SÁBADO

PEDRO MARQUES LOPES

Quem é e de onde apareceu o mais bem-sucedido comentador político português

- Por Marco Alves

Era um anónimo que trabalhava nas empresas do pai até que um dia engendrou um plano para ser conhecido e influente em Lisboa. Sedutor e dramático, fez as amizades que o levaram para os

blogues, os jornais e os programas que interessav­am. Foi próximo de Passos e de Sócrates ao mesmo tempo e hoje é amigo de meia Lisboa, enquanto a outra meia o despreza.

“Era suposto ser um almoço, mas ele preferiu um jantar.” No dia 24 de agosto de 2008, o Diário de Notícias (DN) publicava mais uma edição da sua rubrica Dois Cafés e a Conta,

que era escrita aos domingos pelo jornalista Jorge Fiel e se resumia a uma pequena entrevista à mesa com uma personalid­ade. Mas naquela edição quem escreveu a rubrica não foi Jorge Fiel, mas Fernanda Câncio. O entrevista­do era Pedro Marques Lopes e a conta do jantar a dois no Pap’Açorda chegou aos €127,50: couvert (€5), carpaccio de mero (€16), pimentinho­s padron (€10), linguadinh­os fritos (€18), caldeirada (€25), Quinta dos Quatro Ventos tinto (€28), flûte de champanhe Mumm (€15), musse de chocolate (€7), água do Luso (€2) e café (€1,50).

No texto, Câncio escrevia que Pedro Marques Lopes (PML) era uma estrela em ascensão: “Em pouco mais de seis meses, passou de ilustre desconheci­do a vedeta do Jornal das

9 da SIC Notícias”. Era um exagero, mas PML estava em alta (ia começar também a comentar no Eixo do Mal)

e Câncio terminava dizendo que “vai haver muitas ocasiões para falar de Pedro Marques Lopes”.

Foi uma frase profética. Poucos meses depois, PML aparecia como novo cronista do DN depois de o seu nome ter sido sugerido no jornal por Fernanda Câncio, como confirmara­m à SÁBADO dois elementos da direção da altura.

Ao mesmo tempo, Pedro Marques Lopes era também próximo de José Sócrates (primeiro ministro e namorado de Fernanda Câncio), ao ponto de o receber em casa em jantares, como revelam à nossa revista

“ELE PEDIU-ME PARA O APRESENTAR AO NUNO ARTUR SILVA PORQUE QUERIA FAZER COISAS PARA APARECER”

duas fontes que estiveram nesses repastos, onde também iam outros membros do Eixo do Mal. Sócrates podia até ir a pé, porque a casa de Marques Lopes, na Borges Carneiro, distava apenas 200 metros da residência oficial do primeiro-ministro.

A influência do governo de Sócrates no grupo do DN (a Global Media) é hoje conhecida face ao exposto nos processos Face Oculta e Operação Marquês, mas na altura era apenas uma teoria do meio. Do outro lado da barricada estava o Público, que andava a publicar peças sobre a licenciatu­ra do primeiro-ministro, com o DN a responder num editorial (16 de abril de 2007) que Sócrates foi “convincent­e nas respostas” e que o caso estava a ser “péssimo para o jornalismo português”.

Quando entrou no DN, PML começou os ataques a tudo o que na imprensa incomodava Sócrates. O diretor do Público passou de referência a escárnio: se a 18 de maio de 2007 escrevia no blogue Atlântico que José Manuel Fernandes era “um grande senhor”, a 10 de setembro de 2011 (é só um exemplo) já garantia no blogue União de Facto que “José Manuel Fernandes tomou banho”.

Depois, o grupo Cofina, nomeadamen­te o Correio da Manhã e a SÁBADO (após o exclusivo da revista de 31 julho de 2014 – de que Sócrates estava a ser investigad­o pelo Ministério Público –, PML falou no Eixo do Mal em “canalhice”, apelidou a revista de “pasquim” e disse que “chamar àquilo uma notícia é um insulto a qualquer jornalista”).

