha.

O po­vo­a­men­to da par­te oci­den­tal do Pi­co foi tar­dio “porque fal­ta­vam du­as coisas es­sen­ci­ais: cur­sos de água per­ma­nen­tes e terra ará­vel”, ex­pli­ca Pau­li­no da Cos­ta. Os apa­ren­te­men­te im­pe­ne­trá­veis cam­pos de la­va jun­to à cos­ta dis­su­a­di­am qualquer aven­tu­rei­ro, me­nos as ordens re­li­gi­o­sas se­di­a­das no Fai­al, que, já com ex­pe­ri­ên­cia vi­tí­co­la nou­tras re­giões, an­te­ci­pa­ram o po­ten­ci­al da­que­la zo­na. Os fra­des não eram lou­cos. Sa­bi­am que as me­lho­res vi­nhas “são aque­las que ou­vem o ca­ran­gue­jo can­tar”, que nas vi­nhas jun­to ao mar as uvas po­dem atin­gir mai­o­res gra­du­a­ções.

A aber­tu­ra de po­ços de ma­ré resolveu a fal­ta de água. As vi­dei­ras, es­sas, plan­ta­ram-nas nas fen­das dos cam­pos de la­ji­do e no pou­co so­lo que iam con­quis­tan­do à la­va mais sol­ta, o cha­ma­do bis­coi­to. Com a pedra so­bran­te, os pi­ca­ro­tos fo­ram cons­truin­do cur­ra­le­tas que ser­vi­am para pro­te­ger as vi­dei­ras das tem­pes­ta­des e das bri­sas sal­ga­das. Co­mo a pedra é ne­gra, acu­mu­la ca­lor du­ran­te o dia e à noi­te li­ber­ta-o para as vi­dei­ras, uma es­pé­cie de efei­to es­tu­fa que fa­vo­re­ce o ama­du­re­ci­men­to das uvas.

Lu­tar con­tra a na­tu­re­za com as for­ças to­das

Es­ta­va descoberta a ro­da. Com a cultura da vi­nha e o gi­gan­tes­co re­ti­cu­la­do de cur­ra­le­tas que foi sen­do er­gui­do, nas­ce­ram ca­sas so­la­ren­gas, ade­gas, ar­ma­zéns, alam­bi­ques, er­mi­das, pe­que­nos portos, an­co­ra­dou­ros, ro­la pi­pas, ri­lhei­ras (re­de de ca­mi­nhos mar­ca­dos a fer­ro na la­va pelo cons­tan­te trân­si­to dos car­ros de bois). Um impression­ante le­ga­do cultural e ar­qui­tec­tó­ni­co que, em 2004, a UNESCO clas­siAE­cou co­mo Pa­tri­mó­nio Mun­di­al. A área clas­siAE­ca­da é de 987 hec­ta­res, en­vol­vi­da por uma zo­na tam­pão de 1924 hec­ta­res, e tem co­mo em­ble­ma os sí­ti­os da Cri­a­ção Ve­lha (con­ce­lho da Ma­da­le­na) e o La­ji­do de San­ta Lu­zia (con­ce­lho de São Roque), am­bos im­plan­ta­dos em ex­ten­sos cam­pos de la­va, num ce­ná­rio de gran­de be­le­za.

Mais do que uma con­sa­gra­ção, tra­tou-se de um ver­da­dei­ro res­ga­te de uma cultura e de uma paisagem ame­a­ça­das de mor­te. “Em 2004, já só ha­via cer­ca de 140 hec­ta­res de vi­nhas em pro­du­ção, com uma po­pu­la­ção muito en­ve­lhe­ci­da e a paisagem bas­tan­te frag­men­ta­da”, re­cor­da Pau­li­no da Cos­ta. Pou­cas dé­ca­das bas­ta­ram para qu­a­se se­pul­tar mais de qua­tro sé­cu­los de cultura da vi­nha no Pi­co.

Com a dis­tin­ção, o Governo dos Açores lan­çou um con­jun­to de incentivos à re­a­bi­li­ta­ção e à ma­nu­ten­ção da paisagem tra­di­ci­o­nal nos núcleos prin­ci­pais. Nos pri­mei­ros anos, a ade­são dos vi­ti­cul­to­res foi baixa. Mas tu­do mu­dou a par­tir de 2008, quan­do os apoios fo­ram alar­ga­dos também à zo­na tam­pão. Des­de en­tão, a cultura da vi­nha no Pi­co ga­nhou um no­vo fô­le­go, im­pul­si­o­na­da pe­los ge­ne­ro­sos apoios re­gi­o­nais e pe­la che­ga­da à ilha de al­guns pro­du­to­res e enó­lo­gos do con­ti­nen­te, co­mo fo­ram o ca­so de Paulo Lau­re­a­no, primeiro (é o con­sul­tor da fa­mí­lia que pro­duz os vi­nhos Atlan­tis), e de António Ma­ça­ni­ta e Ber­nard Ca­bral (enó­lo­go da Ade­ga Co­o­pe­ra­ti­va

