Cró­ni­ca Cláu­dia Sil­va* Car­ta ao meu irm

Publico - Ipsilon - - Primeira Página -

A8 de Se­tem­bro acor­dei em mi­nha ca­sa, em Lis­boa, com uma no­ti­fi­ca­ção de men­sa­gem vin­da do WhatsApp. Com os olhos ain­da em­ba­ça­dos, vi lo­go que o “zap” vi­nha do gru­po “Ir­mãos”. A fo­to do gru­po é sin­gu­lar, ti­ra­da em Ar­cos, pe­que­na ci­da­de do es­ta­do de Mi­nas Ge­rais, Brasil pro­fun­do. Mos­tra os meus três ir­mãos ho­mens, e eu com um la­ci­nho vermelho na ca­be­ça. É uma fo­to do meu pri­mei­ro ani­ver­sá­rio. E tam­bém de um ir­mão, cin­co anos mais ve­lho, que faz anos qua­se no mes­mo dia que eu. Na fo­to, es­tá atrás de nós uma sa­mam­baia (fe­to em Por­tu­gal), bem fron­do­sa e vi­ço­sa, e à nos­sa fren­te um bo­lo gran­de, bem bra­si­lei­ro, cheio de açú­car. Eis a me­mó­ria do iní­cio da mi­nha vi­da. O pre­sen­te já não é tão do­ce.

Li o “zap”. Meu co­ra­ção dis­pa­rou. E sen­ti um pe­so de chum­bo no meu om­bro di­rei­to. De­sem­ba­cei os olhos. Li a men­sa­gem ou­tra vez. Vá­ri­as ima­gens e me­mó­ri­as evo­ca­das por aque­la fo­to do gru­po as­sal­ta­ram a mi­nha men­te. Fui inun­da­da por um sen­ti­men­to de con­fu­são. Éra­mos qua­tro ir­mãos, en­tre eles uma mu­lher ne­gra e um ra­paz ho­mos­se­xu­al. Éra­mos qua­tro ir­mãos ne­gros, num país de pro­fun­da de­si­gual­da­de ra­ci­al/so­ci­al e he­ran­ça es­cra­vo­cra­ta. Tí­nha­mos so­bre­vi­vi­do, em­bo­ra te­nha­mos fi­ca­do ór­fãos na in­fân­cia (pa­ra mim) e ado­les­cên­cia (pa­ra eles). Cres­ce­mos sau­dá­veis. So­mos bo­ni­tos, for­tes e in­te­li­gen­tes. Re­pre­sen­ta­mos uni­dos, no en­tan­to, o que Jair Bol­so­na­ro de­tes­ta e des­pre­za na so­ci­e­da­de: a ne­gri­tu­de, a fe­mi­ni­li­da­de, a ho­mos­se­xu­a­li­da­de, a fra­gi­li­da­de eco­nó­mi­ca, o ris­co so­ci­al, e nu­ma ex­ten­são de sen­ti­do da mi­nha iden­ti­da­de, a imi­gra­ção. Se­ria ape­sar dis­to tu­do um dos meus ir­mãos um elei­tor de um can­di­da­to de ex­tre­ma-di­rei­ta, fas­cis­ta? Por vá­ri­as ra­zões, al­gu­mas de­las aqui evi­den­ci­a­das, não que­ria acre­di­tar. O tal zap do meu ir­mão con­sis­tia nu­ma no­tí­cia com mui­tas afir­ma­ções dú­bi­as so­bre a fa­ca­da mal­di­ta em Bol­so­na­ro. Não ti­nha fon­tes no cor­po do tex­to, nem

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