Dí­vi­das

Os ban­cos vão ven­der um re­cor­de de 7 mil mi­lhões de cré­di­tos mal­pa­ra­dos es­te ano. As dí­vi­das são com­pra­das por fun­dos-abu­tre e co­bra­das por em­pre­sas que agem sem re­gu­la­ção – e que po­dem te­le­fo­nar até 10 ve­zes por dia.

Sábado - - SUMÁRIO - PorB­ru­noFa­ri­aLo­pes

Ven­das de mal­pa­ra­do ba­tem re­cor­des e as co­bran­ças não são re­gu­la­das

Éu­ma con­fe­rên­cia tão po­pu­lar es­te ano!”, diz ao mi­cro­fo­ne um dos ges­to­res na pla­teia. Até há pou­co tem­po não era ha­bi­tu­al ter au­di­tó­ri­os chei­os pa­ra ou­vir fa­lar de cré­di­to mal­pa­ra­do e re­cu­pe­ra­ção de dí­vi­das. Em du­as se­ma­nas era a se­gun­da vez que a SÁ­BA­DO as­sis­tia a es­te ce­ná­rio: pri­mei­ro num fórum no Ho­tel Pa­lá­cio, no Es­to­ril; de­pois, na­que­la sa­la do Pes­ta­na Pa­la­ce, em Lis­boa, pre­en­chi­da por pro­fis­si­o­nais da ban­ca, re­pre­sen­tan­tes de al­guns dos mai­o­res in­ves­ti­do­res es­tran­gei­ros em cré­di­to mal­pa­ra­do, di­rec­to­res das prin­ci­pais em­pre­sas de co­bran­ça de dí­vi­das, o se­cre­tá­rio de Es­ta­do das Fi­nan­ças, a pre­si­den­te do re­gu­la­dor do Mer­ca­do de Va­lo­res Mo­bi­liá­ri­os – e mui­tos ad­vo­ga­dos. In­cen­ti­va­da pe­los re­gu­la­do­res da ban­ca, pe­la Co­mis­são Eu­ro­peia e pe­lo Go­ver­no, a ven­da de cré­di­to mal­pa­ra­do pe­la ban­ca qua­se tri­pli­cou es­te ano, fi­xan­do um va­lor sem pre­ce­den­te: mais de 7 mil mi­lhões de eu­ros. A pers­pec­ti­va de quem ali es­tá é unâ­ni­me: o ne­gó­cio es­tá pa­ra du­rar. “Es­te mer­ca­do tem po­ten­ci­al in­te- res­san­te e acre­di­to que ha­ja ne­gó­ci­os su­fi­ci­en­tes pa­ra os pró­xi­mos anos”, diz à pla­teia Fe­lix Beu­tler, ges­tor da EOS, uma gran­de em­pre­sa fa­mi­li­ar ale­mã que co­me­çou na co­bran­ça de dí­vi­das nos anos 80, que se tor­nou num in­ves­ti­dor em car­tei­ras de maus cré­di­tos e que em­pre­ga mais de 6.000 pes­so­as em 26 paí­ses. Ao la­do de Fé­lix es­tá Ri­chard Husk, da bri­tâ­ni­ca Arrow Glo­bal, a so­ci­e­da­de que con­tra­tou em 2015 em Por­tu­gal a ex-mi­nis­tra das Fi­nan­ças Maria Luís Al­bu­quer­que. “O vo­lu­me vai con­ti­nu­ar al­to”, con­cor­da. Num

