So long Mr. Bradley

Publico - Ipsilon - - Primeira Página -

Pas­sou co­mo um co­me­ta, mas dei­xou to­dos a olhar pa­ra o es­cu­ro do céu com um sor­ri­so. So long, Mr. Bradley! Fran­cis­co Noronha

Black Vel­vet Char­les Bradley Du­nham Pri­mei­ro, o ru­far da ba­te­ria. De­pois, um jac­to de ór­gão. A gui­tar­ra. O bai­xo. No­va­men­te o ór­gão, a ba­te­ria pe­sa­ro­sa, sem­pre. Já to­dos jun­tos, cor­das co­mo pro­ta­go­nis­tas, o ór­gão de fi­ni­nho, até que, ho­ok, e dêem as vos­sas bo­as vin­das ao dig­nís­si­mo trom­pe­te. Fi­nal do ho­ok eéo ór­gão quem pas­sa pa­ra pri­mei­ro pla­no; o trom­pe­te, es­se, con­ti­nua, co­mo na can­ção, a so­prar “Ao ou­vi­do / O so­pro do co­ra­ção / So­pra doi­do / E o que foi do cor­po num tur­bi­lhão / E o que foi do cor­po ala­do nas asas do tur­bi­lhão”. Pa­la­vras, fra­ses, ex­pres­sões, in­ter­jei­ções? Sem dú­vi­da: to­das elas, po­rém, ins­tru­men­tais, me­ló­di­cas, rít­mi­cas. No prin­cí­pio, en­tão, não era a voz: na­que­le que é o úl­ti­mo ál­bum de Char­les Bradley, edi­ta­do já de­pois do fa­le­ci­men­to da Scre­a­ming Ea­gle of Soul em Se­tem­bro do ano pas­sa­do, a mais be­la de to­das as can­ções — a que lhe dá título e que por si só já va­le­ria o dis­co — é es­sa em que a sua voz es­tá ab­so­lu­ta­men­te, per­fei­ta­men­te, au­sen­te. E nós ali fi­ca­mos, ex­pec­tan­tes, à espera de Go­dot, ten­tan­do avis­tar o ame­ri­ca­no bon­do­so que, tar­di­a­men­te des­co­ber­to pe­la Dap­to­ne mas ain­da a tem­po (aos 63 anos) de pre­sen­te­ar o mun­do com o seu dom (de­pois de uma vi­da de er­rân­cia dor­min­do na rua e tra­ba­lhan­do em res­tau­ran­tes um pou­co por to­da a Amé­ri­ca) — num des­ses be­los mi­la­gres cós­mi­cos que acontece qu­an­do o rei faz anos —, de­ma­si­a­do ce­do nos dei­xou (“Whe­re do we go from he­re?”, per­gun­ta­va ele no LP Vic­tim of Lo­ve, ao mes­mo tem­po que nos dei­xa­va o post-it: “My brothers and my sis­ters / It’s ti­me to ma­ke this world a pri­va­te pla­ce for the ge­ne­ra­ti­on to co­me / Can find lo­ve and pe­a­ce”). Ago­ra ou da­qui a 10 anos, se­ria sem­pre, em boa ver­da­de, ce­do de­mais; Bradley pos­suía uma da­que­las vo­zes, au­ra dos pre­des­ti­na­dos, e a cir­cuns­tân­cia de, du­ran­te tan­tas dé­ca­das, ter es­ta­do afas­ta­do da música é, por si só, uma di­vi­na in­jus­ti­ça de im­pro­vá­vel re­den­ção. Deus foi a tem­po, po­rém, se­não de des­cal­çar a bota, pe­lo me­nos de de­sa­per­tar os ata­ca­do­res qu­an­do No Ti­me For Dre­a­ming (2011), o seu pri­mei­ro dis­co, viu fi­nal­men­te a luz do dia, pa­ra unâ­ni­me gáu­dio de crí­ti­ca e pú­bli­co. De­pois dis­so, e num es­for­ço de re­cu­pe­ra­ção do tem­po per­di­do, Bradley edi­tou mais dois be­los dis­cos, Vic­tim of Lo­ve e Chan­ges, deu con­cer­tos pe­lo mun­do in­tei­ro (um inesquecível em Pa­re­des de Cou­ra em 2015 e ou­tro can­ce­la­do em 2017, por oca­sião da des­co­ber­ta do can­cro que ago­ra o le­vou) e con­quis­tou o co­ra­ção de to­dos que, além da sua hu­mil­de per­so­na­li­da­de, con­tac­ta­ram com a sua música tre­men­da­men­te ver­da­dei­ra, sen­ti­da, en­fim, soul. Black Vel­vet (no­me do co­ver act em que Bradley fa­zia de Ja­mes Brown qu­an­do ain­da era um ilus­tre des­co­nhe­ci­do a ac­tu­ar em clu­bes noc­tur­nos de se­gun­da), no qual vol­ta — poé­ti­ca ironia — a ser acom­pa­nha­do pe­la The Me­nahan Stre­et Band (o gru­po com quem gra­vou o pri­mei­ro dis­co), não sen­do um ál­bum fa­bu­lo­so (uns fu­ros bem abai­xo des­sa es­treia), apre­sen­ta, des­de lo­go, es­sa