Folha de S.Paulo

Mostra traça panorama de obras compradas em galerias

- FABIO CYPRIANO

FOLHA

A primeira sala da mostra “Os Muitos e o Um – Arte Contemporâ­neaBrasile­ira”,emcartaz no Instituto Tomie Ohtake, é deslumbran­te. Obras mais cerebrais e racionalis­tas de Waltercio Caldas e Iran do Espírito Santo dialogam com trabalhos mais emocionais e viscerais de Tunga e Anna Maria Maiolino de forma orgânica e coerente.

Não se trata, contudo, de aproximaçõ­es óbvias, e essa organizaçã­o tem muito a ver com a leitura de um estrangeir­o, no caso o artista e curador norte-americano Robert Storr, que há muito conhece a produção nacional. Para organizar a mostra, ele teve a seu dispor uma das mais completas coleções de arte brasileira, a do casal Andrea e José Olympio Pereira.

Contudo, a delicadeza e surpresa da primeira sala não se mantêm nos dois espaços seguintes —um dedicado à pintura, outro à fotografia e ao vídeo, ambos cheios de trabalhos. Compreende-se que, por causa da qualidade da coleção, seja difícil a seleção, mas essa é a função do curador.

Frente a ela, Storr optou por uma saída tradiciona­l: dividir nessas salas as obras por suporte, criando ali algumas presenças um tanto artificiai­s, como incluir entre as pinturas uma tela de Thiago Martins de Melo. Afinal, o artista não se destaca por discutir esse meio, mas sim a realidade brasileira, portanto estaria mais adequado na sala dedicada à fotografia.

Entre as duas salas, contudo, o curador cria uma espécie de praça surreal, com destaque para trabalhos de José Damasceno, onde a técnica deixa de ser assunto e com isso as obras conquistam maior liberdade.

A sala dedicada à fotografia revela por um lado um país idealizado, seja na construção de Brasília, seja na presença de índios retratados por Claudia Andujar ou nas fotos oníricas de Luiz Braga. No entanto, esse lado um tanto estereotip­ado do Brasil se desconstró­i com a instalação “Funk Staden”.

Na parte inferior do instituto, a mostra alcança outros dois pontos altos. O primeiro, na sala redonda dedicada à Volpi. O pintor modernista ocupa uma espécie de capela de forma original e se sustenta aí com o apoio de duas esculturas de Amilcar de Castro.

Finalmente, na sala com obras de Carmela Gross, André Komatsu e Daniel Steegmann, a mostra termina com delicadeza.

“Os Muitos e o Um” tem a qualidade de não buscar apresentar uma leitura linear da arte brasileira a partir de uma coleção de respeito, mas é essencialm­ente uma boa história do mercado de arte dos últimos anos.

Isso pois não há trabalho na exposição que não tenha sido adquirido em galerias comerciais, o que não desmerece o conjunto, mas aponta a importânci­a das últimas duas edições da Bienal, inclusive esta em cartaz, que apresentam práticas artísticas que não se compram em galerias. Arte contemporâ­nea brasileira não se encontra só no mercado. QUANDO de ter. a dom., das 11h às 20h; até 23/10 ONDE Instituto Tomie Ohtake, r. Coropés, 88, tel. (11) 2245-1900 QUANTO grátis AVALIAÇÃO bom

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