A VEN­DA DE CRÉ­DI­TOS QUA­SE TRI­PLI­COU. “VAI CON­TI­NU­AR”, DIZ UM IN­VES­TI­DOR

dos pai­néis os par­ti­ci­pan­tes co­me­çam mes­mo a de­ba­ter se as em­pre­sas de co­bran­ça de dí­vi­da – ou ser­vi­cers, no jar­gão eu­fe­mís­ti­co do meio – têm ca­pa­ci­da­de pa­ra re­cu­pe­rar a mon­ta­nha que es­tá a cair-lhes nas mãos (a res­pos­ta na sa­la é “sim”). A es­ti­ma­ti­va de mais de 7 mil mi­lhões de eu­ros de vo­lu­me em ven­das de mal­pa­ra­do e de imó­veis exe­cu­ta­dos co­mo ga­ran­tia é adi­an­ta­da à SÁ­BA­DO pe­la con­sul­to­ra De­loit­te e é com­pi­la­da a par­tir de da­dos re­co­lhi­dos no sec­tor (não são pu­bli­ca­das es­ta­tís­ti­cas ofi­ci­ais em Por­tu­gal). Em 2017 fo­ram 2,5 mil mi­lhões e em 2016 cer­ca de 2 mil mi­lhões.

Es­ta ex­plo­são do ne­gó­cio não é um ex­clu­si­vo por­tu­guês, nem um aca­so: re­sul­ta da pres­são for­te de re­gu­la­do­res e en­ti­da­des pú­bli­cas co­mo a Agên­cia Ban­cá­ria Eu­ro­peia, o Ban­co Cen­tral Eu­ro­peu, o Ban­co de Por­tu­gal, a Co­mis­são Eu­ro­peia e o Go­ver­no por­tu­guês. To­dos vêem a acu­mu­la­ção das más dí­vi­das – dei­xa­das pe­la cri­se e por er­ros de ges­tão – co­mo uma ame­a­ça à ca­pa­ci­da­de de fi­nan­ci­a­men­to da eco­no­mia. E to­dos aco­lhem bem a ven­da des­tas dí­vi­das a gran­des fun­dos in­ter­na­ci­o­nais, por ve­zes cha­ma­dos fun­do-abu­tre – em du­as apre­sen­ta­ções re­cen­tes, o Ban­co de Por­tu­gal e o Mi­nis­té­rio das Fi­nan­ças iden­ti­fi­ca­ram es­tas ven­das co­mo uma das prin­ci­pais for­mas de re­du­ção do mal­pa­ra­do em Por­tu­gal. Mas as dí­vi­das não de­sa­pa­re­cem quan­do sa­em dos ban­cos, an­tes pe­lo con­trá­rio – os fun­dos que as com­pram vão que­rer co­brá-las. Es­ta é uma ac­ti­vi­da­de fre­quen­te­men­te agres­si­va, em cres­ci­men­to im­pa­rá­vel, que cai fo­ra da re­gu­la­ção exis­ten­te – e es­tá no ân­gu­lo mor­to dos par­ti­dos e do Go­ver­no.

Ga­nhar 10% com mal­pa­ra­do

O mal­pa­ra­do é um bom ne­gó­cio por­que é com­pra­do com des­con­tos gor­dos. Gros­so mo­do, o ne­gó­cio fun­ci­o­na as­sim: os ban­cos agre­gam mi­lha­res de dí­vi­das num bo­lo con­jun­to e abrem de­pois um con­cur­so a com­pra­do­res se­lec­ci­o­na­dos, fun­dos que com­pe­tem es­sen­ci­al­men­te pe­lo pre­ço. Uma fon­te do sec­tor ex­pli­ca à SÁ­BA­DO que nu­ma car­tei­ra de cré­di­tos sem ga­ran­ti­as (con­su­mo ou au­to­mó­vel) o ban­co po­de dar até 90% de des­con­to fa­ce ao va­lor no­mi­nal das dí­vi­das. Em cré­di­tos à ha­bi­ta­ção ou de dí­vi­das de em­pre­sas o des­con­to po­de che­gar a 40%, sen­do que os nú­me­ros va­ri­am mui­to. Um fun­do que com­pra por 60 uma car­tei­ra que vale 100 tem por ob­jec­ti­vo co­brar o má­xi­mo aci­ma do que pa­gou. Ape­sar do ris­co, ou por cau­sa de­le, as ta­xas de re­tor­no são bo­as, re­fe­rem du­as fon­tes li­ga­das ao sec­tor, que pre­fe­ri­ram ano­ni­ma­to: é nor­mal ron­da­rem 10%, po­den­do ser su­pe­ri­o­res. Pa­ra os ban­cos, as ven­das abai­xo do va­lor no­mi­nal sig­ni­fi­cam nor­mal­men­te per­das. Pau­lo Soares Pi­nho, pro­fes­sor na Uni­ver­si­da­de No­va de Lis­boa e es­pe­ci­a­lis­ta em ban­ca, diz à SÁ­BA­DO que os ban­cos es­tão a ser pres­si­o­na­dos pe­los re­gu­la­do­res a “ven­de­rem mal”.

