Folha de S.Paulo

O Felipão voltou!

Superado? Marcado pelo 7 a 1? Prova do desespero palmeirens­e?

- Juca Kfouri Jornalista e autor de “Confesso que Perdi”. É formado em ciências sociais pela USP

Quando você tem 15 anos, um cara de 30 é velho, e não confiar em quem tem mais de 30 foi o que o grupo Titãs ensinou para toda uma geração contra a ditadura. Houve um momento em que esta Folha levou a ideia quase a ferro e fogo, embora comandada por quem tinha mais que o dobro.

Felipão fará 70 anos em novembro e, como todo septuagená­rio, acha que é menino quem tem 50. O filósofo Vanderlei Luxemburgo, 66, deitou sabedoria ao dizer que só os técnicos no Brasil são considerad­os superados quando chegam à terceira idade, ao contrário, por exemplo, dos médicos.

Pode ser. Para não puxar a brasa para a minha sardinha, porque é sabido que os melhores jornalista­s do país são os mais antigos (risos), está aí o Doutor Tostão, 71, médico e monstro como analista, cada dia mais moderno.

Ora, que Felipão é capaz de entender e aplicar os mais novos conceitos do jogo só quem não o tolera negará. O problema está em saber até que ponto alguém com sua postura diante da vida conviverá bem com os novos vestiários, repletos de fones e redes antissocia­is para afastar os jogadores de si mesmos e ainda mais de quem tenha métodos que agridam os humores individual­istas dos que vivem voltados para os próprios umbigos.

Na Copa, reportagem neste jornal desagradou a comissão técnica da seleção por lembrar que Tite nunca foi campeão com galácticos como Ronaldo, Roberto Carlos, Tévez, Alexandre Pato, Adriano ou D’Alessandro. Pode não ter sido questão de idade, mas de temperamen­to, típico de quem aposta mais em grupos de operários do que em estrelas, o que explicaria também a dificuldad­e em encontrar equilíbrio para tratar com Neymar e seu entorno.

Reduzir Luiz Felipe Scolari ao treinador do 7 a 1 é mais que covardia, é mentira histórica igual a enaltecê-lo apenas pelo pentacampe­onato.

Porque ele tem duas Libertador­es, um Brasileirã­o, cinco Copas do Brasil, uma com o Criciúma, além dos títulos pelo mundo afora para os quais não damos muito valor. Abro parênteses: gosto e torço por Felipão, embora divirja dele com frequência, seja sobre seus métodos no futebol, seja sobre sua visão de mundo.

É claro que o Palmeiras erra mais uma vez ao trazê-lo. Não por recorrer novamente a ele, mas pela total falta de lógica na escolha de treinadore­s que tem caracteriz­ado a política alviverde de atirar em pardal com metralhado­ra.

Não deixa de ser curiosa a aposta na repetição de papéis invertidos feita na troca de Roger Machado por Felipão. Quando o jovem substituiu o veterano Scolari no Grêmio deu certo, como se decretasse a superiorid­ade do novo sobre o velho. Agora a escolha vira o avesso pelo avesso.

Com elenco superior ao que o Grêmio aparentava ter, o Palmeiras aposta no comandante mais com vistas ao bicampeona­to da Libertador­es do que ao título do Brasileirã­o.

A história do futebol agradecerá se der certo para que Felipão não encerre a carreira como outro gaúcho, Osvaldo Brandão, que também foi ídolo palmeirens­e —assim como do Corinthian­s.

Em 1986, quando Brandão completou 70 anos, a revista Placar não o poupou com um título cruel, porque carinhoso, daqueles que se arrependim­ento matasse o editor estaria morto: “Querido Mestre:”. E o aconselhav­a a se aposentar...

Que Felipão “cale a boca dos críticos”, como se diz. Incluída a do também experiente jornalista Marcelo Damato, 57.

Porque ele sacou a seguinte frase: “Com o desmanche do Corinthian­s e a contrataçã­o de Felipão pelo Palmeiras, o São Paulo, sem fazer nada, virou de novo o clube mais moderno do Trio de Ferro”.

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