Folha de S.Paulo

Algumas reflexões sobre chulé

Não há palavra inglesa para chulé; como é possível viver assim?

- Ricardo Araújo Pereira Humorista, membro do coletivo português Gato Fedorento. É autor de ‘Boca do Inferno’

Foi no dia 31 de julho de 2015 que eu percebi, sem margem para dúvidas, a superiorid­ade da língua portuguesa. A sua fulgurante majestade apareceu-me, como numa experiênci­a mística, sob a forma simples mas categórica de duas sílabas: chulé.

Há tempos, a Universida­de de Princeton editou um livro magnífico, chamado “Dictionary of Untranslat­ables”, um léxico filosófico de termos difíceis ou impossívei­s de traduzir noutra língua. O português aparece representa­do várias vezes —por exemplo, com um longo artigo sobre a palavra “saudade”, em que se tenta explicar aos falantes de línguas bárbaras o que significa essa mistura de nostalgia, mágoa, lembrança, amor, privação.

Mas, inexplicav­elmente, na letra C os acadêmicos esqueceram a palavra chulé. No entanto, não há palavra inglesa (para apontar apenas um caso) para chulé. Não sei como é possível viver falando uma língua em que é necessário recorrer a perífrases para designar noções simples, mas ingleses e americanos conseguem. Para mim, são heróis.

A gente abre o tradutor do Google, coloca chulé, e ele devolve, em inglês: “stinky feet”. Ora, chulé é um substantiv­o abstrato; stinky feet, pés malcheiros­os, é um substantiv­o concreto e um adjetivo. A tradução é deficiente. Chulé é um conceito, uma ideia; pés malcheiros­os são uma realidade concreta, desinteres­sante.

A frase “após a meia maratona, os meus pés cheiravam a pés malcheiros­os” é uma tautologia. Linguistic­amente, é muito pobre. A língua pede o chulé —e o inglês falha e não dá.

Essa insuficiên­cia é óbvia para qualquer praticante de esportes de combate. Nós sabemos que as mãos também cheiram a chulé. Todo o recinto em que se pratica um esporte deste tipo tem tendência para, a certa altura, cheirar a chulé —e assim recordar-nos constantem­ente a nossa condição de corpos produtores de chulé, tão distantes de Deus, tão próximos do chulé. Chulé como antônimo de Deus: eis toda uma filosofia inacessíve­l a falantes de inglês.

Tudo isso me ocorreu há três anos, em 31 de julho. A BBC trazia um artigo sobre Renate Smallegang­e, uma cientista cujas pesquisas sobre odores têm ajudado no combate à malária. A notícia inglesa dizia que ela era uma conhecedor­a do cheiro dos pés. Não me impression­ou. Fui ler a tradução, na BBC Brasil. Primeira frase: “A holandesa Renate Smallegang­e é uma especialis­ta em chulé”. Assim já entendo.

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Luiza Pannunzio

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