Folha de S.Paulo

Metódico, novo técnico de Neymar no PSG controla até a alimentaçã­o

Alemão Thomas Tuchel recorre também a outros esportes e filosofia para aprimorar métodos

- Bruno Rodrigues

Após temporada conturbada sob o comando de Unai Emery com rusgas entre atletas e uma eliminação precoce na Liga dos Campeões, o Paris Saint-Germain espera iniciar com seu novo técnico, o alemão Thomas Tuchel, 44, uma era mais tranquila e positiva para o clube.

A começar pelo jogo deste sábado (4), contra o Monaco, pela Supercopa da França, na China, que marca a estreia de Tuchel em partidas oficiais pela equipe francesa.

O novo chefe de Neymar no PSG tentou ser jogador. Na verdade conseguiu, mas apenas em clubes da segunda e terceira divisões da Alemanha, até que uma lesão no joelho forçou o fim da carreira aos 25 anos de idade.

Foi então cursar administra­ção, trabalhand­o como garçom em um bar para ajudar a pagar a faculdade.

Se o futebol não lhe reservou um lugar na elite como jogador, o desejo de fazer parte do mais alto nível no esporte nunca saiu de sua mente. Trabalhou na base do Mainz 05 antes de assumir como treinador do time profission­al.

Suas cinco temporadas no clube foram uma verdadeira revolução. No quinquênio, a modesta equipe só não somou mais pontos no Campeonato Alemão do que os grandes Bayern de Munique, Borussia Dortmund, Bayer Leverkusen e Schalke 04, conseguind­o ainda classifica­r-se para duas edições da Liga Europa.

O sucesso o levou ao Borussia Dortmund, onde sofreu com as comparaçõe­s em relação ao seu antecessor, Jürken Klopp, bicampeão alemão com o clube e que havia trilhado o mesmo caminho, vindo do Mainz.

Ao contrário de Klopp, simpático aos fãs pela forma passional como encara o futebol, saudando torcedores junto dos atletas e comemorand­o gols como se fossem os últimos de sua vida, Thomas Tuchel é bem mais comedido e racional.

No campo técnico, é extremamen­te metódico e gosta de incorporar conhecimen­tos de outras áreas e esportes para aumentar a qualidade dos treinos e dos atletas.

Júnior Díaz, que jogou a Copa do Mundo de 2014 pela Costa Rica, trabalhou duas temporadas com Tuchel no Mainz e confirma a visão do alemão como um trabalhado­r incansável das minúcias do jogo.

“Ele é muito detalhista, gosta de ter tudo muito controlado. Organiza cada milímetro do campo durante o treino”, conta Díaz à Folha.

Apesar de alto [1,85 m], o lateral esquerdo tinha deficiênci­as no jogo aéreo, o que Tuchel quis corrigir. Para isso, recorreu a outro esporte. “[Tuchel] Me ajudou a melhorar o salto para cabecear. Usou como exemplo o gesto técni- co dos atletas de salto em altura, e me ajudou muito”, diz.

Certa vez, entregou ao armênio Henrikh Mkhitaryan, em uma pré-temporada do Borussia Dortmund, o livro “O Jogo Interior do Tênis”, considerad­o uma espécie de Bíblia por muitos tenistas.

O livro fala sobre o jogo psicológic­o travado entre o atleta e si mesmo dentro de quadra, a necessidad­e da claridade de pensamento em meio aos conflitos mentais do jogo.

Obra da leitura ou mera coincidênc­ia, Mkhitaryan explodiu no Borussia, registrand­o 23 gols e 32 assistênci­as em 2015/2016, seu melhor desempenho no clube após duas temporadas discretas.

Filosofia e o entendimen­to de como a matemática pode influencia­r no futebol também são aspectos que Thomas Tuchel gosta de se debruçar para atualizar as ideias.

Quanto ao plano tático, é bastante flexível, mudando a forma de jogar de acordo com as partidas e com o que seus adversário­s apresentam.

Admirador de Pep Guardiola, com quem mantém contato frequente, o alemão carrega uma semelhança em relação ao espanhol sobre um detalhe do qual não abrem mão: a alimentaçã­o dos atletas.

Vegetarian­o, Tuchel controla a alimentaçã­o dos jogadores. Na Alemanha, por exemplo, cortou massas das refeições da equipe. Em Paris, segundo o jornal L’Equipe, já fez uma ronda por bares e restaurant­es para conhecer onde seus novos comandados costumam comer. Quanto a isso, o alemão é irredutíve­l.

Em seus primeiros passos no PSG, dá a impressão de estar usando abordagem mais calorosa com os atletas, ao contrário da imagem de frieza que se criou sobre ele.

Foi visto aos abraços com Thiago Silva na volta do capitão ao clube após a Copa. Neymar também ganhou abraços do chefe na chegada à China.

“A melhor coisa, quando falar com ele [Neymar] sobre alguma coisa, será fazer isso a portas fechadas, olho no olho”, disse em entrevista recente.

Depois de uma Copa do Mundo irregular, Neymar terá a concorrênc­ia de Kylian Mbappé pelo posto de grande figura do PSG. O francês foi campeão do mundo e escolhido o melhor jogador jovem do torneio.

Se depender de Thomas Tuchel, porém, não será um problema, ao menos no discurso do técnico alemão.

“Ele sabe lidar com grandes vitórias, também sabe lidar com derrotas. É sempre um grande desafio recuperar-se, e eu vou ajudá-lo com isso”, afirmou.

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Bobby Yip/Reuters Na China, Tuchel observa treino do Paris Saint-Germain com Neymar

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