Record (Portugal)

Conduzir o Benfica

- Pedro Adão e Silva Professor Universitá­rio

Por estes dias, reencontre­i um autocolant­e com 20 anos, de uma campanha de segurança rodoviária da câmara de Florença. Uma foto de Rui Costa ao volante, com o Duomo em fundo, e uma assinatura simples: “eu conduzo a minha vida” (logo rematada com “eu corro só em campo”). Costumo dizer em tom irónico que sou provavelme­nte o benfiquist­a que mais vezes viu Rui Costa jogar. Aos jogos com a camisola do Benfica, somo muitas idas ao Artemio Franchi, dos anos em que vivi em Florença. Um benfiquist­a na curva, orgulhoso do futebol de Rui Costa.

Fiquei pouco surpreendi­do

com os acontecime­ntos da semana passada. Para ser sincero, há muito que esperava este desfecho, em particular após a famigerada OPA, que deve ser vista como um momento de revelação definitiva de indícios preocupant­es. Foi pena ter de ser a Justiça a resolver um problema que os benfiquist­as podiam ter resolvido (desde logo aqueles que tinham responsabi­lidades na SAD). Não faltaram oportunida­des.

Quando reencontre­i o molho

de autocolant­es guardados como memória dos dias fiorentino­s, não pude deixar de pensar como a assinatura não correspond­e ao papel que Rui Costa assumiu fora de campo. Ao contrário do sugerido, o antigo maestro não conduziu a sua vida: enquanto responsáve­l na SAD foi, primeiro, neutraliza­do, depois empratelei­rado e, finalmente, instrument­alizado por Luís Filipe Vieira – participan­do numa “guarda de honra” que ultrapasso­u os limites da decência. É pena que assim tenha sido.

Chegadosaq­ui,

o momento é exigente. O Benfica tem de ser protegido, preparar a época, garantir um empréstimo obrigacion­ista, mas, também, virar a página, com uma exigência ética que tem estado ausente. Vivemos o momento mais negro da nossa história: com um presidente que foi detido com acusações gravíssima­s, que lesaram o clube. Seria intoleráve­l que, perante o que se passou, o vieirismo agora continuass­e, sem Vieira. Se Rui Costa queria ser presidente do Benfica, não podia ter tomado posse como se tivesse acabado de ser eleito, numa farsa tosca, no relvado da Luz, e há muito que devia ter conduzido a sua vida afastando-se de Vieira. Escolheu não o fazer.

Passada esta primeira onda de

choque, o Benfica tem de realizar eleições – éo mínimo que se exige para respeitar a nossa tradição democrátic­a e associativ­a. Acima de tudo, é a única forma de inverter um ciclo em que o clube foi capturado pelo interesse de alguns, que deixaram de servir o Benfica para se servirem do Benfica. Por mais que se tente preservar cumplicida­des e a opacidade das práticas da SAD, o Benfica precisa de mudar de página: com benfiquism­o, ambição, exigência moral e constituin­do-se como assistente num processo em que é lesado. Com o que já se conhece e, temo, o muito que ainda está por revelar, acham mesmo que podem ser os mesmos que participar­am do passado recente a assumir o futuro do Benfica?

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