Há dois ban­cos que es­tão a do­mi­nar o mer­ca­do em Por­tu­gal es­te ano: a Caixa Ge­ral de De­pó­si­tos e o Novo Ban­co. De­pois da ca­pi­ta­li­za­ção de lu­xo fei­ta pe­los con­tri­buin­tes, o ban­co pú­bli­co foi o que mais ven­deu mal­pa­ra­do em 2018: cer­ca de 1,9 mil mi­lhões de eu­ros es­pa­lha­dos por qua­tro ope­ra­ções, ca­da uma com o no­me de um oce­a­no, com dí­vi­das de par­ti­cu­la­res e de em­pre­sas. (Fon­te ofi­ci­al da Caixa não quis con­fir­mar es­tes nú­me­ros, nem ex­pli­car que des­con­tos fo­ram fei­tos.) O Novo Ban­co es­tá ago­ra a ven­der a mai­or car­tei­ra de sem­pre, no va­lor de 1.700 mi­lhões de eu­ros, cha­ma­da Na­ta. O fun­do-abu­tre que com­prou o ban­co, o Lo­ne Star, es­tá a apro­vei­tar a ga­ran­tia do Fun­do de Re­so­lu­ção, ava­li­za­da pe­lo Es­ta­do, pa­ra lim­par a casa. O San­tan­der e o BCP tam­bém es­tão a ven­der. O pri­mei­ro es­tá so­bre­tu­do a des­pa­char os maus cré­di­tos do co­lap­sa­do Ban­co Po­pu­lar, que ab­sor­veu em 2017. O BCP es­tá a co­me­çar a in­ten­si­fi­car a re­du­ção do mal­pa­ra­do e tem du­as ope­ra­ções em cur­so com no­mes de ani­mais: Wal­la­bi­es e Wolf, de qua­se 500 mi­lhões de cré­di­tos de em­pre­sas. Quem com­pra es­tas dí­vi­das são gran­des fun­dos co­mo a Bain Ca­pi­tal, a An­cho­ra­ge, o Lo­ne Star, a Apol­lo

OS BAN­COS VEN­DEM OS MAUS CRÉ­DI­TOS A FUN­DOS ES­TRAN­GEI­ROS COM UM DES­CON­TO EN­TRE 40% E 90%

ou a Arrow – es­tas en­ti­da­des, des­co­nhe­ci­das da es­ma­ga­do­ra mai­o­ria dos de­ve­do­res, es­tão a tor­nar-se gran­des cre­do­res e pro­pri­e­tá­ri­os de imo­bi­liá­rio em Por­tu­gal e nas eco­no­mi­as mais frá­geis do Eu­ro. Pa­ra ge­ri­rem as dí­vi­das sub­con­tra­tam em­pre­sas de co­bran­ça. Em al­guns ca­sos o fun­do in­ves­ti­dor é o do­no da em­pre­sa de co­bran­ça – a Arrow é do­na da Whi­tes­tar, cri­a­da de raiz em Por­tu­gal pe­lo Leh­man Brothers.