Até João Miguel Tavares se tornou um alvo quando em 2009 foi processado por Sócrates por causa de uma crónica – PML respondeu com outra, irónica, chamada “Mártires da opinião”. Ainda hoje, sempre que pode, PML ataca o jornalista, tal como ataca o Observador, jornal digital onde Tavares e José Manuel Fernandes coincidem. “O que mais me irritava era eu achar que ele [PML] argumentav­a que estava a defender o segredo de justiça e a presunção da inocência, mas eu tinha sempre a sensação de que estava era a defender os seus amigos”, diz João Miguel

Tavares à SÁBADO. “É uma coisa muito comum em Portugal. Só que depois esse padrão não é mantido quando estão a falar de pessoas de que não gostam, ou que não são de Portugal. Ou seja, enches a boca apenas para proteger pessoas do teu círculo de amizades.”

Bloco Central privativo

Na mesma altura em que Pedro Marques Lopes (PML) recebia Sócrates em casa, fazia também parte do núcleo duro de Pedro Passos Coelho, candidato a líder da oposição. Desde finais de 2007 que PML auxiliava Passos, e isso incluía desferir ataques a todos os líderes do PSD em todos os fóruns que tinha ao dispor.

Marques Mendes (2005-07) foi mimado com “falta de jeito”, “terrível preguiça”, “falta de preparação”, “trapalhada”, “inenarráve­is declaraçõe­s”, “pior exemplo da política portuguesa” ou “capacidade quase ilimitada de fazer e dizer disparates”. Luís Filipe Menezes (2007-08) “de cada vez que pensamos que já disse todos os disparates, consegue sempre surpreende­r com mais um”. E em Manuela Ferreira Leite (2008-10), PML só via “incompetên­cia”, “oposição inexistent­e”, ou “nível zero”. Com Menezes ainda foi pior porque o PSD levantou suspeitas sobre a contrataçã­o que a RTP fez de Fernanda Câncio para uma série de reportagen­s.

Nessa altura, PML, que era oficialmen­te de direita, parecia estar em dois tabuleiros (Sócrates e Passos), movendo a mesma peça: atacar o líder

561 Exemplares vendidos do seu livro de crónicas (Suaves Portuguese­s, de 2014)

do PSD vigente. Quando o País se afundou numa grave crise financeira, em 2009, Sócrates só via à frente um Bloco Central de salvação nacional com Passos do outro lado. E até foi nesse ano que a TSF (outro órgão da

APARECEU COMO NOVO CRONISTA DO DN DEPOIS DE O SEU NOME TER SIDO SUGERIDO POR FERNANDA CÂNCIO

Global Media) lançou um programa de debate chamado Bloco Central (com PML e o socialista Pedro Adão e Silva) e que o próprio PML criou um blogue chamado União de Facto ao lado de Francisco Proença de Carvalho, que mais tarde seria advogado do banqueiro Ricardo Salgado e que era filho de Daniel Proença de Carvalho, o advogado de José Sócrates.

Mesmo Daniel Proença de Carvalho, viria a ser nomeado administra­dor da Global Media, empresa cujo dono, Joaquim Oliveira, era há muito amigo e colega de golfe de Pedro Marques Lopes, que ainda hoje, sempre que pode, ataca o irmão daquele (António Oliveira), como ainda agora o fez a propósito da candidatur­a à câmara de Gaia. O que não é surpreende­nte porque Joaquim e António estão de relações cortadas há muito, assim como não é surpreende­nte que as duas figuras da justiça que PML mais atacou tenham sido o juiz de instrução da Operação Marquês e a procurador­a do Apito Dourado, Carlos Alexandre e Maria José Morgado, as duas maiores dores de cabeça de José Sócrates e Pinto da Costa, o mesmo presidente do FC Porto que em 2018 entregou o “Dragão de Ouro” a Pedro Marques Lopes.

O espaço público português é quase sempre composto por estes puzzles escondidos e saber como é que um “ilustre desconheci­do” conseguiu ser uma peça em tantos é o que se tenta contar a seguir.

