Folha de S.Paulo

Antigo local de teste nuclear na Austrália é destino improvável

Maralinga, aldeia aborígene fantasma no sul do país, recebe turistas após operação para descontami­nar a área

- BEN STUBBS

Guia leva visitantes a poços de resíduos químicos e a crateras deixadaspo­rbombas detonadash­á60anos

Maralinga, uma região de terra árida no remoto deserto oeste da Austrália do Sul, é o único dos antigos locais de testes nucleares no país aberto a turistas. E Robin Matthews é o único guia de turismo nuclear da Austrália.

Os visitantes que chegam a Maralinga, um antigo complexo militar de cerca de 60 quilômetro­s quadrados, talvez imaginem que seu guia os receberá vestido com um macacão de plástico amarelo e uma máscara de proteção; e se for esse o caso, ficarão desapontad­os.

Matthews, 65, usa um boné com a aba voltada para baixo sobre os olhos, e um cigarro pende de seus lábios ra- chados pelo calor. Sua pele, muito bronzeada, está recoberta por toda uma narrativa de tatuagens desbotadas, feitas muito antes que isso tivesse se tornado moda.

“Sim, ainda existe radiação por aqui”, disse Matthews, dirigindo o furgão que nos conduziria aos locais em que os governos da Austrália e do Reino Unido detonaram sete bombas nucleares, entre 1956 e 1963; as bombas deixaram imensas crateras, e envenenara­m dezenas dos moradores aborígenes da área e seus descendent­es.

Na época, o governo posicionou centenas de pessoas para servir como ratos de laboratóri­o humanos. Vestindo apenas calções e meias compridas, elas foram colocadas no limite da área de teste. Os efeitos das grandes doses de radiação foram devastador­es.

Hoje, após operação multimilio­nária de limpeza, a radiação oferece pouco risco aos turistas, disse Matthews, a não ser que eles decidam “comer punhados de areia”.

Maralinga, que significa “trovão” no idioma garik, uma linguagem aborígene que se extinguiu, não se parece em nada com um local de turismo comum. É uma região quente e árida e de difícil acesso —fica 1.100 quilômetro­s a oeste de Adelaide [a capital da Austrália do Sul].

Desde que as excursões começaram, em 2016, há dois voos por semana para a aldeia, saindo de Ceduna, a cidade “grande” mais próxima —cuja população é de menos de 3.000 pessoas.

Mas o povo tjarutja, que vive na região de Maralinga, pretende expandir o número de visitantes neste ano.

A Maralinga Tjarutja Administra­tion, que controla o local, vai aumentar o número de voos regulares para a área, expandir as excursões para três dias e trabalhar com o governo da Austrália do Sul em um plano de negócios para atrair mais visitantes, disse Sharon Yendall, a gerente geral da organizaçã­o. CIDADE FANTASMA Apenas quatro pessoas vivem em tempo integral atualmente na aldeia de Maralinga, uma cidade fantasma. Em meio às velhas edificaçõe­s, ficam alojamento­s novos construído­s para os turistas, com água quente e wi-fi.

Nos anos 50 e 60, auge da Guerra Fria, o complexo era ocupado por 35 mil militares. Havia uma pista de pouso permanente, na época a mais longa do hemisfério Sul, estradas, uma piscina, acomodaçõe­s e acesso ferroviári­o.

O primeiro teste nuclear foi conduzido em setembro de 1956, dois meses antes da 3 Olimpíada de Melbourne. A explosão —tão poderosa quanto a da bomba lançada pelos Estados Unidos contra Hiroshima, no Japão— foi a primeira das sete detonações nucleares que acontecera­m na região de Maralinga.

Mas eram os testes ditos “menores” que causavam mais medo. Executados em segredo, eles examinavam de que maneira substância­s tóxicas como o urânio e o plutônio 239 reagiam quando explodidas ou queimadas. Para garantir a segurança dos turistas na área, ela foi limpa por cientistas especializ­ados em radiação, ao custo de US$ 77 milhões (R$ 262 milhões).

Em uma das áreas que os turistas podem visitar há 22 poços que abrigam resíduos nucleares, cada qual com pelo menos 15 metros de profundida­de e revestido de concreto reforçado, para impedir que radiação escape.

O local parece um jardim recentemen­te aparado, se estendendo por centenas de metros em um círculo quase perfeito. Espalhados pela areia vermelha do deserto há estilhaços metálicos.

Excetuados alguns camelos selvagens que circulam na área, o silêncio e a ausência de movimento predominam.

Em 4 de outubro de 1956, uma “mina nuclear” foi detonada aqui, criando uma cratera de 42 metros de circunferê­ncia e 21 metros de profundida­de. A reação atômica resultante demorou só uma fração de segundo, mas seus efeitos sobre uma família local durariam décadas.

No começo de 1957, Edie Millpuddie e sua família atravessav­am as planícies do Grande Deserto de Victoria, quando precisaram de um alojamento para a noite. “Encontrara­m um grande buraco no qual a terra ainda estava quente”, disse Matthews.

“Eles beberam água da chuva, que encontrara­m lá no fundo, e acenderam uma fogueira. Todos os coelhos da área pareciam desorienta­dos, e por isso encontrar algo para jantar foi bem simples; e depois a família se acomodou na cratera para dormir.”

Duas semanas depois, Edie

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