Os co­bra­do­res au­to-re­gu­lam-se

A al­ta do ne­gó­cio de ven­da de mal­pa­ra­do le­va à al­ta do ne­gó­cio de co­bran­ça de dí­vi­das – os dois es­tão li­ga­dos. No úl­ti­mo ano che­ga­ram gran­des em­pre­sas in­ter­na­ci­o­nais ao mer­ca­do por­tu­guês, co­mo a Al­ta­mi­ra (a mai­or da Pe­nín­su­la Ibé­ri­ca) e a mul­ti­na­ci­o­nal Link Fi­nan­ci­al. As gran­des que já cá es­ta­vam cres­ce­ram ain­da mais. A mai­or é a Whi­tes­tar, que ge­re mais de um mi­lhão de dí­vi­das e uma car­tei­ra de mais de 8 mil imó­veis e on­de tra­ba­lham mais de 600 pes­so­as (eram 160 em 2011). Se uma des­tas em­pre­sas es­ti­ver a co­brar pa­ra um ban­co te­rá de cum­prir as ori­en­ta­ções es­ti­pu­la­das pe­lo Ban­co de Por­tu­gal em 2012, que in­clu­em a proi­bi­ção de con­tac­tos de­pois das 22h, de con­tac­tos em tom agres­si­vo e de cha­ma­das pa­ra nú­me­ros que não es­te­jam no con­tra­to ori­gi­nal com o ban­co. No en­tan­to, “as em­pre­sas ad­qui­ren­tes dos cré­di­tos, quan­do não se­jam ins­ti­tui­ções de cré­di­to ou so­ci­e­da­des fi­nan­cei­ras, não es­tão su­jei­tas a su­per­vi­são do Ban­co de Por­tu­gal”, ex­pli­ca fon­te ofi­ci­al do re­gu­la­dor à SÁ­BA­DO .Ou se­ja, se as em­pre­sas es­ti­ve­rem a co­brar pa­ra os fun­dos que com­pra­ram as dí­vi­das, ten­dên­cia ca­da vez mai­or, ca­em fo­ra da re­gu­la­ção.

Sem su­per­vi­sor, nem re­gu­la­men­tos, ca­da em­pre­sa pra­ti­ca a au­to-re­gu­la­ção num ne­gó­cio cu­jo in­cen­ti­vo é sim­ples: quan­to mais co­bra­rem, mai­or a co­mis­são que re­ce­bem do in­ves­ti­dor (boa par­te dos tra­ba­lha­do­res tam­bém tem um sa­lá­rio va­riá­vel em fun­ção de re­sul­ta­dos). À pri­mei­ra vis­ta há pou­cas qu­ei­xas nes­ta área – fon­te ofi­ci­al da Pro­ve­do­ria de Jus­ti­ça (que ac­tua so­bre en­ti­da­des pú­bli­cas) con­fir­ma ter re-

