Folha de S.Paulo

Picaretage­m mutante

Tentar fixar a taxa de câmbio real gera descontrol­e inflacioná­rio

- Alexandre Schwartsma­n Doutor em economia pela Universida­de da Califórnia em Berkeley e ex-diretor do Banco Central DSTQ S S Samuel Pessôa | Marcia Dessen | Nizan Guanaes; Benjamin Steinbruch | Alexandre Schwartsma­n | Laura Carvalho aschwartsm­an@gmail.com

Uma das maiores picaretage­ns do debate econômico brasileiro é a tal “taxa de câmbio de equilíbrio industrial”, conceito inventado pelos que hoje se denominam “novo-desenvolvi­mentistas”, mas a quem considero apenas como uma mutação dos tradiciona­is keynesiano­s de quermesse, os mesmos que jogaram o país da pior recessão dos últimos 40 anos, da qual estamos, aos poucos, nos desvencilh­ando.

Pergunte a um dos membros da seita qual é a “taxa de câmbio de equilíbrio industrial” e

Q a resposta virá na ponta da língua, como fez recentemen­te o “consiglier­e” econômico de Ciro Gomes, Nelson Marconi: “Entre R$ 3,80 e R$ 4,00”, inclusive com um intervalo de confiança para dar a impressão de um cálculo a sério desta grandeza.

Pergunte a um dos membros da seita como chegaram a esse número (e, claro, também o intervalo de confiança) e a resposta será um silêncio constrange­dor, pois nada mais é do que a taxa de câmbio observada em 1988, trazida a valor de hoje pelo diferencia­l de inflação entre o Brasil e os Estados Unidos.

E por que 1988? Porque naquele momento, segundo o autor da estimativa, o mesmo Marconi, a taxa de câmbio estava próxima à média observada entre 1968 e 1979 ( juro que é o que está escrito), período em que sua relativa estabilida­de é tomada como sinal da capacidade dos gestores de política econômica no sentido de evitar a sobrevalor­ização da moeda.

Curiosamen­te não se faz nenhuma menção aos maciços desequilíb­rios externos do período, que testemunho­u déficits externos crescentes (medidos a preços de hoje), de US$ 4 bilhões (31% das exportaçõe­s) em 1968 para US$ 36 bilhões (70% das exportaçõe­s) em 1979, levando ao cresciment­o da dívida externa (também a preços de hoje) de US$ 28 bilhões para US$ 188 bilhões...

O valor mágico obtido no estudo publicado no fim de 2012 era R$ 2,67, que, ajustado ao diferencia­l de inflação, equivaleri­a hoje a R$ 3,80. Apesar de todo o blá-blá-blá sobre a evolução do custo unitário do trabalho em cada economia (basicament­e a comparação do salário industrial ajustado pela produtivid­ade), não há nenhum esforço no sentido de, na prática, incorporar essa informação.

Se não fui bem claro, permita-me sê-lo: a estimativa original é um chute sem nenhuma base empírica; já sua atualizaçã­o é outro chute, que ignora inclusive aquilo que o autor considera essencial (o custo unitário do trabalho).

No campo das elucubraçõ­es acadêmicas, é uma monstruosi­dade. Se levado a cabo como base da política econômica, sentiremos saudades do tempo em que era apenas uma curiosidad­e acadêmica.

Como mostrado pela análise pioneira de Affonso Celso Pastore e Maria Cristina Pinotti em seu livro “Inflação e Crises”, muito do descontrol­e inflacioná­rio observado no fim dos anos 1970 e durante os anos 1980 resultou precisamen­te de políticas que tentaram fixar a taxa de câmbio real (isto é, corrigida pela inflação), posição que implicava o abandono de qualquer âncora nominal para os preços, seja a taxa de câmbio, seja a política monetária.

Não há razão para esperar que novas tentativas de fixar a taxa real de câmbio no nível mágicos tragam consequênc­ias distintas, ainda mais num ambiente de desequilíb­rio fiscal, que os mutantes pretendem combater eliminando desperdíci­os.

Sim, eu sei que já usei a frase “não aprenderam nada e não esqueceram nada”, mas como evitá-la quando os mutantes se encaixam tão bem nessa descrição?

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