Car­ga ao mar

Publico - Ipsilon - - Primeira Página -

Car­ga

De Bru­no Gascon

Com Michalina Olszanska, Vítor Nor­te, Rita Blanco Não se po­de acu­sar o por­tu­guês Bru­no Gascon, em tem­po de es­treia na lon­ga-me­tra­gem, de fal­ta de am­bi­ção: o te­ma de Car­ga é o trá­fi­co hu­ma­no, tra­ta­do atra­vés da his­tó­ria de uma jo­vem rus­sa for­ça­da a pros­ti­tuir-se pe­la re­de que a traz pa­ra Por­tu­gal. É um te­ma que já ins­pi­rou a Te­re­sa Vil­la­ver­de um dos seus fil­mes mais mis­te­ri­o­sos, Tran­se (2006);

Gascon pa­re­ce que­rer tra­tá-lo nu­ma ló­gi­ca mais mains­tre­am de thriller dramático — mas aca­ba por fa­zê-lo, ao mes­mo tem­po e de mo­do apa­ren­te­men­te con­tra­di­tó­rio, com ex­ces­si­va si­su­dez e ex­ces­si­va le­vi­an­da­de. Ex­ces­si­va le­vi­an­da­de por­que tu­do é pre­vi­sí­vel, des­de a mú­si­ca re­dun­dan­te a su­bli­nhar o que o es­pec­ta­dor é su­pos­to sen­tir a uma nar­ra­ti­va cheia de re­vi­ra­vol­tas que o fil­me nun­ca sa­be tor­nar ve­ro­sí­meis. Ex­ces­si­va si­su­dez, por­que tu­do é pom­po­so e pa­tu­do, da gran­di­o­si­da­de pro­cu­ra­da de uma en­ce­na­ção cui­da­da e de uma fo­to­gra­fia lu­xu­o­sa em mo­do “que bem que eu fil­mo” (e, de fac­to, fil­ma) àque­le car­tão fi­nal que de­di­ca o fil­me às ví­ti­mas do trá­fi­co hu­ma­no com um “po­di­as ser tu”.

Um realizador mais ex­pe­ri­en­te te­ria des­pa­cha­do em 20 mi­nu­tos o que Gascon le­va to­da a pri­mei­ra ho­ra a con­tar; pre­o­cu­par-se-ia mais em cons­truir per­so­na­gens em vez de bo­ne­cos que exis­tem ape­nas por­que a his­tó­ria pre­ci­sa de­les e que en­tram e sa­em, ou em tra­ba­lhar o ar­gu­men­to pa­ra que a sua nar­ra­ti­va frágil sus­ten­tas­se du­as ho­ras de fil­me. E, so­bre­tu­do, te­ria evi­ta­do fil­mar gra­fi­ca­men­te as vi­o­la­ções e os abu­sos e os as­sas­si­na­tos que o fil­me faz ques­tão de mos­trar. Que sim, são par­te in­te­gran­te do pro­ble­ma do trá­fi­co hu­ma­no, mas que sur­gem pa­re­des-mei­as com o gra­tui­to qua­se voyeu­ris­ta sob a ca­pa frágil de de­nún­cia ma­ni­queís­ta (o pu­dor com que du­as das mor­tes são mos­tra­das, já em di­rec­ção ao fim, soa qua­se a fal­so de­pois do que apa­re­ceu an­tes). Car­ga po­dia ter evi­ta­do as ar­ma­di­lhas con­ti­das no seu te­ma e na von­ta­de de ci­ne­ma que Bru­no Gascon de­mons­tra ter; em vez dis­so, cai ne­las to­das, e não ti­nha ne­ces­si­da­de ne­nhu­ma.

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Portugal

© PressReader. All rights reserved.