A rua on­de mo­ro

Jornal de Angola - - PARTADA - JO­SÉ LUÍS MENDONÇA |

Quan­do che­ga No­vem­bro, a rua on­de mo­ro fi­ca lin­da. As acá­ci­as ao lon­go dos pas­sei­os se en­char­cam de flo­res ver­me­lhas. E o con­tras­te en­tre o azul do céu e o pó­len san­guí­neo das pé­ta­las me pin­ta os olhos de emo­ção.

De ma­nhã, saio pa­ra o tra­ba­lho. Lá es­tá o miú­do Olho de Ga­li­nha (quem deu as al­cu­nhas a to­dos ali na rua é uma ma­da­me mui­to go­zo­na), com o seu olho es­quer­do em­ba­ci­a­do, a var­rer a zo­na con­tí­gua. O Pa­ta de Com­boio vem sem­pre a sor­rir, com o bal­de de água e o pa­no na mão, la­var os car­ros da zo­na. De­pois do sa­lu de la­va­gem e ou­tros bis­ca­tes de po­dar al­gu­mas ár­vo­res den­tro dos quin­tais, vai ali à tas­ca do ou­tro la­do da rua var­rer uma bir­ras, na sequên­cia de um bom mu­fe­te de ca­ra­pau ou ti­lá­pia. Já be­beu bué nou­tros tem­pos. De tan­to be­ber o ka­por­ro­to das pon­tei­ras, num be­co do Mar­çal on­de uma mais ve­lha tem um alam­bi­que, lhe in­chou o pé di­rei­to e a ma­da­me go­zo­na lhe al­cu­nhou de Pa­ta de Com­boio. Di­zem que ma­tou o tio quan­do era mi­li­tar e a úni­ca ma­nei­ra de anes­te­si­ar o re­mor­so per­sis­ten­te era nos va­po­res do ka­pu­ka.

O miú­do Olho de Ga­li­nha tam­bém tem a in­cum­bên­cia de re­ti­rar o li­xo ma­le­vo­la­men­te de­po­si­ta­do pe­los vi­zi­nhos nos cír­cu­los das ár­vo­res e trans­por­ta-o pa­ra o con­ten­tor ao fun­do da rua. A fal­ta de ci­vis­mo e de ur­ba­ni­da­de de al­guns vi­zi­nhos é de tal or­dem que há al­guns que, pe­la ca­la­da da noi­te, de­po­si­tam sa­cos de li­xo nas bo­cas das acá­ci­as que o Go­ver­no de Lu­an­da abriu, quan­do se re­pa­vi­men­tou os pas­sei­os, ao mes­mo tem­po que os chi­ne­ses en­ter­ra­vam a no­va ca­na­li­za­ção da água. Hou­ve di­as em que não con­se­guia en­trar com o car­ro pe­lo por­tão de fren­te, tan­to era o li­xo que se acu­mu­la­va até ao as­fal­to. Ho­je, é o Olho de Ga­li­nha que as­se­gu­ra a vi­gi­lân­cia ou, nos ca­sos de im­pos­si­bi­li­da­de fí­si­ca – ele não é noc­tí­va­go – re­ti­ra-o, no dia se­guin­te. É pa­go pa­ra is­so.

Há ain­da ou­tros per­so­na­gens que fa­zem par­te da­que­le or­ga­nis­mo vi­vo e di­nâ­mi­co que é a rua on­de mo­ro. Por exem­plo, o cão gran­de da vi­zi­nha das al­cu­nhas, um cão já ve­lho mas de olhar de­ci­di­do, atrás das fê­me­as que por ali pas­sam e que ain­da tem per­nas pa­ra dar cor­ri­da nos ou­tros cam­buás in­tru­sos. Tem meia dú­zia de zun­guei­ros no as­fal­to à en­tra­da do meu quin­tal. Uns ven­dem fa­tos. Ou­tros exi­bem ócu­los de sol. São os zai­ren­ses. De­pois há os ven­de­do­res de lim­pa pá­ra­bri­sas, e os que ven­dem for­ros pa­ra os ban­cos dos car­ros e ta­pe­tes. Mais além, sen­tam-se os ven­de­do­res de chão de pas­seio, o ras­ta das mis­san­gas, a mãe­zi­nha do bom­bó fri­to, da jin­gu­ba tor­ra­da e ba­na­na-pão as­sa­da.

O meu co­ra­ção tre­mia mui­to à noi­te, quan­do o vi­zi­nho do úl­ti­mo an­dar do pré­dio ao la­do or­ga­ni­za­va far­ras de fim-de-se­ma­na com um som de per­fu­rar a al­ma. Fe­liz­men­te, o vi­zi­nho, de­pois de nos es­tra­gar os tím­pa­nos por lon­gos anos, alu­gou o apar­ta­men­to e foi mo­rar no Se­ke­le. Aiué, Mu­xi­ma ye­tu da San­ta­na ou­viu as nos­sas pre­ces!