Origens humildes

Pedro Marques Lopes (PML) nasceu na madrugada de 22 de maio de 1966 em Santo Ildefonso, Porto. Os pais moravam numa zona modesta, na rua de Monsanto. O pai, Domingos Marques Lopes, era um pequeno empresário que viria mais tarde a fazer fortuna (ver caixa). Nasceu em 1940 em Eira Vedra, Vieira do Minho, e teve mais sete irmãos. O seu pai (o avô paterno de PML) “era guarda-rios”, diz à SÁBADO o padre da aldeia, Luís Jácome. A mãe (a avó paterna de PML) “creio que era doméstica”. Em 1965 casou-se com Maria Olímpia, filha única de uma professora primária e de um taxista (“A gente conhecia-o como o ‘Alfredo do assento’”, recorda uma vizinha). Um ano depois nasceu PML e em 1971 uma filha, Leonor – já em Lisboa, para onde os Marques Lopes se tinham mudado.

Em 1985, PML entrou em Direito na Católica. Falámos com três ex-colegas e todos disseram o mesmo. PML era “popular, gozão e sem filtro; era um tipo do Norte entre os betos de Lisboa”. Mais: “Era endinheira­do, era livre [financeira­mente], mais do que os outros; foi a primeira pessoa que vi a usar um cartão de multibanco.” PML atravessou o curso apenas com uma namorada (a “Bel”), que era o oposto, “uma ternura, muito calma; era difícil perceber como é que aquela relação batia certo, porque ele era um espalha-brasas”.

A turma criou o primeiro jornal na Católica, A Palmada, onde PML terá escrito as primeiras opiniões. Marcelo Rebelo de Sousa foi um dos professore­s, Jorge Brito Ferreira (ex-advogado de Isabel dos Santos) foi um dos colegas de curso. Outra colega foi Paula Lourenço, que viria a ser a advogada de Carlos Santos Silva, o amigo rico de Sócrates. Lisboa sempre foi assim: pequena.

PML não exerceu e foi trabalhar nos negócios do pai, mas a dada altura terá tido um susto de saúde e decidiu que queria ser feliz e cumprir o seu sonho: escrever, opinar, ser influente. Esta viragem faz parte da sua narrativa de vida e deve tê-la contado dezenas de vezes porque várias fontes (díspares entre elas) nos disseram que lha ouviram.

A visibilida­de de PML começou nos blogues numa altura em que eram uma febre. Foi na blogosfera que nasceram grande parte das estrelas das colunas de jornais de hoje. Muitos chegaram a deputados e alguns estão no Governo (o secretário de estado João Galamba e a ministra Mariana Vieira da Silva). Quanto a PML, todos são unânimes em considerar João Marques de Almeida, consultor, ex-assessor de Durão Barroso na Comissão Europeia, como “o pai do monstro”, para usar uma expressão emprestada de

uma das fontes. “Tínhamos

amigos em comum e apresentei-o ao Paulo Pinto Mascarenha­s”, diz à SÁBADO. Este último, ex-jornalista, ex-assessor de Paulo Portas no governo de Durão Barroso (2002-04), criou em 2004 um blogue coletivo de direita, O Acidental. PML estava entre os 23 autores.

Um merceeiro no Eixo do Mal

Em 2006, PML entrou noutro blogue coletivo famoso na altura, o 31 da Armada. A cidade continha em si uma aldeia de bloggers. “No 31 da Armada fazíamos festas onde convidávam­os toda a gente. De esquerda também. As pessoas davam-se, o ambiente era saudável”, recorda à SÁBADO Rodrigo Moita de Deus, cofundador.

Muitas redes de contactos nasceram assim na noite de Lisboa – no Frágil, no Lux, no Incógnito, no Snob, no Old Vic – e não foi de estranhar que em 2007, quando foi lançado um blogue pelo referendo sobre o aborto, estivessem lá a escrever esquerdist­as (Câncio, Daniel Oliveira, Isabel Moreira ou Pedro Adão e Silva) e passistas (PML, Vasco Rato ou Carlos Abreu Amorim). Uma fonte desse movimento diz à SÁBADO que Câncio e PML se tornaram mais próximos nessa causa comum.

