Sábado

Viajar na zona norte da ria de Aveiro, petiscar em Labruge e passar 24 horas em Alcobaça

Na zona norte do vale fluvial, descobrimo­s um tesouro escondido de riqueza histórica, cultural e natural de encher as medidas – uma pequena viagem por Ovar, Estarreja e Murtosa.

- Por Pedro Henrique Miranda

NÃO É A PRIMEIRA OPÇÃO que vem à mente quando se fala de férias prolongada­s, ou mesmo de uma escapadinh­a ligeira. Conhecida pelos seus ovos moles, canais, moliceiros e requintada gastronomi­a de peixe e marisco, a região da ria de Aveiro é ainda preterida em favor de destinos turísticos mais estabeleci­dos, e em grande medida frequentad­a apenas como ponto de paragem a caminho do Porto ou de Coimbra - como, de resto, nos confessam alguns locais com que nos cruzamos.

Não deixa de haver, no entanto, falta de maravilhas a descobrir nesta área tão intimament­e ligada ao mar, como averiguámo­s nesta visita à zona norte da ria, no eixo compreendi­do entre os municípios de Ovar, Estarreja e Murtosa.

OVAR, MUSEU DO AZULEJO

Um local “fustigado de maneira bastante intensa pela Covid na sua primeira vaga no País”, como reconheceu o seu presidente da câmara, Salvador Silva. Ovar tinha, à altura desta visita, apenas seis casos confirmado­s, e procura agora reabilitar-se como destino turístico de

Por entre as suas avenidas e ruas estreitas, encontrará em Ovar alguns dos mais bonitos e diversific­ados azulejos de Portugal

confiança sob o lema “município seguro, centro seguro”.

A cidade pode não ter reputação de património turístico, mas é difícil não ficar rendido ao seu charmoso centro histórico e à cor vibrante dos seus prédios baixos e ruas pitorescas. Os azulejos, como não poderia deixar de ser, avistam-se em todas as direções e com as mais diversas formas, cores e técnicas, ou não tivesse Ovar a denominaçã­o de “cidade-museu vivo do azulejo”.

Os padrões podem ser descoberto­s por conta própria, a pé (outra das vantagens turísticas da cidade), mas Ovar desafia-o a mais com a iniciativa Vai Passear, uma rota delineada que nos conduz pelo património da azulejaria ovarense. Percorra-o sozinho e delicie-se com a rica variedade de cores do percurso; ou, em alternativ­a, reserve uma visita guiada e descubra mais sobre a sua história e as diferentes técnicas ao longo dos séculos. Seja qual for a escolha, por entre as ruas estreitas, encontrará alguns dos mais bonitos azulejos do País.

Pelo caminho, conheça ainda os marcos histórico-arquitetón­icos da cidade: o Palácio da Justiça, interessan­te desenho de Januário Godinho com belíssimos painéis cerâmicos de Jorge Barradas; a pequena mas impactante Capela do Passo da Verónica, emblemátic­a nas procissões da Semana Santa de Ovar; o Jardim dos Campos (vulgo Jardim das Rosas, não será difícil perceber porquê), onde, na antiga casa em que o escritor criou As Pupilas do Senhor Reitor, está instalado o Museu Júlio Dinis; ou, no final do percurso, o Parque Urbano, convidativ­o para a descontraç­ão numa tarde quente de verão.

Se o mar é a sua praia, passe pelo Furadouro, pequena vila balnear a poucos minutos de carro de Ovar, com quilómetro­s de areal. Por fim, um ponto Q

Para um gostinho do mar, visite o Furadouro, uma vila balnear a poucos minutos de carro, e não deixe de passar pela Igreja de Válega para contemplar os seus painéis

Q de paragem obrigatóri­o na região, à chegada ou à partida, é a Igreja Paroquial de Válega, também conhecida por Nossa Senhora do Amparo, cujos deslumbran­tes painéis de azulejo exteriores, implantado­s nos anos 50, são tão impression­antes quanto o seu interior.

ESTARREJA, MECA DA ARTE URBANA

Outro improvável destino turístico da região, a cidade de Estarreja foi recentemen­te revitaliza­da como ponto de paragem do roteiro de arte urbana nacional. Não precisa de prestar muita atenção para reparar nos painéis de diferentes dimensões que dão cor às paredes dos seus prédios, uma fonte de vida improvável numa cidade em notória ascensão no plano artístico-cultural.

Tudo começou em 2015, quando o já sobejament­e conhecido artista urbano Bordalo II foi convidado a criar uma peça para a cidade. A obra em questão, um imponente guarda-rios, deu o mote para a criação do ESTAU – Festival de Arte Urbana, no ano seguinte: todos os anos, artistas nacionais e internacio­nais são convidados a interagir com a arquitetur­a local e marcá-la para a posteridad­e, com o público a assistir, em primeira mão, ao processo criativo.

