Kaf­fe Matthews vem ao Porto fa­zer uma ópe­ra pa­ra bi­ci­cle­tas — e pa­ra ci­clis­tas

Publico - Ipsilon - - FRONT PAGE -

É o pri­mei­ro item co­nhe­ci­do do pro­gra­ma des­te ano do Ser­ral­ves em Fes­ta: a com­po­si­to­ra e ar­tis­ta so­no­ra bri­tâ­ni­ca Kaf­fe Matthews (Es­sex, 1961) es­tá a tra­ba­lhar com o gru­po de te­a­tro Vi­sões Úteis nu­ma ópe­ra pa­ra bi­ci­cle­tas que po­de­rá ser vis­ta no Porto (mas só por qu­em sou­ber pe­da­lar) de 25 de Maio a 6 de Ju­nho. Tal co­mo em Ghent, na Bél­gi­ca, on­de Matthews ex­pe­ri­men­tou o dis­po­si­ti­vo no ano pas­sa­do, o es­pec­ta­dor se­rá o agen­te do es­pec­tá­cu­lo: o rit­mo a que se aven­tu­rar no cam­po so­no­ro pre­vi­a­men­te ma­pe­a­do pe­la ar­tis­ta e ac­ti­va­do por ca­da bi­ci­cle­ta (ar­ti­lha­da com co­lu­nas, am­pli­fi­ca­do­res e GPS) atra­vés de sis­te­mas de ge­o­lo­ca­li­za­ção de­ter­mi­na­rá boa par­te da ex­pe­ri­ên­cia. Matthews pas­sou al­guns di­as da se­ma­na pas­sa­da a es­tu­dar o percurso da sua ópe­ra. Não ha­via, diz ao Íp­si­lon, gran­de mar­gem de ma­no­bra: “O Porto é se­gu­ra­men­te uma das ci­da­des me­nos ci­clá­veis da Eu­ro­pa, e o equi­pa­men­to tor­na es­ta bi­ci­cle­tas um pou­co mais pe­sa­das, o que de­sa­con­se­lha su­bi­das. Até por­que as bi­ci­cle­tas são bel­gas: não têm mu­dan­ças”, ri-se. De­fi­ni­do o percurso, Kaf­fe Matthews vai ago­ra co­me­çar a tra­ba­lhar no con­teú­do do es­pec­tá­cu­lo com a equi­pa do Vi­sões Úteis, que aqui re­gres­sa a um ter­ri­tó­rio co­nhe­ci­do — ins­pi­ra­da pe­lo tra­ba­lho de Ja­net Car­diff, a com­pa­nhia de te­a­tro do Porto já pro­du­ziu vá­ri­os au­di­owalks (pe­ças so­no­ras pa­ra ou­vir de aus­cul­ta­do­res por um es­pec­ta­dor dis­pos­to a ca­mi­nhar) e até um es­pec­tá­cu­lo a bor­do de um tá­xi. The swamp that was, a ópe­ra de há um ano em Ghent, de­sen­ter­ra­va o pas­sa­do ocul­to da ci­da­de atra­vés de fic­ções so­no­ras re­la­ci­o­na­das com as su­as an­te­ri­o­res en­car­na­ções; no Porto, e depois da sua pri­mei­ra ma­nhã em ci­ma da bi­ci­cle­ta, Matthews es­ta­va en­tu­si­as­ma­da com as di­nâ­mi­cas ri­bei­ri­nhas e em­pe­nha­da em apro­xi­mar-se da co­mu­ni­da­de pis­ca­tó­ria da Afu­ra­da, na ou­tra mar­gem do Dou­ro, on­de tal­vez ve­nha a fa­zer al­gu­mas gra­va­ções de cam­po. Ape­sar das di­fi­cul­da­des im­pos­tas pe­los aci­den­tes to­po­grá­fi­cos da ci­da­de, a ar­tis­ta acre­di­ta que se­rá pos­sí­vel trans­for­má-lo nu­ma pai­sa­gem es­te­re­o­fó­ni­ca ci­clá­vel: “E é in­crí­vel co­mo a rua mais abor­re­ci­da se trans­fi­gu­ra quan­do lhe so­bre­po­mos um cam­po so­no­ro. Pa­ra o es­pec­ta­dor, que ao mes­mo tem­po é per­for­mer, se­rá co­mo en­trar num fil­me. Pa­ra mim, que du­ran­te anos apre­sen­tei a mi­nha mú­si­ca em sa­las fe­cha­das, num cer­to ni­cho de pri­vi­lé­gio, fa­zer uma ópe­ra ao ar li­vre é uma in­crí­vel opor­tu­ni­da­de pa­ra atin­gir mais pes­so­as.” I.N.

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