Ou­tra in­cum­bên­cia do Olho de Ga­li­nha é ar­ras­tar um pe­sa­do es­quen­ta­dor ava­ri­a­do pa­ra a en­tra­da do por­tão do meu quin­tal, as­sim que saio pa­ra tra­ba­lhar. Os au­to­mo­bi­lis­tas que vão ao res­tau­ran­te da es­qui­na, e os que vão ao pré­dio ao la­do, ou até os pró­pri­os vi­zi­nhos, não res­pei­ta­vam o aces­so do meu car­ro.

Ti­ran­do is­so, a rua on­de mo­ro é um bei­jo da­do na fa­ce de uma mãe.

Tem ou­tras ru­as de Lu­an­da com as co­res que a ur­ba­ni­za­ção se­cu­lar as em­be­le­za. Tem a Rei Katya­va­la com as su­as ka­o­bas im­po­nen­tes, se­cas no Ca­cim­bo e com aque­le ver­de-vi­vo nes­ta es­ta­ção da Chu­va. Pou­ca gen­te sa­be, mas so­bres­sai ali fren­te ao pré­dio da AN­GOP uma ár­vo­re bem al­ta e gros­sa que dá ja­kas. Tem a HoChi-Min com o fa­mi­ge­ra­do pau­da-co­bra (ain­da vou des­ven­dar o no­me ci­en­tí­fi­co da ár­vo­re).

Há di­as, vi­si­tei o vi­vei­ro do Ki­na­xi­xe e vi lá mui­tas das ár­vo­res que Lu­an­da tem e de que pre­ci­sa pa­ra se re­no­var. Fi­quei tris­te. De­cep­ci­o­na­do. As­se­di­a­ram o vi­vei­ro de mu­das de ár­vo­res do Ki­na­xi­xe de tal for­ma, que o lo­cal mais pa­re­ce um acam­pa­men­to de ár­vo­res des­lo­ca­das de gu­er­ra. É que a gu­er­ra que mo­ve­ram ali, pe­los es­pa­ços cir­cun­dan­tes, foi de tal mag­ni­tu­de que ape­nas so­brou um mi­nús­cu­lo gue­to de flo­ra, man­ti­da a cus­to de tei­mo­sia e per­sis­tên­cia pe­los tra­ba­lha­do­res que re­gam os sa­qui­nhos com as mu­das das plan­tas a cres­cer.

Ocu­pa­ram o ter­ri­tó­rio à vol­ta. Cons­truí­ram ali re­si­dên­ci­as, bem aca­ba­das umas, a in­di­ci­ar o pro­pri­e­tá­rio bem po­si­ci­o­na­do no cum­bú, ou­tras fei­tas à tun­gan­gó, com o ca­no do es­go­to a es­cor­rer pe­lo de­cli­ve que dá pa­ra a Rai­nha Jin­ga.

Ain­da lá es­tá o res­tau­ran­te. A ca­sa do guar­da flo­res­tal do tem­po co­lo­ni­al tam­bém lá es­tá, mas há ou­tra gen­te sem a au­to­ri­da­de de de­fen­der as ár­vo­res que ha­via no tem­po do co­ló, ali a ve­ge­tar com as plan­tas, que fi­ca­mos sem sa­ber se o Es­ta­do re­al­men­te tem mão no vi­vei­ro do Ki­na­xi­xe ou se há uma ou­tra mão ca­bri­ti­vis­ta a co­mer os paus.

Por is­so é que eu gos­to da rua on­de mo­ro. É uma rua li­vre. Al­gu­mas acá­ci­as mor­re­ram de­pois de mais de 50 anos a flo­rir e a dar som­bra. Os mo­ra­do­res da pro­xi­mi­da­de plan­ta­ram nos lu­ga­res de ex­tin­ção das acá­ci­as ou­tras es­pé­ci­es. Vê-se ali um tam­ba­ri­nei­ro. Além uma ni­mi (diz-se por aí “nem”, não sei porquê, se vem do in­glês “ne­em”).

A chu­va de No­vem­bro tem vin­do a cair, de ca­xe­xe, can­tan­te, nos te­lha­dos de lu­sa­li­te (há quem es­cre­va e di­ga “ro­sa­li­te”, não sei porquê, se não tem na­da a ver com rosa). Quan­do a chu­va cai, as flo­res ofe­re­cem as su­as pé­ta­las às go­tas de água e vêm, de mãos da­das, cair no pas­seio e no as­fal­to. Eu saio de ca­sa, nes­tas ma­nhãs co­lo­ri­das, e ca­mi­nho so­bre es­se ta­pe­te ver­me­lho de flo­res de acá­cia. Sou o rei da rua on­de mo­ro.

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