Sé­ri­es

Sábado - - SUMÁRIO -

Je­an-Jac­ques An­naud em ex­clu­si­vo: A Ver­da­de So­bre o Ca­so Har­ry Quebert

Após 42 anos a fa­zer ci­ne­ma, o re­a­li­za­dor de Se­te Anos no Ti­be­te e O No­me da Ro­sa es­treia-se na te­le­vi­são com a sé­rie A Ver­da­de So­bre o Ca­so Har­ry Quebert, a par­tir do li­vro de Joël Dic­ker. En­tre­vis­ta ex­clu­si­va com Je­an-Jac­ques An­naud. Por Markus Al­mei­da

QUEM MA­TOU Nola Kellergan? – foi a per­gun­ta que fez do suí­ço Joël Dic­ker um fe­nó­me­no li­te­rá­rio em 2012, quan­do A Ver­da­de So­bre o Ca­so Har­ry Quebert foi pu­bli­ca­do. Das 670 pá­gi­nas do li­vro, Je­an-Jac­ques An­naud cri­ou um filme re­par­ti­do em 10 ho­ras, cu­jo pri­mei­ro epi­só­dio es­treia es­te do­min­go, 2 de De­zem­bro, às 22h10, no ca­nal AMC. “Foi a pri­mei­ra vez que não ti­ve de lu­tar com a história de um filme, por­que ela já es­ta­va lá”, diz ao te­le­fo­ne, a par­tir de Pa­ris, o re­a­li­za­dor de 75 anos que se es­pe­ci­a­li­zou em adap­tar li­vros – de A Guer­ra do Fo­go (1981) a Es­pí­ri­to do Lo­bo (2015), O No­me da Ro­sa (1986) ou O Aman­te (1992).

É a pri­mei­ra vez que adap­ta um ro­man­ce pa­ra te­le­vi­são. Porquê só ago­ra?

Qu­e­ria fa­zê-lo há al­gum tem­po, por­que ho­je a te­le­vi­são atrai mui­ta aten­ção, e pas­sei os úl­ti­mos 10 anos à pro­cu­ra do ma­te­ri­al cer­to. Li o li­vro quan­do ami­gos me dis­se­ram que o de­via adap­tar, mas de­pois de 50 pá­gi­nas per­ce­bi que não se­ria viá­vel no for­ma­to ha­bi­tu­al de du­as ho­ras, por cau­sa da di­ver­si­da­de de per­so­na­gens e lo­ca­li­za­ções, mas que pa­ra 10 ho­ras de te­le­vi­são já se­ria per­fei­to.

Es­co­lheu Pa­trickDemp­sey­pa­ra­pro­ta­go­ni­za­ra­sé­rie, sem­me­do­da “co­la­gem”ao McD­re­amy­de Ana­to­mia de Grey.Fez­bem: “Fi­quei­de­li­ci­a­do­co­ma­pres­ta­ção de­le”

Fil­mar pa­ra te­le­vi­são mu­dou a sua for­ma de tra­ba­lhar? Nem pen­sei nis­so, até por­que os meus fil­mes tam­bém pas­sam na te­le­vi­são. Fil­mei co­mo sem­pre fiz. A úni­ca di­fe­ren­ça é que cri­ei uma re­gra: quis cap­tar o ins­tin­to dos meus ac­to­res, por is­so me­ta­de foi fil­ma­da ao pri­mei­ro ta­ke e mui­tas ve­zes sem en­sai­os, ape­nas já à fren­te da câ­ma­ra. Sa­bia que os bons ac­to­res che­gam ao seu me­lhor quan­do des­co­brem a ce­na e se­guem os seus ins­tin­tos. Foi uma gran­de sur­pre­sa pa­ra a mi­nha equi­pa e pa­ra o meu elen­co, mas pas­sa­dos al­guns di­as to­dos es­ta­vam a ado­rar o mé­to­do, por es­tar­mos a avan­çar mui­to de­pres­sa. Co­mo li­da com a ex­pec­ta­ti­va dos leitores so­bre a fi­de­li­da­de às obras ori­gi­nais nos fil­mes? Uma coi­sa boa nos li­vros é que não nos im­põem ima­gens mas su­ge­rem-nas, e eu, ao ler, con­si­go lo­go ver o filme, as per­so­na­gens, o set que te­rei de cons­truir. Só me pre­o­cu­pa ser fi­el às ima­gens que os li­vros cri­am na mi­nha ca­be­ça.

Joël Dic­ker tem mi­lhões de fãs, que que­re­rão ver a sé­rie. Não sen­te pres­são por ri­va­li­zar com o filme que os leitores já te­rão nas su­as ca­be­ças?

