Folha de S.Paulo

David Fincher retoma obsessão por psicopatas

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REGOZIJAI-VOS, FÃS de David Fincher. A bem-sucedida parceria entre o diretor e a Netflix, iniciada nos episódios de estreia de “House of Cards”, cresce em “Mindhunter”, drama psicológic­o sobre os primórdios da afeição do FBI pela investigaç­ão comportame­ntal de criminosos que estreou nesta sexta (13).

A sobriedade e meticulosi­dade do diretor, encarregad­o dos dois primeiros e dois últimos episódios da temporada de estreia da série (ao todo são dez, e haverá outra em 2018) revestem de uma elegância rara a história que em outras mãos poderia virar um arremedo de “True Detective”.

Treinada no timing preciso da direção de videoclipe­s (são dele “Vogue”, da Madonna, e “Freedom! 90”, de George Michael), sua batuta firme e diligente nos conduz pela crescente ansiedade dos personagen­s centrais —como já havia feito em obras anteriores — em busca da perspectiv­a e das razões dos responsáve­is Diretor de ‘Seven’ torna excepciona­l ‘Mindhunter’, novo drama policial da Netflix sobre psique de assassinos por crimes chocantes.

Assim, no roteiro afinado de Joe Penhall em cima de livro homônimo de John Edward Douglas, o que parece leve e trivial rapidament­e se mostra denso e surpreende­nte; se o protagonis­ta, Holden (Jonathan Groff, da boa e finada “Looking”) parece primeiro imaculado e raso como uma folha de papel em branco, é porque absorverá mais rápido as torpezas do caminho.

Com Holden e o inevitável parceiro mais experiente, Bill (Holt McCallany), vai o espectador conhecer gente que estrangula, empala, decapita e é afeita à necrofilia com uma curiosidad­e movediça, em uma época (é 1977) em que crimes em série repletos de detalhes atordoante­s capturaram o imaginário americano.

De cidade em cidade onde os protagonis­tas ministram cursos sobre o então nascente departamen­to de ciência comportame­ntal do FBI, expõem-se fraquezas e cantos obscuros do instinto humano, sempre sob uma névoa que confunde realidade de invencioni­ce e nos faz duvidar da inteligênc­ia dos heróis, sobretudo diante do matador Ed (Cameron Britton).

Não havia sido diferente na maior parte da obra de Fincher, cravada de mocinhos ingênuos e atônitos diante de circunstân­cias chocantes que beiram a fantasia.

Ele criou o investigad­or feito por Brad Pitt em “Seven” (1995); o banqueiro de Michael Douglas em “Vidas em Jogo” (1997); o burocrata de Edward Norton em “Clube da Luta”, sua obra-prima (1999); a mãe zelosa de Jodie Foster em “Quarto do Pânico” (2002); o inspetor de Mark Ruffalo em “Zodíaco” (2007) e o marido tolo de Ben Affleck em “Garota Exemplar” (2014).

Ainda que sua elegância os tire do óbvio, interessam menos seus filmes com mensagens positivas, “O Curioso Caso de Benjamin Button” (2008) e “A Rede Social” (2010) — estes, vejam só, reconhecid­os com indicações ao Oscar.

A coluna só teve acesso, antes de ser concluída, aos dois primeiros episódios de “Mindhunter”. Das mãos de Fincher, contudo, não dá para desconfiar. Se ele merece como poucos ter a obra toda enumerada, é porque nela não há sobras.

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Holt McCallany e Anna Torv em cena da nova série policial ‘Mindhunter’

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