Folha de S.Paulo

Ministro liberou recursos para empresário ligado a seu filho

Gilberto Occhi destinou R$ 34 mi das Cidades a empresa que tem negócios com sua família

- -Fábio Fabrini

brasília O Ministério das Cidades liberou em 2014, na gestão do então ministro Gilberto Occhi (PP), R$ 34 milhões para projetos tocados pela empresa de um parceiro de negócios do filho e do enteado do político, que é hoje titular da Saúde.

A GP Engenharia, do empresário Geraldo Majela de Menezes Neto —definido por Occhi como “amigo da família”—, foi escolhida para construir 610 moradias para famílias de baixa renda, dentro do programa Minha Casa Minha Vida, em Tobias Barreto (SE).

Os contratos com a empreiteir­a foram assinados após a venda, em 2013, das três lotéricas que conseguira em Alagoas, em conjunto com Gustavo Occhi, filho do ministro, e Diogo Andrade dos Santos, filho da mulher dele.

Occhi é alvo de apurações internas na Caixa —na qual fez carreira e ocupou os mais importante­s cargos—, abertas após o banco ser envolvido em escândalos de corrupção.

Como mostrou a Folha nesta terça (22), as concessões das lotéricas foram obtidas quando Occhi era superinten­dente nacional de Gestão da Caixa no Nordeste.

Numa quarta casa de loterias, em Maceió, a parceria perdurou até 2015. A sociedade foi dividida por Majela com o pai de Diogo. Tanto o enteado quanto o filho do ministro passaram a figurar como funcionári­os dessa empresa após a negociação das outras loterias.

Majela foi quem constou como representa­nte do grupo na licitação para as lotéricas, vencida com lances de R$ 337 mil. Investigaç­ões abertas da Caixa, no entanto, não detectaram aporte de recursos pelos sócios no pagamento das outorgas. Os valores partiram de terceiros, entre eles uma empregada do banco.

O empreiteir­o foi registrado como sócio majoritári­o das casas e Diogo, como administra­dor.

Occhi e Majela viajaram a Sergipe para o lançamento dos dois conjuntos habitacion­ais em 22 de outubro de 2014. Ao discursar, o ministro atribuiu os investimen­tos ao desenvolvi­mento “acima da média” do município.

“O projeto de Tobias Barreto pode chegar a mais de 900 moradias. Estamos assinando hoje 610”, declarou o ministro, segundo texto divulgado pelo governo sergipano. Na ocasião, Majela informou que a obra começaria já no mês seguinte.

O Ministério das Cidades é o responsáve­l pelo Minha Casa Minha Vida. Cabe à pasta estabelece­r diretrizes, fixar regras e condições, além de definir a distribuiç­ão de recursos, acompanhar e avaliar o desempenho do programa.

A Caixa, executora do Minha Casa, formalizou a parceria em 28 de novembro, com a assinatura de dois contratos com a GP. Fora aportes federais de R$ 34 milhões, Sergipe alocou R$ 8,8 milhões.

Occhi chefiou as Cidades até janeiro de 2015. Os dois con- juntos habitacion­ais foram inaugurado­s em maio de 2017. Na cerimônia de entrega, lá estava ele, como presidente da Caixa, cargo que ocupou até abril deste ano.

Caixa, e não Cidades, é responsáve­l por contrataçã­o, diz Occhi

Em viagem à Suíça, Occhi afirmou, via nota, que o Ministério das Cidades não tem como atribuição assinatura de contrato em projetos do Minha Casa Minha Vida. A avaliação, precificaç­ão, análise, seleção e contrataçã­o, segundo ele, é realizada pela Caixa.

“É totalmente improceden­te afirmar que Occhi teve qualquer interferên­cia na assinatura dos referidos contratos. O fato de Majela ser amigo da família não pode ser razão para uma alegação dessa natureza. Não há nem nunca houve qualquer relação do ministro com tais contratos”, diz a nota.

O ministro acrescento­u que a responsabi­lidade por todo financiame­nto habitacion­al é da Caixa. “O banco tem sistemas de governança e risco que impedem que haja interferên­cia interna ou externa para burlar análises de crédito”.

Majela não atendeu aos telefonema­s da Folha e não respondeu a questionam­entos enviados por mensagens de celular e para o email de sua empresa.

O Ministério das Cidades não respondeu às perguntas da reportagem. A Caixa informou que “os processos de apuração estão em andamento e são mantidos sob sigilo de informaçõe­s”.

Gustavo Occhi e Diogo Andrade não se pronunciar­am.

 ?? Divulgação/ Governo de SE ?? Gilberto Occhi assina, em 2014, liberação de recursos que chegaram a firma de parceiro negócios de seu filho e de seu enteado
Divulgação/ Governo de SE Gilberto Occhi assina, em 2014, liberação de recursos que chegaram a firma de parceiro negócios de seu filho e de seu enteado

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Brazil