Folha de S.Paulo

Ções anônimas ligam páginas na Wikipédia relacionad­as ao prêmio e a Antônio Salvador, pseudônimo de Pereira.

- MAURÍCIO MEIRELES

COLUNISTA DA FOLHA

Uma série de evidências liga um escritor brasileiro radicado na Alemanha ao Babel Book Award, prêmio literário falso que tem causado preocupaçã­o em escritores desde a semana passada.

O autor é Julio Cesar Pereira, que assina com o pseudônimo Antônio Salvador. Procurado pela Folha, ele afirma ser o troféu verdadeiro, diz que encontrou cinco pessoas da organizaçã­o em Roma, aí incluso um jurado brasileiro, e que não responde sobre certas evidências por questões profission­ais e pessoais.

O Babel Book Award diz em sua página estar na terceira edição e, a cada ano, escolher uma língua homenagead­a —neste ano, seria o português. O falso troféu pede que escritores enviem inéditos.

Além de ser estranho um prêmio de € 200 mil (R$ 802 mil) ter na consultori­a um autor de menor expressão, as evidências indicam uma atuação de Pereira nos bastidores que não é típica de um consultor.

O valor já chama a atenção para os padrões alemães —o prêmio de livro do ano, entregue na Feira de Frankfurt, o principal do país, paga € 25 mil (R$ 100 mil) a seus ganhadores.

Além disso, empresas e instituiçõ­es listadas no site como “parceiras e patrocinad­oras” não têm relação com o prêmio.

A Toniic, consultori­a americana de investimen­tos, disse à Folha não saber por que sua logomarca está no site. A Fundação Pro-Helvetia, na Suíça, diz que o prêmio é falso e já pediu tirarem seu logo.

Também não há qualquer referência à Fundação Weltsprach­en, promotora do Babel Book Award, em fontes não relacionad­as ao prêmio.

O CONSULTOR

Julio Cesar Pereira, que assina sob o pseudônimo Antônio Salvador, diz ter sido contratado como consultor do Babel Book Award, mas teve uma atuação de bastidores incomum para a função. Ele é autor de um romance que foi finalista do Prêmio São Paulo, em 2013, e tem um original por publicar, que não encontrou editora

“Nunca ouvi falar da Stiftung Weltsprach­en”, diz o escritor e tradutor Marcelo Backes, conselheir­o de várias fundações germânicas, apontando erros no alemão da página bilíngue.“‘Vorschrift des Preises’ é inventado. Não se diz ‘regulament­o’ assim.”

Além disso, a foto que seria do curador, Andreas A. Fiedler, é de um jornalista russo. Há um curador e crítico de arte chamado Andreas Fiedler, diretor do KINDL - Centro de Arte Contemporâ­nea, em Berlim; mas ele tampouco tem relação com o Babel.

“Ele não está envolvido de com o prêmio. Pelo que noto, a biografia do curador no site é uma fraude”, diz Denhart Harling, assistente de Fiedler.

Foi o próprio Pereira a levantar a suspeita sobre si, ao dizer nas redes que o prêmio era real e que seria seu consultor. Em entrevista à Folha na terça (6), Pereira reafirmou o que havia dito, mas não quis passar contatos ou nomes das pessoas da suposta fundação.

Também disse que o Babel já havia falado com a CPLP (Comunidade dos Países da Língua Portuguesa) para marcar a cerimônia de entrega. A CLPL confirma ter recebido a mensagem, mas diz que foi um contato inicial e não há nada confirmado. A instituiçã­o não conhece o prêmio.

Registros de IP (internet protocol, identifica­ção virtual na rede) deixados por edi- MESMO ENDEREÇO Uma menção ao prêmio no verbete em inglês do escritor indiano Hasan Azizul Huq, que teria sido agraciado com o Babel em 2017, já deletada, gerou um registro que conduz a um prédio comercial na r. do Paraíso, 148, em São Paulo.

É o mesmo endereço indicado pelo IP de um pedido para que o verbete do prêmio em português fosse tirado do ar e por um terceiro IP, registrado numa edição do verbete Antônio Salvador, criado às vésperas do site do Babel.

O escritor, que supostamen­te vive em Berlim, diz não vir ao Brasil há meses.

Há mais. César Mutter, suposto membro da organizaçã­o que encomendou o site do troféu, feito e hospedado no Brasil, tem nome de usuário juliobarro­sfilho no Skype. Advogado de formação, Julio Cesar Pereira trabalhou no escritório Barros Filho em São Paulo.

César Mutter, aliás, parece derivar de Mutter Caesars, expressão em alemão que se refere a Aurélia Cotta, mãe do general romano Júlio César.

O escritor admite sua ligação com o nome de usuário, dizendo que não o usa mais.

“Se uma pessoa usar o seu usuário, o seu Skype, um Skype eventual que você tenha tido... Eu não vejo isso como algo relevante. Isso talvez tenha a ver com uma questão da minha vida pessoal que eu não queira falar. Agora, eu não uso esse endereço há muito tempo. Agora, a pessoa que estava executando o site [o César Mutter], sim, eu conheço”, diz Pereira.

Questionad­o se não acha estranho alguém utilizar seu nome de usuário, ele respondeu: “Você permitiu? Não [é estranho então]. Isso é uma questão operaciona­l. É uma questão pessoal que eu não gostaria nem que fosse comentado, é uma questão de briga...”

Há mais um aspecto, contudo: o comprovant­e bancário do pagamento pelo site está MESMO ADVOGADO Um último fato reforça a ligação de Pereira com o Babel.

A suspeita sobre o troféu corria à boca pequena havia dias, quando Paulo Werneck, editor da Quatro Cinco Um, soube das suspeitas e pediu que nenhum autor se inscrevess­e até que tudo fosse esclarecid­o. Werneck publicara um anúncio do Babel na edição deste mês da revista literária.

O advogado Tiago Farneti chegou a entrar em contato com ele dizendo representa­r Claudia Müller, diretora-executiva do Babel. Farneti, que é advogado trabalhist­a, já represento­u Julio Cesar Pereira em uma ação em 2014.

Claudia Müller é quem responde aos que escrevem ao e-mail de contato no site do Babel. A Folha trocou mensagens com ela nos últimos dias, nas quais ela afirmava a idoneidade do prêmio — nesta quinta (8), escreveu que estava disponível para uma entrevista em um dia e horário da próxima semana.

Já César Mutter, no Skype, nunca respondeu às tentativas de contato. Julio Cesar Pereira, por sua vez, reafirma que as pessoas do prêmio existem e a fundação também.

“Eu teria que emitir um parecer depois das inscrições. Agora, com essa questão, estou muito inclinado a dar um parecer consideran­do a possibilid­ade de eliminar a candidatur­a do Brasil. Isso significar­ia que o Brasil seria o único país excluído do prêmio.”

Para Pereira, o fato de não se conseguir contato com ninguém do Babel se deve à perda de importânci­a do Brasil no cenário internacio­nal.

“O Brasil perde credibilid­ade. Se alguém liga para uma pessoa de hierarquia mais elevada... Nem o Temer conseguiri­a falar. Ele teria que marcar horário.”

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