ce­bi­do ape­nas 11 qu­ei­xas e a De­co afir­ma não ter nú­me­ros com­pi­la­dos. Mas Na­tá­lia Sou­sa, da De­co, faz uma res­sal­va: “Mui­tas pes­so­as têm pou­ca li­te­ra­cia fi­nan­cei­ra e, co­mo es­tão a de­ver, sen­tem-se di­mi­nuí­das fa­ce a es­tas em­pre­sas.” As qu­ei­xas que re­ce­be são de pes­so­as que pe­dem aju­da pa­ra or­ga­ni­zar os cré­di­tos e que de­pois fa­lam das prá­ti­cas de quem co­bra. “Te­nho re­ce­bi­do te­le­fo­ne­mas de­sa­gra­dá­veis e abu­si­vos pa­ra o meu local de tra­ba­lho com ame­a­ças de tri­bu­nais co­lo­can­do em cau­sa a mi­nha saú­de, o meu di­rei­to ao tra­ba­lho, e vi­da pri­va­da”, lê-se nu­ma sé­rie de emails en­vi­a­dos à De­co a que a SÁ­BA­DO te­ve aces­so. Na­tá­lia Sou­sa fa­la de al­guns ca­sos de ame­a­ças de pe­nho­ras, co­mo maus exem­plos. “Te­mos tes­te­mu­nha­do si­tu­a­ções ver­da­dei­ra­men­te in­só­li­tas, e mui­tas ve­zes le­si­vas pa­ra o con­su­mi­dor”, afir­ma. Um ex-tra­ba­lha­dor da Whi­tes­tar afir­ma à SÁ­BA­DO que cha­ma­das pa­ra o em­pre­go são prá­ti­ca fre­quen­te na em­pre­sa e em to­do o sec­tor, tal co­mo a pos­si­bi­li­da­de de um de­ve­dor ser con­tac­ta­do cer­ca de 10 ve­zes num só dia, nor­mal­men­te por pes­so­as di­fe­ren­tes – é um al­go­rit­mo que ge­ra o nú­me­ro pa­ra on­de o call cen­ter de­ve li­gar e es­te tem fa­lhas. A Whi­tes­tar res­pon­de à SÁ­BA­DO que “usa um sis­te­ma au­to­ma­ti­za­do de

Cam­pa­nha No Ve­rão e no Na­tal, quan­do as pes­so­as re­ce­bem os sub­sí­di­os, há pro­mo­ções pa­ra o pa­ga­men­to de dí­vi­das Li­ti­gân­cia Quan­do o de­ve­dor não pa­ga so­bra a li­ti­gân­cia. Os 900 mil pro­ces­sos des­te ti­po são dois ter­ços das pen­dên­ci­as

cha­ma­das, sen­do fei­tas, no má­xi­mo, três cha­ma­das diá­ri­as” e que “se o cli­en­te aten­der nu­ma des­sas ten­ta­ti­vas, os con­tac­tos au­to­ma­ti­za­dos dei­xam de ser fei­tos”.

Es­ta fon­te, e ou­tra li­ga­da ao sec­tor, apon­tam pro­ble­mas adi­ci­o­nais: qu­ei­xas fre­quen­tes so­bre mon­tan­tes er­ra­dos das dí­vi­das e pro­ble­mas na pro­tec­ção de da­dos. Por­que mui­tas ve­zes as dí­vi­das são an­ti­gas e nem sem­pre a in­for­ma­ção so­bre os de­ve­do­res que os ban­cos pas­sam ao in­ves­ti­dor es­tá ac­tu­a­li­za­da (as pes­so­as mu­dam de casa e de con­tac­to sem avi­sa­rem o ban­co), vá­ri­as em­pre­sas de re­cu­pe­ra­ção con­tra­tam com frequên­cia skip tra­cers, fir­mas que com­pram ba­ses de da­dos e que aju­dam a lo­ca­li­zar os de­ve­do­res.

