O er­ro do Congresso

Correio da Bahia - - Economia -

A cri­se es­ca­lou nas úl­ti­mas ho­ras. A Câ­ma­ra apro­vou me­di­das que ame­a­çam pro­cu­ra­do­res e juí­zes no meio da ma­dru­ga­da e on­tem, em tor­no das 19h, o pre­si­den­te do Se­na­do, Re­nan Ca­lhei­ros, co­man­da­va uma ma­no­bra ver­go­nho­sa pa­ra apro­var ur­gên­cia e vo­tar o pro­je­to on­tem mes­mo na Ca­sa, sem cum­prir as mais mí­ni­mas eta­pas do pro­ces­so le­gis­la­ti­vo.

Fe­liz­men­te, a ur­gên­cia foi re­jei­ta­da por 44 se­na­do­res contra 14, mas por al­guns lon­gos mi­nu­tos o pre­si­den­te do Se­na­do, en­san­de­ci­do, co­man­dou um pro­ces­so com­ple­ta­men­te sem sen­ti­do, ten­tan­do apro­var por vo­to sim­bó­li­co al­go des­sa gra­vi­da­de. Não hou­ve se­quer o cum­pri­men­to da pra­xe do en­ca­mi­nha­men­to a fa­vor da ur­gên­cia. Dois se­na­do­res fa­la­ram contra, ou­tros dois te­ri­am que fa­lar a fa­vor. Mas nin­guém quis as­su­mir que fa­zia par­te de ma­no­bra tão ver­go­nho­sa. Foi sob gri­tos do ple­ná­rio que Re­nan acei­tou pôr em vo­ta­ção no pai­nel, e as­sim, com a aju­da da trans­pa­rên­cia do vo­to no­mi­nal, a ma­no­bra foi afas­ta­da. Com o pai­nel in­di­can­do os no­mes, foi pos­sí­vel sa­ber quem de­fen­dia aque­la vo­ta­ção apres­sa­da da me­di­da que ha­via si­do apro­va­da às qua­tro da ma­nhã na Câ­ma­ra. Fo­ram os se­na­do­res Ro­ber­to Re­quião (PMDB-PR), Pas­tor Va­la­da­res (PDT-RO), Val­dir Raupp (PMDB-RO), Vi­cen­ti­nho Al­ves (PR-TO), Ze­zé Per­rel­la (PTB-MG), Be­ne­di­to de Li­ra (PP-AL), Ci­ro No­guei­ra

(PP-PI), Fer­nan­do Be­zer­ra Co­e­lho (PSB-PE), Fer­nan­do Col­lor (PTC-AL), Hé­lio Jo­sé (PMDB-DF), Hum­ber­to Cos­ta (PT-PE), Ivo Cas­sol (PP-RO), João Al­ber­to Sou­za (PMDB-MA), Lind­bergh Fa­ri­as (PT-RJ). Se­ri­am mui­to mais se eles es­ti­ves­sem re­co­ber­tos pe­lo man­to da vo­ta­ção sim­bó­li­ca.

É uma afron­ta a ca­da pes­soa que as­si­nou a pro­pos­ta de ini­ci­a­ti­va po­pu­lar de com­ba­te à cor­rup­ção o que acon­te­ceu no Congresso nas úl­ti­mas ho­ras com a Câ­ma­ra, apro­van­do me­di­das que ame­a­çam pro­cu­ra­do­res e juí­zes. A pre­si­den­te do Su­pre­mo, Car­men Lú­cia, con­de­nou o tex­to que saiu da ma­dru­ga­da da Câ­ma­ra e os pro­cu­ra­do­res da La­va-Ja­to ame­a­ça­ram dei­xar em blo­co a ope­ra­ção ca­so is­so vi­re lei. A Câ­ma­ra não ti­nha o di­rei­to de pe­gar uma pro­pos­ta po­pu­lar e vi­rá-la do aves­so. O Congresso não tem o po­der de im­por ao país a agen­da opos­ta ao que a po­pu­la­ção es­co­lheu.

