“A ga­li­nha da vi­zi­nha…”

Publico - Imobiliario - - Opinião - Luís Lima

Já por vá­ri­as ve­zes es­cre­vi nesta co­lu­na so­bre a im­por­tân­cia que o alo­ja­men­to lo­cal teve e tem para a di­na­mi­za­ção do sec­tor imo­bi­liá­rio e da economia. Se, no iní­cio, a re­vol­ta com a ex­pan­são des­te mer­ca­do era so­bre­tu­do dos ho­te­lei­ros (al­guns dos quais até aca­ba­ram por se con­ver­ter a es­te ne­gó­cio…), mais tar­de es­pa­lhou­se por di­ver­sas fa­ções da sociedade, que apon­tam ar­mas a es­te mer­ca­do acu­san­do-o de ma­tar a ha­bi­ta­ção dos jo­vens e fa­mí­li­as em Por­tu­gal.

Não sou in­gé­nuo, e sei bem que mui­tos pro­pri­e­tá­ri­os vi­ram o bom momento do tu­ris­mo em Por­tu­gal e o “bo­om” de pla­ta­for­mas com o Airbnb co­mo uma opor­tu­ni­da­de de ren­ta­bi­li­zar os seus ati­vos. Al­guns es­ta­ri­am efe­ti­va­men­te ocu­pa­dos por in­qui­li­nos, que se vi­ram obri­ga­dos a aban­do­nar as su­as ca­sas, mas a grande mai­o­ria in­ves­tiu na re­a­bi­li­ta­ção e re­ge­ne­ra­ção das su­as ca­sas ou pré­di­os de­vo­lu­tos (de acor­do com a AH­RESP, 60% das ca­sas que es­tão no mer­ca­do de alo­ja­men­to lo­cal em Lisboa es­ta­vam de­so­cu­pa­das), para apos­tar nes­te mer­ca­do, ge­rar ri­que­za e até em­pe­go.

Sei que nas prin­ci­pais ci­da­des do país, o pro­ble­ma ha­bi­ta­ci­o­nal ge­ra mui­to al­vo­ro­ço, so­bre­tu­do nes­te pe­río­do atí­pi­co em que grande par­te das fa­mí­li­as não tem con­di­ções nem para com­prar nem para ar­ren­dar uma ca­sa, tais são os va­lo­res pra­ti­ca­dos. Mas se­rá o pro­ble­ma do alo­ja­men­to lo­cal, do tu­ris­mo e dos estrangeiros?

Há anos per­di­dos que se dis­cu­tem leis de ar­ren­da­men­to, e se an­da para trás e para di­an­te com leis e propostas de lei. Vis­lum­bres de um mer­ca­do de ar­ren­da­men­to di­nâ­mi­co? Nem um. Ape­nas um aba­lo, ali nos anos da cri­se em que os ban­cos fe­cha­ram a tor­nei­ra do cré­di­to e as pes­so­as não ti­nham al­ter­na­ti­va.

E porquê? Por­que o es­sen­ci­al nun­ca foi me­xi­do. Por­que se olha para os pro­pri­e­tá­ri­os co­mo se eles ti­ves­sem obri­ga­ção de ge­rar ha­bi­ta­ção para to­da a gen­te, e não pu­des­sem ser um pou­qui­nho mais am­bi­ci­o­sos e ge­rar ri­que­za com os seus pró­pri­os ati­vos.

Os se­nho­ri­os não são o Es­ta­do e não se po­dem subs­ti­tuir ao Es­ta­do. A me­nos, cla­ro, que o Es­ta­do lhes dê be­ne­fí­ci­os para que o fa­çam, co­mo in­cen­ti­vos fis­cais ou ou­tros, que tor­nem o mer­ca­do de ar­ren­da­men­to ha­bi­ta­ci­o­nal atra­ti­vo a quem quei­ra ne­le in­ves­tir.

As propostas que fo­ram dis­cu­ti­das no par­la­men­to na pas­sa­da sex­ta-feira, são, por si só, um as­som­bro a um mer­ca­do que tan­to tem dado ao país. Pas­sá­mos anos a cho­rar a au­sên­cia de em­pre­go, a au­sên­cia de re­a­bi­li­ta­ção, a au­sên­cia de in­ves­ti­men­to, e ago­ra que ele nos che­ga qua­se de mão bei­ja­da, vi­ra­mos a pal­ma e dei­xa­mo-lo cair?

Dei­xar nas mãos dos con­dó­mi­nos a decisão so­bre se os vi­zi­nhos po­dem ou não fa­zer alo­ja­men­to lo­cal na sua pró­pria ca­sa, é ma­tar es­te ne­gó­cio, é di­zer adeus a es­te mer­ca­do. O di­ta­do “a ga­li­nha da vi­zi­nha é sempre me­lhor que a mi­nha” apli­ca-se na per­fei­ção á ge­ne­ra­li­da­de dos por­tu­gue­ses, que se sen­tem sempre um pou­co in­sa­tis­fei­tos com o su­ces­so que os ou­tros pos­sam ter, mes­mo que se­ja re­sul­ta­do de mui­to es­for­ço.

To­dos sa­be­mos e co­nhe­ce­mos his­tó­ri­as de as­sem­blei­as de condomínio que são ver­da­dei­ras rá­bu­las, dig­nas de in­te­grar um guião có­mi­co-trá­gi­co. Dei­xar ago­ra nas mãos dos vi­zi­nhos a decisão quan­to ao que po­dem fa­zer com um ati­vo que é seu, é tão in­jus­to quan­to per­ver­so, pa­re­cen­do que o alo­ja­men­to lo­cal é um mer­ca­do que po­de­rá ser ape­nas ex­pla­na­do por ri­cos, que pos­sam com­prar pré­di­os in­tei­ros para se de­di­car a es­sa ati­vi­da­de. 2018 co­me­ça mal. Para o imo­bi­liá­rio e para a economia.

Presidente da APEMIP luis­li­[email protected]

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