E e o fil­me pe­que­ni­no

Publico - Ipsilon - - Primeira Página -

ex­pli­cam o que se vê no cinema pa­ro­qui­al de Par­que Mayer.

Não é surpresa a reconstituição mu­se­o­ló­gi­ca des­te 1933, ano de con­fi­gu­ra­ção do Es­ta­do No­vo e de con­so­li­da­ção fas­cis­ta, co­mo ce­ná­rio pa­ra o cru­za­men­to de ca­mi­nhos e in­te­res­ses en­tre uma ve­de­ta ca­bo­ti­na (Di­o­go Mor­ga­do), uma pre­ten­den­te a es­tre­la aca­ba­da de che­gar a Lisboa vin­da de Fá­ti­ma on­de apas­cen­ta­va ca­bras (Da­ni­e­la Mel­chi­or) e o en­ce­na­dor da re­vis­ta (Fran­cis­co Fro­es).

Já se sa­be e re­co­nhe­ce-se aqui: há um lu­gar-co­mum que ser­ve de ben­ga­la, mas que deve ser de­nun­ci­a­do co­mo fa­ke news, se­gun­do o qual a co­mé­dia por­tu­gue­sa dos anos 30/40 foi um cu­me ar­tís­ti­co e co­mer­ci­al. Es­sa im­pos­tu­ra foi a ba­se dos re­ma­kes, cor­te­sia do re­a­li­za­dor e produtor Le­o­nel Vieira, de O Pá­tio das Can­ti­gas (2015), O Leão da Es­tre­la (2015) e A Can­ção de Lisboa (2016). Foi um na­dir ci­ne­ma­to­grá­fi­co, um em­bus­te do au­di­o­vi­su­al à me­di­da da “era de con­teú­dos”, que fez tro­ca­di­lhos e pen­du­rou ban­dei­ri­nhas num país de pa­pe­lão. Es­se cinema (es­ta fal­ta de cinema) só pu­xa pe­lo pi­or de nós: con­ser­va­do­ris­mo, imo­bi­lis­mo, fal­ta de cu­ri­o­si­da­de e o me­do da di­fe­ren­ça. Do que é ci­ne­ma­to­gra­fi­ca­men­te di­fe­ren­te e não só: os re­ma­kes dos exem­pla­res da “dé­ca­da de oi­ro” eram co­lec­ção de exo­tis­mos — em O Pá­tio das Can­ti­gas Bollywo­od, tuk tuks e gays eram bes­tiá­rio...

Pa­ra es­se mun­do fe­cha­do, o Par­que Mayer das dé­ca­das de 30 e 40 se­rá um Mo­nu­ment Val­ley.

Mais tar­de ou mais ce­do al­guém fa­ria uma ro­ma­ria ao ce­ná­rio Or­gu­lho­sa­men­te sós ou ir­re­ver­si­vel­men­te sós?

Não va­mos su­bli­nhar a au­sên­cia de mei­os que im­pe­de a sus­pen­são da des­cren­ça nas ce­nas de con­jun­to em Par­que Mayer — aque­les fi­gu­ran­tes no “adro da igre­ja”, o Par­que Mayer re­cons­ti­tuí­do, an­dam e olham mes­mo co­mo fi­gu­ran­tes. Re­cons­ti­tuiu-se me­nos um cer­to mun­do, de­mons­tra-se mais o sa­te of the art te­le­no­ve­les­co.

Mas é pre­ci­so fa­lar do tra­ba­lho so­bre o in­di­vi­du­al, o ín­ti­mo, que es­tá to­do ele de­pen­den­te do so­pro (ou não) de um ci­ne­as­ta: ora, is­so, aqui, é pu­ra con­ven­ção e pa­pe­lão, o que im­pe­de as per­so­na­gens de se li­ber­ta­rem da ti­po­lo­gia pa­ra se tor­na­rem aven­tu­ra — não há ver­ti­gem, não há gran­de­za. A Co­mé­dia e a Vi­da, Fren­ch Can Can e Je­an Re­noir? São ina­tin­gí­veis — e não con­ti­nu­e­mos pe­la evo­ca­ção do su­bli­me, Jac­ques Bec­ker, por exem­plo, por­que se­ria cru­el. E tam­bém não é O Úl­ti­mo Me­tro (1981), de Truf­faut.

Fa­le­mos, en­tão, dos diá­lo­gos, e das si­tu­a­ções: re­pli­cam tro­ca­di­lhos, ti­ques e ti­pos, en­cos­tan­do-se Par­que Mayer à re­vis­ta em vez de jo­gar com a re­vis­ta. Em vez de so­bres­sal­tar o es­pec­ta­dor com as di­fe­ren­ças de ní­vel, o fil­me e a re­vis­ta den­tro do fil­me, em vez de apro­fun­dar a vi­são — Di­o­go Mor­ga­do, por exem­plo, é sem­pre bo­ne­co ani­ma­do, na “co­mé­dia” e na “vi­da”, o ac­tor tem pul­mão, a personagem é que fi­ca sem co­ra­ção.

Fa­le­mos, ain­da, da ini­bi­ção do re­a­li­za­dor fa­ce à ex­pli­ci­ta­ção ita­ção da vi­da ín­ti­ma de uma personagem so­na­gem ho­mos­se­xu­al, o con­trá­rio rio do que faz com as per­so­na­gens s he­te­ros­se­xu­ais. “Con­de­na-a” ena-a” à elip­se, ao ar­má­rio fi­gu­ra­ti­vo ra­ti­vo (pa­ra quem diz que faz o úni­co co cinema po­lí­ti­co nes­te mo­men­to...). o...).

E há aque­le fi­nal, em que as per­so­na­gens se lem­bram m de re­sis­tir ao sa­la­za­ris­mo, has­te­an­do o fil­me a ban­dei­ri­nha da a li­ber­da­de e da ale­gria. A dedicatória ria fi­nal soa a fal­so, tal co­mo são o for­ça­das as de­cla­ra­ções de Vas­con­ce­los on­ce­los à RTP um dia des­tes, a pu­xar uxar pa­ra den­tro do fil­me os fas­cis­mos smos e Bol­so­na­ro...

Par­que Mayer não re­cons­ti­tui cons­ti­tui um mun­do pe­que­ni­no. Éa É a in­sis­tên­cia, pa­ra lá do pra­zo de vi­da, com um cinema pe­que­ni­no. eque­ni­no. Gos­ta­ria de per­gun­tar à mi­nis­tra da nos­sa Cultura: ura: is­to não lhe pa­re­ceu tão ve­tus­to us­to quan­to a tou­ra­da?

stand-up,

O Feitiço da Lua,

brun­ch,

In­dia Pa­le Ale

Dou­ble

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