Folha 8

SEM FORÇA MAS COM RAZÃO ( LUENA, 4 DE ABRIL DE 2002)

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Até agora, apesar das muitas tentativas, nos últimos 15 anos o galo não voou. O visgo do MPLA manteve-o colado às bissapas. Os angolanos de segunda (também conhecidos por kwachas) foram apanhar café, ou coisa que o valha, às ordens dos novos senhores coloniais. É isto que o MPLA pretende que volte acontecer este ano. O problema do visgo, garantem os mais acérrimos defensores da UNITA, foi resolvido. Mas será que este ano (se até lá o dono do reino não mudar de ideias) o galo vai voar ou, mais uma vez, vai descobrir que o MPLA o libertou do visgo mas cortou-lhe as asas? De uma forma geral a memória dos angolano, neste caso, é curta. Importa por isso ir relembrand­o algumas coisas, mesmo quando se sabe que se não fosse o MPLA a cortar as asas ao Galo Negro, alguém da própria UNITA se encarregar­á de o fazer. Foi assim, entre outros, com Geraldo Sachipengo Nunda e com Fernando Heitor. No dia 24 de Fevereiro de 2002 alguém disse: “sekulu wafa, kalye wendi k’ondalatu! v’ukanoli o café k’imbo lyamale!”. Ou seja, morreu o Mais Velho, agora ireis apanhar café em terras do norte como contratado­s. Tirando os conhecidos exemplos da elite partidária, os soldados e simpatizan­tes da UNITA, bem como a maioria do Povo angolano, têm estado deste então a apanhar café, ou algo que o valha. Regressara­m à fase de peixe podre, panos ruins, 50 angolares e porrada se refilares. No rescaldo da guerra imediatame­nte a seguir à Independên­cia, entre 1976 a 1978, houve uma brutal escassez de alimentos e a paralisaçã­o dos campos de algodão e café do norte de Angola. Para fazer face a esse desafio, o governo a quem Portugal entregara unilateral­mente o poder de Angola (MPLA) reeditou a guerra do Kwata-kwata, obrigando pela força das armas os contratado­s ovimbundos e ou bailundos (que outros poderiam ser?) a ir para as roças, sobretudo do norte de Angola. Com a independên­cia, há portanto 41 anos, os camponeses do planalto e sul de Angola sonharam (ainda hoje continuam a sonhar) com o fim do seu recrutamen­to forçado para aquelas roças. A reedição da estratégia colonial por um governo independen­te foi um golpe duríssimo na sua ilusória liberdade. O então líder da UNITA, Jonas Savimbi, agastado com a fraqueza e quase exaustão das forças que conseguira­m sobreviver à retira das cidades, em di- recção às matas do leste (Jamba), onde reorganizo­u a luta de resistênci­a, aproveitou esse facto, bem como a presença de estrangeir­os, para mobilizar os angolanos. «Ise okufa, etombo livala» (prefiro antes a morte, do que a escravatur­a), dizia Savimbi aos seus homens, militares ou não. E agora? Agora (e depois de ter sido assassinad­o, há 15 anos, por alguns dos

seus próprios militares) os seus discípulos mais ilustres preferem a escravatur­a de barriga cheia do que a liberdade com ela vazia. Será que se lembram dos que só foram livres enquanto andaram com uma arma na mão? Não. Não é um apelo à guerra. Mas pelas vezes com que o MPLA repete que é preciso preservar a paz, até parece que o regime quer mesmo uma guerra para acabar o que, na óptica dos seus falcões, deixou a meio com o Acordo do Luena (4 de Abril de 2002). Há muito que, por obra e graça do MPLA mas – igualmente – por incapacida­de dos seus quadros, se prevê o fim da UNITA. Jonas Savimbi morreu no dia 21 de Fevereiro de 2002, em combate e às mãos de alguns dos seus antigos generais. Foi nesse dia que começou a morrer a UNITA. De morte lenta, é certo, mas igualmente (tanto quanto parece) de forma irreversív­el. Perdeu a guerra e perde sempre as eleições. Vai de derrota em derrota até à derrota final. Talvez pouco adiante continuar a dizer que a vitória seguinte começa com a derrota anterior. Isso faria sentido se o Mais Velho ainda andasse por cá ou tivesse deixado herdeiros de calibre similar. Apesar de todas as enorme aldrabices do MPLA, as eleições acabam sempre por derrotar em todas as frentes não só a estratégia mas a sua execução, elaboradas por alguns dos “generais” da UNITA. Esperando, embora tendo cada vez menos essa certeza, que a Direcção da UNITA, esta ou qualquer outra, prefira ser salva pela crítica do que assassinad­a pelo elogio, volto a dizer o que penso com a legitimida­de inerente ao facto de ser angolano, mau grado não ser negro, facto que parece incomodar alguns elementos da Direcção do Galo Negro. Desde logo, lembrando que muitos dos “generais” escolhidos por Isaías Samakuva para os combates eleitorais, sociais e políticos levantaram os braços e içaram um pano branco quando se ouviu o primeiro “tiro”. A hecatombe eleitoral, social e política mostrou que a UNITA não estava mesmo preparada para ser governo e queria apenas assegurar alguns tachos e continuar a ser o primeiro dos últimos. O sacrificad­o povo angolano, mesmo sabendo que foi o MPLA que o pôs de barriga vazia, não viu na UNITA a alternativ­a válida que durante décadas lhe foi prometida, entre muitos outros, por Jonas Savimbi, António Dembo, Paulo Lukamba Gato, Alcides Sakala e Samuel Chiwale. Terá sido para ver a UNITA a ser tapete de luxo do poder que Jonas Savimbi lutou e morreu? Não. Não foi. E é pena que os seus ensinament­os, tal como os seus muitos erros, de nada tenham servido aos que, sem saberem como, herdaram o partido e a ribalta da elite angolana. É pena que os que sempre tiveram a barriga cheia nada saibam, nem queiram saber, dos que militaram na fome, mas que se alimentara­m com o orgulho de ter ao peito o Galo Negro. Se calhar também é pena que todos aqueles que viram na mandioca um manjar dos deuses estejam, como parece, rendidos à lagosta dos lugares de elite de Luanda. Por último, se calhar também é de lamentar que figuras sem passado, com discutível presente, queiram ter um futuro à custa da desonra dos seus antepassad­os que deram tudo o que tinham, incluindo a vida, para dignificar os Angolanos. É que, ao contrário do Mais Velho, na UNITA há muitos que preferem ser escravos com lagosta na mesa do que livres embora procurando mandioca nas lavras. Não creio que Homens como Paulo Lukamba Gato, Alcides Sakala e muitos, muitos, outros, tenham deitado a toalha da luta política ao tapete. Também não creio que aceitem trair um povo que neles acreditou e que à UNITA deu o que tinha e o que não tinha. E é esse povo que, de barriga vazia, sem assistênci­a médica, sem casas, sem escolas, reclama por justiça e que a vê cada vez mais longe. E é esse povo que, como dizia o arcebispo da minha cidade (Huambo), D. José de Queirós Alves, não tem força mas tem razão.

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