Para aco­mo­dar o seu cresciment­o, a Azo­res Wi­ne Com­pany está a con­cluir a cons­tru­ção de uma no­va ade­ga na zo­na das Bandeiras, na cos­ta nor­te, num in­ves­ti­men­to da or­dem dos três milhões de eu­ros. Na foto, novas vi­nhas da em­pre­sa na zo­na da Prai­nha

di­ga. An­tes da clas­siAE­ca­ção da UNESCO, ven­dia o seu Czar a me­nos de 20 eu­ros. Ho­je, ca­da gar­ra­fa des­te Verdelho “pas­sa­do”, pro­ve­ni­en­te de vi­nhas cen­te­ná­ri­as si­tu­a­das na zo­na da Cri­a­ção Ve­lha, cus­ta ao con­su­mi­dor AE­nal cer­ca de 90 eu­ros. “E não vou des­can­sar en­quan­to não ven­der ca­da gar­ra­fa a mais de 100 eu­ros à saí­da da ade­ga”, diz, sem qualquer ti­po de ar­ro­gân­cia. A ava­li­ar pelo ex­tra­or­di­ná­rio Czar 2013, o próximo a che­gar ao mer­ca­do, o vi­nho me­re­ce bem es­se di­nhei­ro. Se um Pê­ra-Man­ca cus­ta mais de 200 eu­ros, não é ne­nhum des­va­rio pe­dir 100 eu­ros por um vi­nho his­tó­ri­co e he­rói­co que é li­te­ral­men­te rou­ba­do à la­va.

De­zas­seis anos de­pois da clas­siAE­ca­ção da paisagem vi­nha­tei­ra co­mo Pa­tri­mó­nio Mun­di­al, a área de vi­nha no Pi­co volta a ter ex­pres­são na paisagem, com um efei­to de con­tá­gio vi­sí­vel também no di­na­mis­mo do alo­ja­men­to tu­rís­ti­co e da res­tau­ra­ção. A área em pro­du­ção apro­xi­ma-se já dos 900 hec­ta­res. “Tí­nha­mos uma paisagem mo­ri­bun­da, ago­ra te­mos uma paisagem viva e di­nâ­mi­ca”, re­ju­bi­la Pau­li­no Cos­ta.

Para a estrutura de­mo­gráAE­ca da ilha, on­de o “fan­tas­ma” da emi­gra­ção con­ti­nua la­ten­te, é uma área de vi­nha já con­si­de­rá­vel. Mas ainda há cer­ca de dois mil hec­ta­res de an­ti­gas vi­nhas que con­ti­nu­am co­ber­tas por gran­des man­chas de fai­as, ur­zes e in­cen­sos. Mui­tas es­tão qu­a­se in­tac­tas. São co­mo fós­seis so­ter­ra­dos pelo abandono e pe­la ve­ge­ta­ção. Se es­ta imen­sa re­de de cur­ra­le­tas fos­se pos­ta a des­co­ber­to, tal­vez se com­pre­en­des­se me­lhor a sur­pre­sa de Raul Bran­dão com o ce­ná­rio ene­gre­ci­do que en­con­trou à sua che­ga­da em 1924 (era mais ar­re­ba­ta­men­to do que desilusão: após qua­tro dias de vi­a­gem, pro­cla­ma­va que o Pi­co “é a mais be­la, a mais ex­tra­or­di­ná­ria ilha dos Açores”, uma “es­tá­tua er­gui­da até ao céu”).

Também se AE­ca­ria com uma no­ção mais exac­ta da di­men­são da epo­peia do vi­nho no Pi­co. O que foi cons­truí­do na­que­le ne­gru­me de la­va do­mi­na­do pe­la mais al­ta mon­ta­nha por­tu­gue­sa é ver­da­dei­ra­men­te co­los­sal. “Foi mes­mo lu­tar con­tra a na­tu­re­za com as for­ças to­das”, re­su­me Ti­to Sil­va, um dos no­vos vi­ti­cul­to­res do Pi­co e que pro­duz o vi­nha Cer­ca dos Fra­des (ver Pro­pos­ta da se­ma­na, na pá­gi­na 29).

ERIC GAILLARD/REU­TERS DR

NI­CO­LAS SARTORE OF­FI­CE TOURISME MEN­TON

DR NI­CO­LAS SARTORE OF­FI­CE TOURISME MEN­TON

A fa­ce de Men­ton al­te­ra-se de acordo com o te­ma es­co­lhi­do a ca­da edição do fes­ti­val, mas há sem­pre um con­jun­to de es­cul­tu­ras fas­ci­nan­tes, que também po­dem ser vis­tas à noi­te

No Pi­co, a paisagem da vi­nha foi es­cri­ta na la­va, mes­mo so­bre o mar. À es­quer­da, uma vi­nha na Cri­a­ção Ve­lha

MI­GUEL MAN­SO

PEDRO CUNHA

LUÍS MAIO

DR

DR

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