ex­tra­or­di­ná­ria can­ção com que ini­ciá­mos es­tas li­nhas, sim­bo­li­ca­men­te ou não si­tu­a­da mes­mo a meio do ali­nha­men­to, co­mo se a ali­men­tar a ex­pec­ta­ti­va, a es­pe­ran­ça de que, de­pois da­que­les três “si­len­ci­o­sos” mi­nu­tos e meio, Bradley apro­vei­tas­se a se­gun­da me­ta­de do dis­co pa­ra vol­tar do olim­po da música ne­gra ame­ri­ca­na, no qual en­trou tar­dia mas jus­tis­si­ma­men­te. Es­te ál­bum pós­tu­mo re­ve­la-se, to­da­via, so­ni­ca­men­te ro­ti­nei­ro, con­ven­ci­o­nal, pre­vi­sí­vel, pa­ra o que mui­to con­tri­bui, cla­ro es­tá, o fac­to de não ter si­do pen­sa­do nem gra­va­do de raiz, an­tes um apa­nha­do do que Bradley foi fa­zen­do em es­tú­dio pe­lo meio dos dis­cos dos úl­ti­mos anos. Se es­ta ob­ser­va­ção me­nos boa tem ra­zão de ser, o cer­to é que a es­cu­ta não dei­xa de ser pra­ze­ro­sa, com os ar­ran­jos co­lo­ca­dos to­dos no sí­tio cer­to pe­la mão de quem já an­da nis­to há anos. Tam­bém por aqui se en­tre­vê, pois, a im­por­tân­cia da voz de Bradley: sem ela, sem a sua for­ça, a sua vul­câ­ni­ca emo­ci­o­na­li­da­de, es­tas or­ques­tra­ções bem po­de­ri­am cair, se acom­pa­nha­das por ou­tra voz, num cer­to pas­ti­che do funk e da soul clás­si­cos. Bradley, po­rém, não o per­mi­te: en­tre Can’t Fight The Fe­e­ling, o roc­kei­ro e enér­gi­co ti­ro de par­ti­da a en­ga­nar a mor­te (dis­pen­sa­va-se o pro­ta­go­nis­mo exa­ge­ra­do con­ce­di­do à sec­ção de so­pros, que ati­ra a can­ção, por mo­men­tos, pa­ra um cer­to his­tri­o­nis­mo) e o ma­ra­vi­lho­so so­lo do ór­gão já no fi­nal do pro­to do­owop de Fly Lit­tle Girl (a úl­ti­ma fai­xa, per­fei­ta­men­te dis­pen­sá­vel, é uma ver­são eléc­tri­ca, ma­xi­ma­lis­ta, de Vic­tim of Lo­ve), a voz do ame­ri­ca­no vai fin­tan­do a ba­na­li­da­de de que He­art of Gold (original de Neil Young) cons­ti­tui, tal­vez, o mais cla­ro exem­plo. Nes­te rel­va­do cu­ja lua central é a soul e os blu­es, vão-se dis­pon­do, in­ter­mi­ten­te­men­te, di­ver­sos tons e ba­lan­ços, da per­cus­são afro­be­at de Luv Jo­nes à fi­nal­men­te co­lo­ri­da (de­pois da an­gús­tia e rai­va an­te­ri­o­res) Slip Away, do psi­ca­de­lis­mo de Stay Away (ir­re­co­nhe­cí­vel original dos Nir­va­na, da mes­ma for­ma que Bradley ti­nha já re­cri­a­do a Chan­ges dos Black Sab­bath, ou­tro gru­po so­ni­ca­men­te dis­tan­te do seu uni­ver­so) aos in­te­ri­o­res dub de (I Ho­pe You Find) The Go­od Li­fe, na qual o ór­gão e o te­cla­do ja­mai­ca­nos con­vi­vem com uma per­cus­são que pa­re­ce tra­ba­lha­da a par­tir de uma caixa de rit­mos co­mo a usa­da por Timmy Tho­mas nos anos 70 (es­sa que deu, jun­ta­men­te com o ór­gão, o tra­vo dis­tin­ti­vo à pla­ne­tá­ria Ho­tli­ne Bling de Drake, que sam­plou Why Can’t We Li­ve To­gether). “Me­mo­ri­es are the cor­ner of my mind”, can­ta Bradley na sua pri­são nos­tál­gi­ca, im­pas­se afec­ti­vo de to­da uma vi­da, e na qual ape­nas du­ran­te 6 es­cas­sos anos fez aqui­lo pa­ra o que as su­as go­e­las es­ta­vam fa­da­das. Com a sua par­ti­da, tam­bém ele, ve­lho prin­ci­pe­zi­nho de asas aber­tas na ca­pa des­ta ce­le­bra­ção­des­pe­di­da (há um rac­cord en­tre as ca­pas dos seus dis­cos, ros­to sor­ri­den­te que se vai re­ve­lan­do cres­cen­te­men­te apre­en­si­vo), pas­sou a fa­zer par­te des­sa per­pé­tua ge­o­me­tria da nos­sa me­mó­ria. Fly Lit­tle Boy.

Com a par­ti­da de Char­les Bradley, es­te ve­lho prin­ci­pe­zi­nho de asas aber­tas pas­sou a fa­zer par­te da per­pé­tua ge­o­me­tria da nos­sa me­mó­ria

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