Só a Eu­ro­pa quer re­gu­lar

O pre­si­den­te da as­so­ci­a­ção do sec­tor de re­cu­pe­ra­ção de cré­di­tos, a APERC, de­fen­de que es­ta prá­ti­ca exis­te em ca­sos pon­tu­ais e jus­ti­fi­ca­dos, sem com­pro­me­ter o de­ve­dor jun­to de fa­mi­li­a­res ou no em­pre­go. António Gas­par, ad­mi­te que pos­sa ha­ver al­gu­mas em­pre­sas de “vão de es­ca­da” com prá­ti­cas ile­gais, mas de­fen­de que as mai­o­res res­pei­tam có­di­gos de con­du­ta in­ter­nos – o mes­mo in­di­cam à SÁ­BA­DO a Whi­tes­tar e a In­trum Jus­ti­tia. No Parlamento Eu­ro­peu es­tá em de­ba­te uma di­rec­ti­va pa­ra re­gu­lar o sec­tor, mas es­ta de­mo­ra­rá a ser trans­pos­ta e mes­mo aí só se­rá “apli­cá­vel às trans­fe­rên­ci­as de con­tra­tos de cré­di­to que ocor­ram seis me­ses após o ter­mo do pra­zo da trans­po­si­ção”, lê-se no preâm­bu­lo. Em Por­tu­gal, os si­nais são pa­ra a con­ti­nu­a­ção do va­zio re­gu­la­tó­rio. No iní­cio do ano, o PS apre­sen­tou uma pro­pos­ta de re­gu­la­ção, apon­tan­do que “con­ti­nua em fal­ta um nor­ma­ti­vo que re­gu­le trans­ver­sal­men­te a ma­té­ria e que as­se­gu­re a pos­si­bi­li­da­de de in­ter­ven­ção fis­ca­li­za­do­ra das en­ti­da­des pú­bli­cas”. Ape­nas o Blo­co ad­mi­te ser ne­ces­sá­rio re­gu­lar o sec­tor, mas pe­diu mais re­fle­xão. Os ou­tros par­ti­dos re­jei­tam re­gu­lar uma ac­ti­vi­da­de em enor­me cres­ci­men­to, in­cen­ti­va­da in­di­rec­ta­men­te por re­gu­la­do­res ban­cá­ri­os e pe­lo Go­ver­no, por­que vai con­tra “os agen­tes da Jus­ti­ça” (PSD), por­que “o mer­ca­do fi­ca­ria inun­da­do de em­pre­sas des­te gé­ne­ro” (CDS) ou por­que “ac­tu­am à mar­gem da lei” (PCP).

A re­fe­rên­cia do PSD é à opo­si­ção da Or­dem dos Ad­vo­ga­dos e da Or­dem dos So­li­ci­ta­do­res. A Or­dem dos Ad­vo­ga­dos apon­ta à SÁ­BA­DO que a co­bran­ça de cré­di­tos é “uma com­pe­tên­cia pró­pria e ex­clu­si­va dos ad­vo­ga­dos e so­li­ci­ta­do­res” e que “não faz sen­ti­do re­gu­lar a ac­ti­vi­da­de des­tas em­pre­sas por­que é uma ac­ti­vi­da­de proi­bi­da”. As em­pre­sas de re­cu­pe­ra­ção de cré­di­tos em­pre­gam, con­tu­do, cen­te­nas de ad­vo­ga­dos – no fim de Ou­tu­bro a Whi­tes­tar, por exem­plo, fez três di­as de “jor­na­das de em­pre­ga­bi­li­da­de” na Fa­cul­da­de de Di­rei­to da Uni­ver­si­da­de de Lis­boa. En­tre fa­lhas e agres­si­vi­da­de na co­bran­ça, as mai­o­res em­pre­sas que­rem lar­gar a ima­gem do co­bra­dor de fra­que. Na con­fe­rên­cia no Pes­ta­na Pa­la­ce, a SÁ­BA­DO per­gun­tou aos lí­de­res de al­gu­mas das prin­ci­pais em­pre­sas de co­bran­ça se a re­gu­la­ção é ne­ces­sá­ria. A res­pos­ta foi inequí­vo­ca. “Se­ria uma for­ma de de­fen­der as pró­pri­as em­pre­sas e os seus cli­en­tes”, afir­mou Luís Sal­va­ter­ra, da In­trum Jus­ti­tia. Ou­tro ges­tor foi mais di­rec­to. “Es­sa per­gun­ta que nos fez de­ve­ria ser fei­ta a quem faz as leis”, apon­tou à SÁ­BA­DO.W

“TE­MOS TES­TE­MU­NHA­DO SI­TU­A­ÇÕES IN­SÓ­LI­TAS E LE­SI­VAS PA­RA O CON­SU­MI­DOR”, APON­TA A DE­CO

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Portugal

© PressReader. All rights reserved.