Cla­ro que di­rão: “Não foi bem is­to que eu vi”, mas aí res­pon­de­rei: “Cla­ro, mas foi o que eu vi. É a mi­nha tra­du­ção des­se mun­do.” Al­go que te­nho di­to aos au­to­res de li­vros que adap­tei é que os nú­me­ros não são os mes­mos. Lem­bro-me de ter ti­do es­sa con­ver­sa com Um­ber­to Eco há mui­tos anos. Ele aca­ba­ra de sa­ber que ti­nha ven­di­do um mi­lhão de li­vros na Ale­ma­nha, um gran­de sucesso, e dis­se-me: “Ima­gi­na se ti­ves­ses es­tes leitores to­dos nas sa­las, a ver o teu filme.” Res­pon­di-lhe que se as­sim fos­se nun­ca mais me dei­xa­ri­am fil­mar, que o filme te­ria si­do um fra­cas­so.

Co­mo con­ven­ceu Joël Dic­ker a ven­der os di­rei­tos?

Ele e a edi­to­ra co­nhe­ci­am o meu tra­ba­lho e fi­ca­ram sur­pre­en­di­dos com a mi­nha ideia. Ex­pli­quei-lhes que não po­dia ser fi­el ao es­pí­ri­to do li­vro em ape­nas du­as ho­ras, que se­ria um mas­sa­cre. O que sei é que re­ce­be­ram 96 ofer­tas de Hollywo­od, mas nin­guém lhes propôs fa­zer uma sé­rie. O au­tor te­ve al­gum en­vol­vi­men­to na pro­du­ção da sé­rie?

Não, mas o Joël é um ci­né­fi­lo e qu­e­ria ver o que se pas­sa­va num set de fil­ma­gem. Pa­ra mi­nha gran­de sur­pre­sa, as­sis­tiu à mai­or par­te da ro­da­gem. Ele es­ta­va en­tu­si­as­ma­do mas foi sem­pre mui­to dis­cre­to... Lem­bro-me de o ver à fren­te do com­pu­ta­dor e de lhe per­gun­tar o que es­ta­va a fa­zer. Dis­se-me: “Es­tou a es­cre­ver o meu novo ro­man­ce [O De­sa­pa­re­ci­men­to de Stepha­nie Mai­ler]”. Foi pu­bli­ca­do es­te ano e foi par­ci­al­men­te es­cri­to no set.

Es­co­lheu Se­an Con­nery pa­ra pro­ta­go­ni­zar O No­me da

Ro­sa quan­do ele ain­da es­ta­va mui­to as­so­ci­a­do ao 007...

E foi um pro­ble­ma! Ti­ve­mos pés­si­mas crí­ti­cas por es­se mo­ti­vo: quem ti­nha li­do o li­vro não o acei­ta­va – nem Um­ber­to Eco, que en­lou­que­ceu quan­do lhe dis­se que ia con­tra­tar o Se­an Con­nery, mas quan­do viu o filme dis­se-me que a sua per­for­man­ce foi do que mais gos­tou.

Ago­ra é Pa­trick Demp­sey, o eter­no McD­re­amy de Ana­to­mia de Grey, o pro­ta­go­nis­ta...

Ele es­ta­va can­sa­do de in­ter­pre­tar a mes­ma per­so­na­gem há tan­tos anos. Foi um cas­ting de­li­ca­do... Pre­ci­sa­va de en­con­trar um ac­tor atra­en­te e que pas­sas­se por al­guém de 40 anos, mas que tam­bém fos­se acei­tá­vel com 60 e mui­tos. Fi­quei de­li­ci­a­do com a pres­ta­ção de­le.

Ga­nhou um Ós­car ao pri­mei­ro filme, em 1976, com Pre­tos

e Bran­cos a Cor. À épo­ca sen­tiu a an­gús­tia do su­ces­sor da obra de es­treia, co­mo o Mar­cus Gold­man da sé­rie?

Iden­ti­fi­quei-me com a per­so­na­gem, cla­ro, em­bo­ra não ti­ves­se o pro­ble­ma da pá­gi­na em bran­co. Na al­tu­ra tam­bém an­da­va pre­o­cu­pa­do com o meu se­gun­do filme. A se­gun­da obra cos­tu­ma ser mais pe­ri­go­sa que a pri­mei­ra, por­que po­mos to­da a nos­sa ener­gia e fé na pri­mei­ra e fi­ca­mos com pou­co pa­ra di­zer a se­guir. W

Dic­ker­re­ce­beu 96 ofer­tas pe­los di­rei­tos da obra, mas nin­guém propôs uma sé­rie, co­mo An­naud, que per­ce­beu que du­as ho­ras não che­ga­vam pa­ra con­tar a história

Por ter fil­ma­do so­bre­tu­do em in­glês, diz-se que é um re­a­li­za­dor fran­cês, mas não de ci­ne­ma fran­cês; pa­ra a sé­rie, es­co­lheu Pa­trick Demp­sey (em bai­xo)

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