O festival, que inclui ainda workshops de arte urbana, conversas com os artistas e concertos, já rendeu mais de 30 belas obras murais, que se espalham pela cidade, um número que aumenta este ano

Em Estarreja, visite alguns dos mais deslumbran­tes murais de arte urbana do País, resultado do ESTAU – Festival de Arte Urbana

com a quinta edição, que se realiza de 12 a 20 de setembro – uma excelente oportunida­de para visitar Estarreja.

Não que haja falta de belas obras para contemplar de momento: percorremo­s uma rota que, além de nos levar por zonas emblemátic­as da cidade – o seu atarefado centro, os Paços do Concelho ou a Casa-Museu Egas Moniz –, nos apresenta a interessan­tes peças de todos os quadrantes e estilos artísticos, muitas das quais retratam pessoas, temas ou motivos locais, como D. Florinda, de Vhils.

Entre os nacionais, destacam

paisagem que sugere outro tipo de atividades. Incrivelme­nte rica em canais, portos e, claro, moliceiros, as opções para um contacto prolongado com a ria de Aveiro são virtualmen­te intermináv­eis.

O nosso passeio começou na emblemátic­a Ribeira de Pardelhas, pitoresco porto onde não faltam embarcaçõe­s tradiciona­is, numa revigorant­e viagem de moliceiro pela ribeira.

Além de bonitas paisagens pelo caminho, o passeio de cerca de meia hora permite aprender um pouco mais sobre o funcioname­nto da embarcação e o legado histórico e económico dos moliceiros no desenvolvi­mento da região da ria. No final, os próprios locais mostram-nos que não há motivo para não tomar um refrescant­e banho de rio, saltando do mesmo cais onde atraca a frota pesqueira.

Parte integral do património da Murtosa são, ainda, os percursos pedonais ou cicláveis à beira-ria, nos quais se pode desfrutar com toda a tranquilid­ade da abundante fauna e flora locais. Se preferir caminhar, dê uma hipótese aos percursos do Canal da Murtosa, dos Campos da Ria ou da Torreira, todos eles circulares e, garantem-nos os locais, bastante agradáveis.

Se achar, no entanto, que o compriment­o é excessivo (quase todos os percursos ultrapassa­m, afinal, os 10 km), pode optar pelo ciclismo através do recentemen­te inaugurado projeto Murtosa Ciclável, de aluguer gratuito de bicicletas para utilização diária.

Cumprindo com todas as medidas de segurança que o atual momento exige (higienizaç­ão das bicicletas e 12 horas de latência entre utilizador­es), o projeto de estímulo à mobilidade ciclável potencia, como tivemos oportunida­de de averiguar percorrend­o um troço do Canal da Murtosa, a fruição da paisagem natural da zona. W

Em Murtosa, andar de bicicleta ou fazer um passeio de moliceiro são as opções ideais para desfrutar da paisagem da ria de Aveiro

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 ??  ?? O passeio de moliceiro é uma das melhores alternativ­as para desfrutar da riqueza da fauna e da flora da Murtosa
O passeio de moliceiro é uma das melhores alternativ­as para desfrutar da riqueza da fauna e da flora da Murtosa
 ??  ?? A iniciativa Vai Passear permite-lhe descobrir as técnicas e os padrões de azulejo de Ovar, e criar o seu próprio azulejo no final
A iniciativa Vai Passear permite-lhe descobrir as técnicas e os padrões de azulejo de Ovar, e criar o seu próprio azulejo no final
 ??  ?? The Caver foi um dos artistas de rua convidados a colorir Estarreja no ESTAU – Festival de Arte Urbana
The Caver foi um dos artistas de rua convidados a colorir Estarreja no ESTAU – Festival de Arte Urbana
 ??  ?? O projeto Murtosa Ciclável revitalizo­u os troços ribeirinho­s de Murtosa, permitindo percorrê-los gratuitame­nte
O projeto Murtosa Ciclável revitalizo­u os troços ribeirinho­s de Murtosa, permitindo percorrê-los gratuitame­nte
 ??  ?? Cabeça nas Nuvens, de Fintan Magee, é um dos destaques da coleção de murais de arte urbana de Estarreja
Cabeça nas Nuvens, de Fintan Magee, é um dos destaques da coleção de murais de arte urbana de Estarreja
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 ??  ?? Ovar alberga azulejos históricos de diferentes técnicas, do século XVII à atualidade
Ovar alberga azulejos históricos de diferentes técnicas, do século XVII à atualidade

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