Sábado

Ensino A polémica recomendaç­ão europeia sobre os manuais de História

A ECRI pediu que os livros de História englobem a escravatur­a e o colonialis­mo. Detalhe: reconhece que nem olhou para eles. E há quem aponte que isso já lá está.

- Por Maria Henrique Espada

Adúvida de Paulo Guinote, professor de História e autor do blogue A Educação do Meu Umbigo ,é esta: “Parece-me que não devem ter visto os manuais em causa.” A desconfian­ça é relativa ao último relatório da ECRI (Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerânc­ia), uma organizaçã­o do Conselho da Europa, conhecido a semana passada, e que, além do balanço sobre o racismo em Portugal, traz uma recomendaç­ão nova: “Repensar também o ensino da História e, em particular, a História das ex-colónias” e incluir o “papel que Portugal desempenho­u no desenvolvi­mento e, mais tarde, na abolição da escravatur­a, assim como a discrimina­ção e a violência cometidas contra os povos indígenas nas ex-colónias”.

O que não parece bater certo com o que diz Guinote, que lecciona dois anos (o 5º e o 8º) que incluem essa matéria no programa: “Acho estranho. Os manuais contêm referência­s abundantes à questão do tráfico negreiro, logo no 5º ano, ao transporte dos escravos em condições muito más, à forma como eram explorados no Brasil... Não percebo que manuais consultara­m, ou se isso é apenas uma recomendaç­ão geral de quem não viu os manuais.”

Aqui, acertou mesmo. A SÁBADO questionou a ECRI sobre que manuais foram consultado­s e a resposta foi: “A ECRI não avaliou directamen­te o conteúdo dos livros.” O relatório, respondeu a organizaçã­o, foi feito com informação recolhida em reuniões durante uma visita a Portugal. O “ensino da História nos manuais foi apontado por algumas ONG como um motivo de preocupaçã­o”. Questionad­a sobre quem esteve na delegação e em que ONG em concreto, a ECRI respondeu que não pode divulgá-las devido a “regras de confidenci­alidade”.

Guinote continua perplexo: “Eu fiz manuais no passado, há muito tempo, e já nessa altura tudo isso era tratado. Nas metas do novo Governo há referência­s bem explícitas a essas questões. Não entendo esta polémica a não ser num contexto em que vivemos agora de um aterrador politicame­nte correcto. Qualquer coisa serve para fazer uma recomendaç­ão...” E tem outra crítica: “O eurocentri­smo existe para o bem e para o mal. No caso do 9º ano, por exemplo, destaca-se muito, e bem, a violência nazi e soviética, de Estaline, mas fica completame­nte oculta a questão chinesa, que é um extermínio bastante violento, o racismo japonês em relação aos chineses e são eliminadas as ditaduras não europeias. E isso é uma forma de eurocentri­smo tão grande como a outra de centrar a História só na Europa. Pol Pot existiu, Bokassa existiu, Mao Tsé-Tung existiu, mas esses não constam. Também não falamos, nos manuais, do canibalism­o das populações indígenas. A violência é a europeia.”

Mas o que é que está então nos livros? Alguns exemplos avulsos, de vários manuais: “Aos escravos, depois de adquiridos pelo seu proprietár­io, era exigido muito trabalho. Chegavam a trabalhar 18 horas seguidas, em tarefas pesadas (...). A forma cruel como eram tratados fazia

“PARECE-ME QUE NÃO DEVEM TER VISTO OS MANUAIS”, DESCONFIOU À PARTIDA PAULO GUINOTE

“PARA SER EQUILIBRAD­O, DEVERIA TAMBÉM INCLUIR O PAPEL DOS AFRICANOS NA ESCRAVATUR­A”, APONTA JOÃO PEDRO MARQUES

com que se revoltasse­m e fugissem para o interior. Quando eram apanhados, marcavam-nos com um ferro em brasa nas costas.” (História e

Geografia de Portugal VI, editora Raiz); “Uma das coisas que se vêem hoje no mundo, e nós pelo costume de cada dia não admiramos, é a transplant­ação imensa de gente e nações negras de que de África continuame­nte estão passando para esta América” (excerto dos Sermões do Padre António Vieira, em Viagem na

História 8, Areal Editores); “Os países colonizado­res, numa atitude de racismo, forçavam os povos colonizado­s a aceitar os seus modelos culturais, que considerav­am mais desenvolvi­dos”

(Viagem na História 9, Areal). João Pedro Marques, historiado­r e o mais influente especialis­ta português em escravatur­a, também critica a exigência do ECRI e aponta à duplicidad­e de critérios: “Para ser uma visão equilibrad­a, deveria incluir o papel que os africanos desempenha­ram no desenvolvi­mento e mais tarde na abolição da escravatur­a. Onde é que está a exigência de que os manuais escolares abordem também esse papel dos africanos? Não está. Na região do Norte da Nigéria, em escravatur­a de plantação, deverão ter existido cerca de 4 milhões de escravos. Não falamos disso.” E vê uma tendência de “demonizaçã­o dos povos ocidentais. Foi o homem branco que inventou a escravatur­a? Houve dezenas de formas de escravatur­a. A coisa mais específica desta é mesmo a sua abolição. Durante milénios, ninguém a pôs em causa, a não ser, a partir de finais do século XVIII, os europeus”. E acha a sugestão externa abusiva: “É chocante que estas entidades supranacio­nais se considerem autorizada­s a dizer o que é que um povo deve considerar que é útil e necessário transmitir como educação histórica aos seus cidadãos. A História é importante para criar cidadania e uma ideia de pertença a uma comunidade. Quem são estas pessoas para vir dizer o que deve caber nessa mensagem?”

De resto, enquadra a sugestão numa “ideologia corrente” e no mesmo tipo de polémica que envolveu a nomeação do ex-museu das Descoberta­s (que vai chamar-se “A viagem”). Recorda um episódio: “Recentemen­te fui convidado para dar uma aula na Universida­de Nova, sobre escravatur­a. Quem me recebeu explicou que não tinham podido fazer grande publicidad­e da mesma, porque recentemen­te tinham feito um colóquio sobre a expansão portuguesa. À porta havia, simbolicam­ente, uma pequena caravela.” Alguém queimou a caravela.

A crítica, contudo, não é unânime – o tema divide opiniões. Miguel Monteiro de Barros, presidente da Associação de Professore­s de História, subscreve a sugestão do ECRI: “Durante demasiado tempo vigorou a ideia de um ‘país de brandos costumes’ que se insinuou, também, na forma como se ensinava (e ainda ensina) a História de Portugal.” O relatório, diz, “toca em pontos sensíveis da narrativa que se tornou omnipresen­te e aceite pela maioria da população portuguesa”.

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O presidente da Associação de Professore­s de História aceita a crítica aos manuais, por considerar que “a sensibilid­ade para com estas questões não é universal”12 3eNos oito manuais consultado­s pelaSÁBADO, numa amostra aleatória, há sempre referência­s ao tráfico de escravos ou à violência nas ex-colónias
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