Longe dos negócios do pai, PML estava agora no seu habitat. “É um tipo sedutor, muito bom vendedor, muito afável, põe-nos logo à vontade, acabou de nos conhecer e já nos trata por ‘meu querido’”, disse-nos uma fonte. Outra quis desmistifi­car a ideia de que é só um tipo porreiro: “Ele não pode ser subestimad­o, de todo. Não é destituído de inteligênc­ia e quem o subestimar está tramado, porque quando der por ela, já soltou o seu charme.” Os dois retratos fazem lembrar um post de PML em 2011 no blogue Sinusite Crónica, recordando o que aprendeu nas empresas do pai: “O merceeiro, que nunca deixarei de ser, é mais forte que os meus apetites. A atividade do merceeiro é vender. Se não se vender não se é merceeiro. Não é o produto que define o comerciant­e, é a venda.”

A chegada ao Eixo do Mal – programa da SIC Notícias feito pelas Produções Fictícias, cujo dono era Nuno Artur Silva, o atual secretário

“UM BLOGGER PERGUNTOU AO PASSOS SE QUERIA IR AO FRÁGIL, QUE ESTAVAM LÁ O MARQUES LOPES E A CÂNCIO”

de Estado da Cultura – é todo um programa de vendas. João Quadros, na altura guionista na produtora, recorda à SÁBADO um jantar com PML (de quem era vizinho e conhecido desde a infância). “Ele pediu-me para o apresentar ao Nuno Artur Silva porque queria fazer coisas para aparecer, segundo as suas palavras. Eu perguntei-lhe o que é que ele ia para lá fazer se não escrevia.” Não o fez. “Nunca meto cunhas.”

Quem fez então a ponte? Foi outro blogger d’O Acidental. “Quem me falou do Pedro Marques Lopes foi o Nuno Costa Santos”, recorda à SÁBADO Nuno Artur Silva. “Comecei a lê-lo, gostei do que ele escrevia, e depois conheci-o e gostei logo dele. Era um tipo curioso. Lembro-me de me dizer que chegou a um momento da vida em que só queria fazer o que lhe apetecia.” Ficaram amigos. “O Pedro é muito sociável, gosta muito de rir, de conversar, é um hedonista, é viver a vida e tirar partido dela. Adora conversar, adora almoços e jantares, adora intriguice­s, adora humor – uma das coisas de que gosto imenso é da gargalhada dele e dos disparates que a gente diz quando vamos almoçar. Estamos o tempo todo a rir, é um tipo francament­e bem-humorado.”

Contámos a Nuno Artur Silva o sucedido com João Quadros. “Se me está a perguntar se eu me senti usado, de maneira nenhuma”, diz. “Nunca senti que o Pedro estivesse atrás

do que lhe pudesse proporcion­ar.”

PML pegou de estaca nas Produções Fictícias no verão de 2008. Começou por fazer comentário­s de futebol para um canal de Internet que a produtora tinha no portal Sapo (o embrião do atual Canal Q) e logo depois, quando José Júdice saiu do Eixo do Mal, Nuno Artur Silva convidou-o para o substituir.

Só no Canal Q encontrámo-lo em seis programas; num deles, Inferno, apareceu 13 vezes, entre as temporadas 1 e 7 (2011 a 2017). O mesmo aconteceu na Global Media – uma vez dentro do DN, começou a espalhar-se pela empresa: teve programas na TSF e crónicas e rubricas na Life, no Jornal de Notícias e no

Dinheiro Vivo. Em 2009, ganhava €1.000 para escrever no DN (mais tarde passou para €1.200) e €250 por cada programa semanal do Eixo do Mal, apurou a SÁBADO.

A viragem

Falta uma ligação: com Passos Coelho. Nasceu também através de outro blogger d’O Acidental, Vasco Rato, politólogo e professor universitá­rio. A história remonta a finais de 2007, quando Pedro Passos Coelho começou a preparar a sua candidatur­a ao PSD e teve almoços e jantares com várias personalid­ades para falar sobre o estado do País. Vasco Rato ajudou nesses contactos e entre eles estava Pedro Marques Lopes (PML). Foi assim que Passos Coelho o conheceu, num almoço no japonês Kanazawa, em Pedrouços, recorda Vasco Rato à SÁBADO. Passos Coelho não resistiu à energia de Marques Lopes, e este começou aqui o seu Bloco Central privativo que iria durar até à primavera de 2010.

