A iden­ti­da­de é o lu­gar, não é a lín­gua

Publico - Ipsilon - - Primeira Página - Isa­bel Lu­cas

A pai­sa­gem é ele­men­to de­ter­mi­nan­te da obra de Cy­nan Jones, o es­cri­tor ga­lês de 43 anos que pro­cu­ra a con­ci­são má­xi­ma acer­ca de um mun­do inós­pi­to, in­te­ri­or, a ques­ti­o­nar os li­mi­tes do hu­ma­no. Uma con­ver­sa quan­do che­ga a Por­tu­gal o se­gun­do ro­man­ce do au­tor, Aqui­lo que En­con­tei na Praia.

Na­que­la ter­ra, Gr­ze­gorz só não es­tra­nha­va o frio. Ali, “fa­zia frio. Co­mo na Po­ló­nia”. E era um frio bom, “re­vi­go­ran­te”, a lem­brá-lo de ca­sa de on­de saí­ra por­que que­ria que a sua vi­da não fos­se ape­nas aqui­lo, a quin­ta da fa­mí­lia que mal da­va pa­ra so­bre­vi­ver. Mas há um ano no País de Ga­les, a tra­ba­lhar num ma­ta­dou­ro e a par­ti­lhar ca­sa com 28 pes­so­as, imi­gran­tes co­mo ele, Gr­ze­gorz ia per­den­do o jei­to de olhar pa­ra a mu­lher, pa­ra o fi­lho pe­que­no, e agora pa­ra o be­bé que nas­ce­ra. Pa­re­cia pre­so a uma con­di­ção de po­bre­za e de sub­ser­vi­ên­cia. Ou se­ja, a vi­da con­ti­nu­a­va di­fí­cil. Is­so tam­bém não era es­tra­nho, mas, ao con­trá­rio da­que­le frio, não lhe tra­zia con­for­to al­gum. “É o mes­mo frio do Nor­te da Eu­ro­pa”, diz Cy­nan Jones, es­cri­tor, cri­a­dor des­ta per­so­na­gem en­tre o me­do, o de­ses­pe­ro e a es­pe­ran­ça, al­guém que vai sus­sur­ran­do pa­ra si “se há uma opor­tu­ni­da­de, há que apro­vei­tá-la”.

Gr­ze­gorz exis­te en­tre sua me­mó­ria das pla­ní­ci­es ru­rais e a re­a­li­da­de ac­tu­al de uma ter­ra costeira jun­to da baía de Car­di­gan. “Gr­ze­gorz acre­di­ta­ra nu­ma vi­são da­que­le país que afi­nal não exis­tia. Ener­va­va-o a mo­no­to­nia dos edi­fí­ci­os, a fa­di­ga que per­me­a­va to­da aque­la zona, as lo­jas par­da­cen­tas com le­trei­ros ava­ri­a­dos. Na­da dis­so ba­tia cer­to com o que ele ima­gi­na­ra. Ha­via al­go em fal­ta e is­so in­qui­e­ta­va-o, mas, es­tra­nha­men­te, não con­se­guia iden­ti­fi­car o quê”, lê-se.

O po­la­co exis­te ali. Pa­ra Cy­nan Jones a ge­o­gra­fia não só im­por­ta co­mo é de­ter­mi­nan­te no que escreve. “O lu­gar de­ter­mi­na a his­tó­ria, de­ter­mi­na as per­so­na­gens. Não pen­so nu­ma his­tó­ria sem o lu­gar. No fun­do, é a pai­sa­gem que for­ne­ce a his­tó­ria”, con­ti­nua num prin­cí­pio de con­ver­sa on­de a pri­mei­ra li­ção foi di­zer bem o seu no­me.

Cy­nan lê-se Ké­non, mais ou me­nos. Ele re­pe­te, pro­lon­gan­do um “é” que não ve­mos es­cri­to. É um no­me ga­lês, co­mo ele. E Gr­ze­gorz é um no­me po­la­co que Cy­nan Jones não sa­be co­mo se pro­nun­cia. Gr­ze­gorz exis­te a par de Hol­den, um pes­ca­dor de uma pe­que­na vi­la tam­bém de Car­di­gan, na cos­ta Oeste de Ga­les, pai­sa­gem que do­mi­na e à qual per­ten­ce, em­bo­ra par­ti­lhe com o po­la­co a claus­tro­fo­bia de uma exis­tên­cia à par­ti­da con­de­na­da à mar­gem de Aqui­lo Que En­con­trei Na Praia Cy­nan Jones (Trad. Miguel Ro­mei­ra) El­si­no­re qu­al­quer su­ces­so ma­te­ri­al. Hol­den — ou Hold, co­mo é sem­pre cha­ma­do — as­su­miu co­mo mis­são pes­so­al ze­lar pe­la mu­lher e o fi­lho pe­que­no do me­lhor ami­go.

Hol­dez e Gzer­gorz são as per­so­na­gens cen­trais de Aqui­lo que En­con­trei na Praia, o se­gun­do ro­man­ce de Cy­nan Jones, que co­nhe­ce edi­ção em Por­tu­gal se­te anos após a ori­gi­nal e num mo­men­to em que o ga­lês se im­põe co­mo um dos jo­vens au­to­res mais res­pei­ta­dos e ino­va­do­res, não ape­nas no seu país co­mo no uni­ver­so das le­tras bri­tâ­ni­cas.

Com cin­co ro­man­ces pu­bli­ca­dos, três dos quais em por­tu­guês — A Cova ( Cavalo de Fer­ro, 2016) e A Baía (El­si­no­re, 2017), além des­te Aqui­lo Que En­con­trei na Praia (El­si­no­re) —, con­tos, ar­gu­men­tos pa­ra te­le­vi­são e um li­vro pa­ra cri­an­ças, Cy­nan Jones con­quis­tou a aten­ção do mun­do li­te­rá­rio ao ven­cer a edi­ção de 2017 do BBC National Short Story Award com o con­to The Ed­ge of the Sho­al, ver­são re­du­zi­da de A Baía es­cri­ta pa­ra a New Yor­ker.

“O en­gra­ça­do é que es­se con­to co­me­çou por ser um ro­man­ce com 30 mil pa­la­vras. Não re­sul­tou e de­pois tra­ba­lhei-o e trans­for­mei-o nu-

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