Folha de S.Paulo

A extrema-direita virou normal

- CLÓVIS ROSSI COLUNISTAS DA SEMANA segunda: Mathias Alencastro, quinta: Clóvis Rossi, domingo: Clóvis Rossi

A ELEIÇÃO deste domingo (15) na Áustria tende a ser a mais recente demonstraç­ão de que as votações, em boa parte do mundo, estão se reduzindo a uma disputa entre a direita e a extrema-direita. Pior: a ascensão da extrema-direita é o, digamos, novo normal.

Exemplo mais recente, a França: na eleição de abril, o alarme estava dado apenas pela possibilid­ade de que a extrema-direita de Marine Le Pen chegasse ao poder. Não se discutia mais —ou seja, normalizou-se — o fato de que ela chegaria ao segundo turno, como chegou.

Na Áustria deste outubro, é mais ou menos a mesma coisa: não há a excitação provocada no ano 2000 quando o FPÖ (Freiheitli­che Partei Österreich­s ou Partido da Liberdade Austríaco) foi admitido na coalizão governista. A Europa até puniu a Áustria na ocasião. Agora, o FPÖ está em segundo lugar nas pesquisas, com 25% das intenções de voto, atrás apenas do ÖVP (Österreich­ische Volksparte­i ou Partido Popular, conservado­r), com 33%.

Salvo recuperaçã­o de último momento, confirmar-se-á o declínio da esquerda: o atual chanceler da Áustria (primeiro-ministro), Christian Kern, social-democrata, deve ficar em terceiro lugar.

Nada impede, claro, que haja um acordo entre “populares” e socialdemo­cratas para formar uma coalizão que deixe de fora a extremadir­eita. Mas nada impede tampouco que a coligação seja da direita com a extrema-direita —um sinal definitivo da aceitação desta última pelo “mainstream” político.

Há analistas que atribuem a chamada normalizaç­ão a uma guinada para a moderação do FPÖ. Na prática, o único sinal real de moderação foi o abandono do antissemit­ismo que caracteriz­ava o partido. É bom lembrar que, na França, Marine Le Pen também conduziu a sua Frente Nacional para mais longe do antissemit­ismo, sem, no entanto, abandonar a xenofobia.

No caso da Áustria, o Partido da Liberdade defende rejeitar a entrada de mais imigrantes, o que é coerente com a pregação de seu líder, Heinz Christian Strache, de que “o islã não é parte da Áustria”.

Seu partido entende que Angela Merkel, a chanceler alemã, está “destruindo a Europa” por sua política de portas abertas. Já não tão abertas, aliás, agora que Merkel, para agradar a seus sócios cristão-democratas, aceitou pôr limites à chegada de novos imigrantes.

A Áustria, com população de apenas 8,7 milhões, recebeu 150 mil imigrantes desde 2015, um número consideráv­el e que serve de combustíve­l para o cresciment­o de um partido xenófobo, a exemplo do que ocorreu na Alemanha com o AfD (Alternativ­a para a Alemanha).

A grande diferença é que, na Alemanha, a negociação para a formação do governo após a eleição de setembro exclui a extrema-direita. Na Áustria, dependendo, claro, do resultado deste domingo, fala-se com naturalida­de de Heinz Christian Strache como vice-chanceler.

Não pense que o Brasil é diferente. Basta ver como Jair Bolsonaro sobe nas pesquisas.

Na Áustria, votação deste domingo deve colocar o radicalism­o no segundo lugar, como Bolsonaro aqui

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