De Pedro Cos­ta e Sér­gio Tré­faut

Publico - Ipsilon - - Primeira Página -

história de opres­são que quer re­la­ci­o­nar o po­der dos la­ti­fun­diá­ri­os com o mun­do do tra­ba­lho de ou­tros tem­pos, do nos­so tem­po, tem si­do vis­to, en­tão, co­mo es­ta­be­le­ci­men­to do te­ma dos de­sa­pos­sa­dos co­mo pre­o­cu­pa­ção per­sis­ten­te, após an­te­ri­or passagem pe­lo mes­mo ter­ri­tó­rio — Alen­te­jo, Alen­te­jo (2014). Quan­do ques­ti­o­na­do so­bre o as­so­mo re­pen­ti­no da ci­ne­fi­lia em Rai­va, com in­fluên­ci­as evi­den­tes dos cor­pos e pai­sa­gens do wes­tern de Ford e Anthony Mann, on­de lhe elo­gi­a­mos a se­cu­ra, a su­pres­são de diá­lo­gos e a fu­ga ao for­ma­lis­mo on­de al­guns que­rem en­cer­rar o filme, ele con­fir­ma, pois se Tre­blin­ka (2016) não se­ria pos­sí­vel sem os com­boi­os de Sho­ah (1985) de Lanz­mann, a história do ci­ne­ma é aqui de­ter­mi­nan­te e re­for­ça a ideia de cons­tru­ção pe­ça a pe­ça de uma obra.

On­de Tré­faut se fur­ta, Cos­ta cons­trói um te­ma, dir-se-ia um ideá­rio po­lí­ti­co, de for­ma ine­ga­vel­men­te con­sis­ten­te, co­mo de­mons­tra a ex­tra­or­di­ná­ria ex­po­si­ção que se dis­põe na pe­num­bra das vá­ri­as sa­las de Ser­ral­ves. A ex­po­si­ção cru­za dis­ci­pli­nas e afi­ni­da­des co­nhe­ci­das, com ar­tis­tas co­mo Rui Cha­fes e Pau­lo No­zo­li­no, a lin­gua­gem do ci­ne­ma dos ca­ma­ra­das Straub-Huil­let e uma pro­fu­são de fil­mes, on­de se des­ta­ca a ve­lha e au­to­ral Hollywo­od: a luz de Ford, o ro­man­tis­mo de Bor­za­ge, o ne­gru­me de Lang (ain­da na Ale­ma­nha que em­pre­nha­va o na­zis­mo), o hu­ma­nis­mo de Cha­plin, os ex­ces­sos do ico­no­clas­ta Stroheim, e a ode à Amé­ri­ca de Stars in my Crown (1950) de Tor­neur, on­de es­pe­rá­va­mos en­con­trar I Wal­ked With a Zom­bie (1943).

Após a con­clu­são da for­ma­ção na Es­co­la Su­pe­ri­or de Te­a­tro e Ci­ne­ma ( jun­ta­men­te com Ma­nu­el Mo­zos, João Pedro Rodrigues, Jo­a­quim Sa­pi­nho ou Te­re­sa Vil­la­ver­de, que cor­res­pon­de à pri­mei­ra for­na­da de ci­ne­as­tas saí­dos das mãos de António Reis e Pau­lo Rocha, en­tre ou­tros), a pri­mei­ra lon­ga de Pedro Cos­ta, O San­gue, histórias de in­fân­cia e ju­ven­tu­de, ser­ve pa­ra ar­ru­mar as in­fluên­ci­as, de The Night Of The Hun­ter (1955) à es­té­ti­ca e aos lu­ga­res de Mi­zo­gu­chi ( Con­tos da Lua Va­ga [1953] es­tá tam­bém na­que­les pe­que­nos ecrãs de Ser­ral­ves). Se é uma das gran­des pri­mei­ras obras do ci­ne­ma por­tu­guês, a “obra” de Cos­ta só ar­ran­ca à se­gun­da: de Cabo Verde e da sua pai­sa­gem vul­câ­ni­ca, da Casa de Lava (1994), bro­ta­rá o te­ma dos mar­gi­na­li­za­dos, e com Os­sos (1997) Cos­ta co­me­ça­rá a descida aos abis­mos das Fon­tai­nhas, on­de ele­ge­rá os zom­bi­es, cri­a­tu­ras fan­tas­má­ti­cas, de­ser­da­das mas do­ta­das de vir­tu­de e lin­gua­gem pró­pri­as, que te­rá em No Quar­to da Van­da (2000) o seu mag­nus opus, mas que pa­re­cem uma fon­te ines­go­tá­vel, mes­mo de­pois de saí­dos das ca­ta­cum­bas das Fon­tai­nhas, co­mo ve­ri­fi­ca­mos no em­ba­te com os edi­fí­ci­os com pro­gra­ma mas de­sa­de­qua­dos pa­ra Ven­tu­ra e com­pa­nhia em Ju­ven­tu­de em Mar­cha (2006) ou na descida às me­mó­ri­as de um Por­tu­gal co­lo­ni­al em Ca­va­lo Di­nhei­ro (2014).

As fo­to­gra­fi­as a pre­to e bran­co an­co de Wal­ker Evans em

que re­tra­tam tra­ba­lha­do­res ru­rais du­ran­te a gran­de de­pres­são, a di­fi­cul­da­de do tra­ba­lho e das con­di­ções de vi­da ali­a­da ao eno­bre­ci­men­to dos re­tra­ta­dos, co­mo quem cons­trói arqué­ti­pos, es­ta­be­le­cem a obra de Pe­do Cos­ta nu­ma fi­li­a­ção e num diá­lo­go: Van­da, Ven­tu­ra e de­mais pro­ta­go­nis­tas do seu ci­ne­ma, os tais de­sa­pos­sa­dos, per­cor­rem um sub­mun­do ilu­mi­na­do pe­la Hollywo­od clássica, com Ford co­mo uma das re­fe­rên­ci­as mai­o­res, o que os en­gran­de­ce, os ele­va à con­di­ção de íco­nes.

Per­pas­sa por ve­zes a ideia de que o ci­ne­ma de au­tor em Por­tu­gal, num com­ba­te on­de na ou­tra trin­chei­ra se po­si­ci­o­na a pro­du­ção com pre­ten­sões co­mer­ci­ais, apre­sen­ta ape­nas uma via: Pedro Cos­ta e Sér­gio Tré­faut con­tra­ri­am is­so, ao pro­jec­ta­rem a ri­que­za, a di­ver­si­da­de das ma­nei­ras de fa­zer do nos­so ci­ne­ma.

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