Plu­ra­lis­mo de opi­nião e for­mas de co­mu­ni­car

Jornal de Angola - - PARTADA - Luciano Rocha

O plu­ra­lis­mo de opi­nião nos ór­gãos de co­mu­ni­ca­ção so­ci­al po­de ser sa­lu­tar, mes­mo quan­do cau­sa dis­cus­são en­tre quem as ma­ni­fes­ta, desde que ha­ja cum­pri­men­to de re­gras co­muns à vida em ge­ral.

Tem­pos hou­ve em que as tro­cas de opi­nião em jor­nais diferentes eram vul­ga­res. Até fo­men­ta­das. Os pro­ta­go­nis­tas mui­tas ve­zes co­nhe­ci­am-se, fre­quen­ta­vam os mes­mos res­tau­ran­tes e ca­fés, cum­pri­men­ta­vam-se, ti­nham ami­gos co­muns. Em su­ma, res­pei­ta­vam-se por res­pei­ta­rem as re­gras ele­men­ta­res da edu­ca­ção. Sem ab­di­ca­rem de prin­cí­pi­os fi­lo­só­fi­cos, po­lí­ti­cos, mo­rais. Os lei­to­res ga­nha­vam com is­so, os jor­nais tam­bém, com o au­men­to de ven­das.

Ro­man­ces e fil­mes so­bre épo­cas re­mo­tas mos­tram-nos epi­só­di­os so­bre aque­las dis­pu­tas. Que em al­guns ca­sos, ra­rís­si­mos, ter­mi­na­vam em du­e­los. Com ar­mas bran­cas ou de fo­go. Mas, a par­tir da sua con­su­ma­ção, “la­va­da a hon­ra”, re­gres­sa­va a ci­vi­li­da­de en­tre as par­tes.

Nos pri­mór­di­os do jor­na­lis­mo an­go­la­no hou­ve igual­men­te con­fron­tos de idei­as nos jor­nais. Tam­bém en­tre nós, den­tro das normas da éti­ca, do bom sen­so. Que se saiba, sem du­e­los que não fos­sem os das pa­la­vras.

De­pois, ao co­lo­ni­a­lis­mo jun­tou-se o fas­cis­mo e com ele a proi­bi­ção de fa­lar e es­cre­ver o que se pen­sa­va. Ape­nas o po­di­am fa­zer quem de­fen­dia e te­cia lo­as ao re­gi­me di­ta­to­ri­al. O que, pro­va­vel­men­te, le­vou ao en­cer­ra­men­to de pu­bli­ca­ções.

Com a im­po­si­ção da cen­su­ra, des­ti­na­da a ha­ver so­men­te uma opi­nião pública ex­pres­sa, as re­gras al­te­ra­ram-se ra­di­cal­men­te. Os jornalistas - os que qui­se­ram e sou­be­ram, uns melhor do que ou­tros - apren­de­ram for­mas diferentes de es­cre­ver, no­ti­ci­ar, ex­pri­mir idei­as, lu­di­bri­ar os “guar­diões do po­der ins­ti­tuí­do”, os cen­so­res, co­ro­néis na mai­o­ria. Qu­a­se to­dos pou­co ins­truí­dos. Que des­co­bri­am “sub­ver­são” onde não ha­via, mas dei­xa­vam es­ca­par “men­sa­gens proi­bi­das”. Dou dois exem­plos, o pri­mei­ro dos quais já o re­fe­ri, nes­te es­pa­ço. Na dé­ca­da de 1960, Luanda re­gis­tou a mai­or chu­va­da de sem­pre, que des­truiu gran­de par­te da ca­pi­tal. Os diá­ri­os da épo­ca en­che­ram pá­gi­nas a mostrar os es­tra­gos da ci­da­de as­fal­ta­da. Di­as de­pois, o “Jornal de An­go­la” - edi­ta­do pe­la As­so­ci­a­ção dos Na­tu­rais de An­go­la - ti­tu­lou a to­da a pri­mei­ra pá­gi­na: “No Mus­se­que tam­bém Cho­veu”. Era ver­da­de, in­des­men­tí­vel. Co­nhe­ci­da de to­dos. O seu res­pon­sá­vel, Nor­ber­to de Cas­tro, foi preso pe­la Po­lí­cia política. A pu­bli­ca­ção en­cer­ra­da.

O se­gun­do exem­plo: o go­ver­no de Lis­boa en­vi­ou um deputado do Par­la­men­to fas­cis­ta a Braz­za­vil­le pa­ra ten­tar con­ven­cer Agos­ti­nho Ne­to, pre­si­den­te do MPLA, a re­gres­sar a An­go­la. Cla­ro que voltou a Lis­boa “de mãos a aba­nar”. Agên­ci­as no­ti­ci­o­sas de pra­ti­ca­men­te to­do o mun­do de­ram a notícia. Nem em Portugal, em ne­nhu­ma co­ló­nia, foi pu­bli­ca­da. A ex­cep­ção foi An­go­la. Is­so de­veu-se ao ABC que ig­no­rou o cor­te de cen­su­ra e pu­bli­cou o fac­to na pri­mei­ra pá­gi­na. Re­sul­ta­do, o jornal foi sus­pen­so por 30 di­as e os jornalistas pos­tos atrás das gra­des.

Ou­tro ca­so ri­dí­cu­lo - re­ve­la­dor da ig­no­rân­cia de al­guns cen­so­res - é o de uma notícia que men­ci­o­na­va as po­ten­ci­a­li­da­des do “fu­te­bol in­dí­ge­na”. O cen­sor subs­ti­tuiu a se­gun­da pa­la­vra por “de An­go­la”.

A Cons­ti­tui­ção An­go­la­na con­tem­pla o plu­ra­lis­mo de opi­nião. O mi­nis­tro de Co­mu­ni­ca­ção So­ci­al, João Me­lo, su­bli­nhou re­cen­te­men­te a im­por­tân­cia de que ela se re­ves­te. Jul­go es­tar­mos to­dos de acor­do. Desde que se res­pei­tem os prin­cí­pi­os de bom sen­so. Co­mo fa­zi­am os co­lu­nis­tas de ou­tros tem­pos. Que tam­bém es­cre­vi­am bem. E sem a ver­bor­reia, jac­tân­cia, ig­no­rân­cia de quan­tos jul­gam que opi­nar é ca­lu­ni­ar, men­tir. Até na di­ver­si­da­de há re­gras.

O con­fron­to de idei­as nos ór­gãos de co­mu­ni­ca­ção so­ci­al po­de ser sau­dá­vel, desde que cum­pri­das re­gras co­muns à vida em ge­ral. Sem ver­bor­reia, jac­tân­cia, ca­lú­nia

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