Aqui se quer com­ba­ter a cor­rup­ção e não ame­a­çar juí­zes e pro­cu­ra­do­res com dis­po­si­ti­vos le­gais com ter­mos sub­je­ti­vos. Era pa­ra con­de­nar cor­rup­tos que bra­si­lei­ros se mo­bi­li­za­ram pa­ra co­lher as as­si­na­tu­ras. Fo­ram pa­ra ru­as e pra­ças do Bra­sil con­ven­cen­do umas às ou­tras a as­si­nar o que o Mi­nis­té­rio Pú­bli­co cha­mou de as 10 me­di­das de com­ba­te à cor­rup­ção. Seis fo­ram der­ru­ba­das, ou­tras fo­ram en­fra­que­ci­das, e o con­jun­to to­tal­men­te des­vir­tu­a­do com ar­ti­gos que cons­tran­gem a ma­gis­tra­tu­ra e o Mi­nis­té­rio Pú­bli­co.

O dia on­tem foi du­ro tam­bém na eco­no­mia, que fi­cou de fren­te com mais um da­do ne­ga­ti­vo: o sé­ti­mo tri­mes­tre em que o PIB en­co­lhe. É um tem­po di­fí­cil. Ne­le, a ati­vi­da­de cai e os em­pre­gos so­mem. As em­pre­sas e as fa­mí­li­as pre­ci­sam de um mí­ni­mo de ho­ri­zon­te e não o têm. Os nú­me­ros fa­lam por si, com que­da em to­dos os se­to­res, sob to­das as for­mas de com­pa­ra­ção fei­tas pe­lo IBGE. A ta­xa de in­ves­ti­men­to caiu a 16,5%, o me­nor per­cen­tu­al des­de

2003.

A in­fla­ção con­ti­nua aci­ma do te­to da me­ta e a elei­ção de Do­nald Trump ele­vou no­va­men­te o dó­lar. Por is­so, o Ban­co Cen­tral re­du­ziu a Se­lic on­tem em ape­nas 0,25%. Es­sa que­da mais len­ta es­tá le­van­do à re­du­ção das pro­je­ções pa­ra o PIB do ano que vem.

Por trás dos nú­me­ros, há pes­so­as vi­ven­do dra­mas pes­so­ais ca­da vez mais agu­dos e uma vas­ta de­ses­pe­ran­ça. A tu­do is­so se jun­tam as ma­ni­fes­ta­ções an­ti-te­mer, co­mo o pa­ne­la­ço de on­tem e o pro­tes­to na Es­pla­na­da na ter­ça-fei­ra. Mi­lha­res fo­ram pa­ra a Pra­ça dos Três Po­de­res pa­ra gri­tar contra a PEC que ten­ta con­tro­lar os gas­tos, mas o ato aca­bou de­ge­ne­ran­do em vi­o­lên­cia com de­pre­da­ções de lu­ga­res pú­bli­cos. Mas o que po­de­rá am­pli­ar pro­tes­tos lo­ca­li­za­dos é o am­bi­en­te econô­mi­co que per­ma­ne­ce em re­ces­são.

Um in­gre­di­en­te que po­de ele­var ain­da mais a ten­são no país é a in­dig­na­ção contra as de­ci­sões e a ati­tu­de do Congresso. O Le­gis­la­ti­vo tem o po­der, que lhe foi de­le­ga­do pe­lo po­vo bra­si­lei­ro, de vo­tar as leis. Mas não pa­ra uma le­gis­la­ção exa­ta­men­te con­trá­ria ao que o país quer. Que se­na­do­res e de­pu­ta­dos não se en­ga­nem: aqui se quer com­ba­ter a cor­rup­ção.

mi­ri­am­lei­tao@oglo­bo.com.br

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