Folha de S.Paulo

As mulheres e a filosofia

- Hélio Schwartsma­n helio@uol.com.br

São Paulo “Se uma mulher tem inclinaÁõe­s acadêmicas, normalment­e é porque há algo de errado com a sexualidad­e dela”. Horrível? Nietzsche.

Hegel tenta ser mais generoso: “Mulheres são capazes de educar-se, mas elas não são feitas para atividades que exijam uma faculdade universal, como as ciências mais avanÁadas, a filosofia e algumas formas de produÁão artística... Mulheres regulam suas aÁões não pelas exigências da universali­dade, mas por inclinaÁõe­s e opiniões arbitrária­s”.

E tanto Nietzsche quanto Hegel são misóginos amadores perto de Schopenhau­er, que escreveu um pequeno ensaio cujo objetivo principal é enxovalhar o outrora chamado sexo frágil. Ali ele afirma que a “mulher é por natureza feita para obedecer”. Mesmo nos raros momentos em que tenta demonstrar simpatia, o resultado é duvidoso: “Mulheres são naturalmen­te dotadas para atuar como enfermeira­s e professora­s de nossa primeira infância, pelo fato de que são elas próprias infantis, frívolas e míopes”.

O problema é com os alemães, dirá a leitora. Não. “No que diz respeito aos sexos, o macho é por natureza superior, e a fêmea, inferior, o macho, soberano, e a fêmea, súdita”. Essa é do helênico Aristótele­s, que também descreve as mulheres como “machos deformados”.

Faltaram autores de esquerda, reclamará a inconforma­da leitora. Bem, Rousseau, que é o pai espiritual da esquerda, escreveu: “Sempre justifique as limitaÁões que você impõe às meninas, mas não deixe de impô-las”.

Mulheres estão absolutame­nte certas em exigir a plena igualdade de direitos e em denunciar os abusos de que ainda são vítimas. Receio, porém, que avancem o sinal quando cobram de autores, inclusive os do passado, uma espécie de atestado de bom comportame­nto em relaÁão ao gênero feminino. Fazê-lo é ignorar que as pessoas são prisioneir­as de seu tempo e levaria ao banimento quase total da filosofia e da literatura.

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Brazil