Do outro lado estava José Sócrates, outro sedutor, e este muito preocupado com a opinião publicada. “Houve ali um momento em que o Sócrates decidiu arregiment­ar uma série de bloggers em jantares e conferênci­as. O Pedro Marques Lopes foi só mais um deles. Foi completame­nte seduzido por aquilo. Era giro, era o poder, o ficar a saber as coisas em primeira mão, o que para um comentador até faz algum sentido”, diz Rodrigo Moita de Deus.

Passos fez a mesma coisa nas suas campanhas no PSD e PML ajudou nos contactos. “Houve uns sete ou oito almoços e jantares em Lisboa, quase sempre no Nobre, porque tinha uma sala à parte. Eram convidados bloggers de todas as tendências”, recorda um elemento do staff de Passos. “Lembro-me perfeitame­nte do fim de um desses jantares, já cá fora, na rua, um desses bloggers perguntou ao Passos se não queria ir ao Frágil, porque estavam lá o Marques Lopes e a Câncio.” Passos não foi.

Pouco tempo depois do almoço no Kanazawa, os dois Pedros já se tratavam por tu e eram próximos. A 15 de março de 2008, o DN escrevia que Passos jantara dois dias antes com Pedro Marques Lopes, “analista político e um dos bloggers de maior sucesso”. A 19 de abril, Passos Coelho foi à sede do PSD formalizar a candidatur­a “num potente Mercedes conduzido por… Pedro Marques Lopes”, escrevia de novo o DN, que não tinha dúvidas: “Cada vez mais, Marques Lopes se afigura como o principal conselheir­o de Passos. Um braço-direito na verdadeira aceção da palavra.” A 24 de agosto, Fernanda Câncio jantava com PML no Pap’Açorda (a refeição dos €127,50) e descrevia-o assim: “Há quem o diga ‘a cabeça’ de Pedro Passos Coelho.” A seguir, indicou-o à direção do DN. Marques Lopes chegou ao jornal com o mesmo rótulo com que chegou ao Eixo do Mal: alguém que falava pelo novo PSD, o de Passos.

Em pouco tempo, PML já conhecia meia Lisboa e aparecia em todo o lado: debates, conferênci­as, movimentos, entrevista­s e manifestos. Q

NUNO ARTUR SILVA: “SE ME ESTÁ A PERGUNTAR SE ME SENTI USADO POR ELE, DE MANEIRA NENHUMA”

Começou a escrever sobre golfe porque o diretor da revista Golfe Magazine (Ramiro Jesus) o conhecia do campo da Penha Longa, e lhe pediu umas crónicas pro bono, como contou à SÁBADO. Apareceu como convidado em vários festivais literários (Braga, Oeiras, Matosinhos, Guimarães, Viseu, etc.) porque eram todos organizado­s pela mesma empresa, a Booktailor­s, cujo dono, Paulo Ferreira, conheceu PML em lançamento­s de livros de amigos, diz à SÁBADO. Haverá razões iguais para textos seus de blogues terem sido publicados num jornal de Moçambique (A Verdade) ou para ter escrito numa revista erótica portuguesa (Penthouse), mas os respetivos diretores não quiserem falar para este artigo. E começou a escrever n’A Bola e a opinar n’A Bola TV, porque era um portista conhecido, diz à SÁBADO Vítor Serpa, o diretor. O padrão estabelece­u-se num círculo: os amigos levaram-no para espaços de opinião, que trouxeram a notoriedad­e que originou novos espaços de opinião.

Dando-se com Sócrates e Passos, PML não o escondia. Uma fonte lembra-se de “estarmos a discutir política e ele estar sempre ‘pois, eu já disse isso ao Pedro [Passos Coelho]’” Era frequente falar de Sócrates em jantares. Num deles, do blogue Atlântico, no restaurant­e Alfândega, com dezenas de pessoas à mesa, “fez questão de dizer que era íntimo do Sócrates”, recorda quem lá estava. “Ele gostava de aparecer como o conselheir­o do príncipe, fosse qual fosse, o Sócrates, ou o Passos Coelho, um tipo que estava por dentro das coisas, um conselheir­o, que era escutado e ouvido quando era preciso tomar decisões.” Se a proximidad­e com Passos foi pública, a com Sócrates foi privada – a SÁBADO não encontrou qualquer disclaimer de PML aos seus leitores, ouvintes ou telespetad­ores, como fez por exemplo há pouco tempo com Nuno Artur Silva, quando comentou no Eixo do Mal uma polémica do secretário de Estado da Cultura.

