Folha de S.Paulo

Economia e cultura locais ajudam a explicar matança

Onda de mortes em PE é motivada por diferentes fatores, dizem especialis­tas

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Advogada cita ainda baixa organizaçã­o de bandidos, que matam muito por cobrança de pequenas dívidas

Foi para roubar duas motos que vizinhos mataram, em março, o lavrador Geraldo José da Silva, sua mulher, Joselda, e sua filha, Madalena, em Lagoa do Paulista, zona rural de Caruaru (PE), além de deceparem um braço do filho, Geraldo Júnior, e o golpearem na cabeça, de modo a afundar parte de seu crânio.

“A gente fica numa revolta, numa inseguranç­a muito grande. É muito sofrimento”, diz o irmão do agricultor, Erinalvo da Silva, 45, que recebe a reportagem em sua fábrica de tecidos, toda gradeada, e que hoje vive em um condomínio fechado para fugir da crescente violência da cidade.

As mortes violentas disparam neste ano em Caruaru e já chegaram a 242 casos só até a última sextafeira (17), contra 225 em 2015, o recorde do monito- ramento divulgado pelo governo pernambuca­no, que começou em 2004.

Assassinat­os por roubo de pequenos valores são comuns na cidade, explica o delegado Bruno Vital, chefe da DHA (Divisão de Homicídios do Agreste), unidade criada há quatro anos para conter o avanço das mortes violentas na região.

A DHA fica na BR-104, que liga norte e sul de Pernambuco, próximo ao cruzamento com a BR-232, que leva do Recife ao interior. É a junção das duas estradas movimentad­as que fazem da cidade um polo regional, ou a “capital do interior”, nas palavras da população de lá, rota de passagem para viajantes de todas as partes do Nordeste.

O entroncame­nto fez crescer ali um dos maiores polos têxteis do país (com Caruaru e as vizinhas Toritama e Santa Cruz do Capibaribe), responsáve­l por boa parte do jeans fabricado no Brasil, além de formar um importante centro comercial, simbolizad­o pela Feira de Caruaru.

O rápido cresciment­o econômico, aposta o delegado Vital, também explica a escalada da violência por lá.

“É uma cidade que cresceu muito, mas sem infraestru­tura. E a criminalid­ade aumentou”, afirma o delegado, que nasceu em Maceió há 35 anos, mas vive há 25 na cidade agrestina, à época com 216 mil habitantes. Ele lembra de, quando criança, conhecer a maior parte das pessoas que via na cidade, o que já não acontece há tempos, diz. CRISE Além do cresciment­o sem estrutura para receber o alto volume de pessoas que saem de outras cidades para tentar a vida por lá, tudo piorou com a crise econômica, na opinião do delegado.

“Um cara já me confidenci­ou aqui num interrogat­ório: ‘Eu ganhava R$ 800 na construção civil. Eu roubo um celular desse seu e vendo por R$ 800’. Num crime só ele já ganha o salário do mês todo. Ele disse: ‘Eu não era ladrão, não, trabalhava como operário da construção civil. Só que veio a crise do setor, não fechava as contas, eu não conseguia sustentar minha família com um salário mínimo.’ O que ele fez? Entrou para o crime.”

A crise é apontada como um fator para o cresciment­o da criminalid­ade não só porque 4.479 4.576 2016 jan-out. 2017 225 242 2016 jan-nov. 2017 21 Arma branca 28 Outros tipos pessoas perderam o emprego, mas porque o Estado tem menos recursos para combater a violência.

Além disso, a cultura local favorece o aumento das mortes, segundo a advogada Pollyanna Queiroz, professora da Unifavip (universida­de local) e que já trabalhou na Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Estado.

Com base nos mais de 200 tribunais do júri em que já atuou, Pollyanna aponta “três coisas” para se matar em Pernambuco: dinheiro, mulher e cachaça. Para ela, o crime lá está “muito ligado à cultura patriarcal, machista, de Lampião, que ainda é muito arraigada” no interior.

E cita como exemplo a vez em que advogou para um idoso que disse no julgamento não se arrepender, mesmo após dois anos preso, dos mais de 300 golpes de foice que deu em um vizinho que lhe dera dois tapas na cara.

“Um cidadão agricultor, que nunca cometeu um crime na vida”, conta ela sobre o homem que ainda foi inocentado do homicídio.

A advogada, que deixou de andar a pé na cidade por medo da violência, destaca ainda a baixa organizaçã­o dos grupos criminosos locais, que matam muito por cobrança de pequenas dívidas e por disputa de pontos de venda de droga.

Para reverter o cenário, diz, é preciso valorizar o trabalho da polícia —“porque não dá para imaginar segurança pública sem política repressiva”. Segundo ela, também é preciso investir em prevenção. Não só em educação, afirma, o que trará resultado a longo prazo, mas em medidas com impacto imediato, como o acolhiment­o de egressos do sistema prisional, propõe ela.

Na visão do coronel Luís Aureliano, secretário de Ordem Pública de Caruaru e excomandan­te da PM-PE, “o Brasil enfrentou a mortalidad­e infantil” nas últimas décadas. Agora “precisa enfrentar a mortalidad­e juvenil”. PACTO Os carros da polícia pernambuca­na trazem todos um adesivo escrito “Pacto pela Vida”, em referência ao programa de redução de homicídios que virou exemplo ao fazer o número de mortes no Estado baixar 26% de 2004 a 2013 — de lá para cá, aumentou 44%.

Nas palavras do sociólogo José Luiz Ratton, um dos mentores do Pacto, o foco inicial do programa —de investigaç­ão de homicídios e distribuiç­ão da PM em áreas vulnerávei­s— foi desmantela­do e o governo deixou de combater homicídios para tentar controlar o mercado de drogas, “o que nenhum Estado consegue fazer em nenhum lugar do mundo”.

Ratton ainda acusa o governo de ter “cedido a um apelo populista, ultraencar­cerador e focado nas drogas, e perdeu-se uma política bem sucedida, que estava focada na garantia da vida”, diz.

Ele cita ainda a operação padrão de PMs do fim do ano passado até meados deste ano, em que os agentes reivindica­vam reajuste salarial.

Enquanto isso, o assistente social Felipe Sales vê seus amigos indo embora. Mas ele diz que evita os enterros. “Não gosto de ir, mas posso dizer quantas ausências eu sinto”, afirma ele, que ainda solta um “vixe” e, após alguns segundos fazendo as contas, dispara: viu morrer nove amigos próximos de infância. (THIAGO AMÂNCIO E AVENER PRADO)

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