Record (Portugal)

A maldição inglesa que afinal... não o é!

Equipa dos Três Leões voltou a cair na ‘lotaria’. Mas, nos últimos anos, houve muitos progressos

- FRANCISCO LARANJEIRA

Geir Jordet, um especialis­ta norueguês na área desportiva, garante que há quatro fases num penálti: “Quando o jogador está no círculo central do relvado à espera que o treinador não repare nele, depois a caminhada até à marca de penálti, o remate e o regresso quando se falha. Todos são extraordin­ariamente stressante­s à sua maneira.” Já Matt Le Tissier, antigo internacio­nal inglês, via esse momento de forma muito mais simples: “Para ser honesto, nunca pensei muito nisso. Simplesmen­te chegava perto da bola e despejava-a lá para dentro.” A derrota da Inglaterra na final do Euro’2020, no desempate por penáltis, fez regressar o espectro da ‘maldição’ que parece afetar a equipa dos Três Leões. E este foi o motivo para conversarm­os com o escritor e jornalista britânico Ben Lyttleton, autor do livro “Onze metros: A arte e psicologia do penálti perfeito” para tentar explicar esta alergia inglesa. “Não digo que há uma maldição. Isso foi uma ideia que se criou nos anos 90, depois das derrotas com a Alemanha, a Argentina e, mais tarde, as duas com Portugal. Basta reparar que, 15 anos depois, a Inglaterra estava confortáve­l em campo com a ideia de o jogo ir para penáltis, estavam confiantes. Tentaram controlar a partida frente à Itália e isso não são ações de uma equipa que crê haver uma maldição. A Inglaterra jogou sem medo de ir para penáltis”, frisa o autor britânico.

”Nas seis derrotas anteriores por penáltis, todos os treinadore­s disseram que eram uma lotaria. Southgate sempre disse que era uma capacidade que se podia treinar. Basta recordar o que disse após o triunfo sobre a Colômbia, em 2018. E após a Itália, o técnico assumiu culpas e garantiu que a responsabi­lidade era sua. A ideia não resultou mas não foi por falta de preparação ou por uma suposta maldição”, acrescenta Ben Lyttleton, apontando uma curiosidad­e: “Foi a primeira vez que uma equipa [Itália] venceu dois desempates por penáltis na mesma edição do Europeu.” “Desde que Southgate assumiu o grupo inglês, tem-se assistido a progressos. Fomos a mais jovem, ou das mais jovens, seleções no Euro. Em 2018 ganhámos pela primeira vez nos penáltis e em 2021 vencemos uma equipa tradiciona­lmente muito forte, mesmo que não estivesse estado à mesma altura. Ou seja, tirámos outro complexo, aquele que nos dizia que não éramos capazes de vencer uma grande equipa numa fase a eliminar. Bater a Alemanha foi tremendo”, reforça. ”Como é o dia seguinte para os jogadores? É bem mais fácil agora. É preciso recordar que Southgate já esteve nesse papel, ele sabe o que é ser o gajo que falhou. Sabe o que os jogadores estão a pensar e pode falar com eles sobre isso porque os jogadores acreditam, sabem que ele já passou por isso. Há uma enorme empatia sobre a experiênci­a de falhar um penálti”, diz. Rashford e Sancho tinham uma percentage­m de sucesso de 100% esta temporada – o atacante do Man. United marcou no desempate dos red devils na final da Liga Europa perdida frente ao Villarreal. Até por isso, as múltiplas críticas sobre a opção por jovens atletas não merecem grande relevância. “O Southgate vai saber guiá-los. Os jogadores estão no início de carreira e nunca vão ser definidos por esses erros”, conclui Ben Lyttleton.

“SOUTHGATE JÁ ESTEVE NESSE PAPEL E SABE O QUE É SER O GAJO QUE FALHOU. E PODE FALAR COM OS JOGADORES SOBRE ISSO”

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AZAR. Rashford, Sancho e Saka [em cima] falharam os respetivos penáltis e tramaram a Inglaterra na final do Euro’2020. Mas Ben Lyttleton, autor de vários livros sobre futebol, desvaloriz­a o insucesso e destaca a evolução inglesa
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