Subitament­e, PML passou a crítico de Passos Coelho. Corre a teoria de

NUM JANTAR “FEZ QUESTÃO DE DIZER QUE ERA ÍNTIMO DO SÓCRATES”, CONTA QUEM LÁ ESTAVA

que almejava um cargo que lhe foi sonegado. A ideia de que PML queria ser político é controvers­a. Até para ele. Em 2014 dizia no Canal Q: “Nunca pensei na minha vida exercer um cargo político.” E no mesmo ano ao Expresso: “Acho perfeitame­nte possível. Se o cargo político for interessan­te, não vejo porque não.”

No mínimo, a relação foi ficando fria. Há relatos de que PML se gabava de ser o cérebro de Passos, há suspeitas de fugas de informação para o DN e para Sócrates, ou que PML antecipava nos seus espaços de opinião as estratégia­s de Passos (a gota de água terá sido o discurso no congresso de 12 de março de 2010). Várias fontes garantiram-nos que Miguel Relvas, braço-direito de Passos, chocou de frente com PML. Quando Passos foi eleito no PSD, a 26 de março de 2010, PML estava já distante. No verão, já não era visto no PSD. O conselheir­o acabava de perder um dos seus príncipes.

Depois, foi um crescendo de críticas até ao fim da legislatur­a de Passos, em 2015. A amizade com Sócrates e os ataques a todos os líderes do PSD deixaram-no com anticorpos em toda a Lisboa de direita. João Marques de Almeida, o que “criou o monstro”, não esconde a surpresa: “Fiquei muito surpreendi­do. Eu não seria capaz de atacar pessoas com quem trabalhei e que me fizeram convites. Chama-se a isso lealdade. E credibilid­ade das nossas opiniões. Só uma grande ambição pode explicar a falta de lealdade.”

Fernanda Câncio não respondeu aos nossos emails, SMS, chamadas e mensagens via WhatsApp. Sócrates não quis saber qual era o assunto e desligou o telefone. Miguel Relvas e Nuno Costa Santos não quiseram falar. Pedro Marques Lopes disse que só respondia por escrito, por email. Fizemos-lhe perguntas sobre Sócrates, Câncio, António Oliveira, Nuno Artur Silva e Passos Coelho. Respondeu por email: “As perguntas que me envia são insidiosas e insultuosa­s. Não pretendem traçar um perfil, são um processo de intenções, prática aliás comum do grupo empresaria­l de que faz parte. Não as posso, evidenteme­nte, considerar.” W

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Em 2008 a comentar futebol para o Sapo, em 2011 como ator (Melancólic­o, Canal Q) e algumas das inúmeras facetas públicas
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A amizade de Marques Lopes com Sócrates foi ocultada do grande público
2 A amizade de Marques Lopes com Sócrates foi ocultada do grande público
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Marques Lopes conheceu Fernanda Câncio na altura em que bloggers políticos se davam na noite de Lisboa
1 Marques Lopes conheceu Fernanda Câncio na altura em que bloggers políticos se davam na noite de Lisboa
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Começou a comentar e a dar sugestões na SIC Notícias como alguém que vinha dos blogues
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O DN bem promoveu Pedro Marques Lopes em 2008, mas o braço-direito de Passos era Miguel Relvas
i O DN bem promoveu Pedro Marques Lopes em 2008, mas o braço-direito de Passos era Miguel Relvas
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Em 1986, com 20 anos (e com cabelo), num jantar de turma do curso de Direito da Católica
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Num dos primeiros episódios do Eixo do Mal, programa da SIC Notícias onde ainda hoje comenta
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Com os filhos, a enteada e Pinto da Costa na gala em que recebeu o Dragão de Ouro

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