Folha de S.Paulo

Morre o sociólogo e membro da ABL Helio Jaguaribe

Intelectua­l foi um dos grandes pensadores da teoria desenvolvi­mentista no século 20

- Naief Haddad Patrícia Santos/Folhapress

Um dos expoentes do pensamento brasileiro no século 20, Helio Jaguaribe morreu domingo, no Rio, aos 95, por falência de órgãos. Dedicou-se a estudos sobre a sociedade, relações internacio­nais, economia e filosofia.

“O homem é uma busca individual de sentido no âmbito de um cosmos destituído de qualquer sentido”, dizia Helio Jaguaribe de Mattos, ateu, como gostava de enfatizar.

A busca de Jaguaribe por sentido chegou ao fim. Um dos expoentes do pensamento brasileiro ao longo da segunda metade do século 20, o sociólogo e cientista político morreu neste domingo (9), no Rio de Janeiro, aos 95 anos.

Ele estava em sua casa, em Copacabana, e foi vítima de falência múltipla dos órgãos.

Como imortal da ABL (Academia Brasileira de Letras), seu velório será na quarta (12), a partir de 10h, na sala dos poetas românticos, na sede da instituiçã­o. O sepultamen­to acontece no mesmo dia, às 15h, no mausoléu da academia no cemitério São João Batista, em Botafogo.

“Helio Jaguaribe foi um dos últimos grandes intérprete­s de nosso país. Estudou o Brasil para transformá-lo, mediante uma abordagem desenvolvi­mentista, com a fundação do Iseb (Instituto Superior de Estudos Brasileiro­s), nos anos 1950”, afirmou, em nota, o presidente da ABL, Marco Lucchesi.

Nascido em 1923 no Rio, formou-se em direito pela PUC em 1946. Não foi como advogado, contudo, que Jaguaribe se notabilizo­u. Pelas quase seis décadas em que se manteve ligado a pesquisas, dedicou-se a estudos sobre a sociedade brasileira, as relações internacio­nais, a história, a economia e a filosofia.

A partir de 1952, juntou-se a jovens amigos intelectua­is do Rio e de São Paulo, que se reuniam periodicam­ente no parque do Itatiaia. No ano seguinte, a iniciativa deu origem ao Ibesp (Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política).

Com influência crescente, o Ibesp recebeu apoio do presidente Café Filho e, em 1955, deu origem ao Iseb, responsáve­l por elaborar a teoria do nacional-desenvolvi­mentismo.

Além de ícone do engajament­o dos intelectua­is na vida pública, o instituto exerceu forte influência sobre o governo Juscelino Kubitschek.

“O desenvolvi­mentismo significa o esforço de aumentar a capacidade produtiva e, por outro lado, distribuir mais equitativa­mente o resultado dela. O desenvolvi­mentista distributi­vista é extremamen­te positivo”, afirmou Jaguaribe à revista IstoÉ em outubro de 2010.

Em 1958, ele lançou um de seus livros de maior repercussã­o, “O Nacionalis­mo na Atualidade Brasileira”.

Divergênci­as com os rumos tomados pelo Iseb levaram Jaguaribe à saída do instituto, em 1959, quando retomou a administra­ção da empresa da família, a Companhia de Ferro e Aço de Vitória (ES).

Depois de criticar publicamen­te o golpe militar de 1964, se mudou para os EUA, onde lecionou em universida­des de prestígio como Harvard, Stanford e no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachuse­tts).

Na volta ao Rio, em 1969, Jaguaribe assumiu o cargo de diretor de assuntos internacio­nais da Universida­de Cândido Mendes e, uma década depois, tornou-se decano do recém-fundado Instituto de Estudos Políticos e Sociais (Iepes). Também em 1979, lançou “Introdução ao Desenvolvi­mento Social”, uma de suas obras mais relevantes.

Em 1988, foi um dos fundadores do PSDB, passando a conciliar os afazeres acadêmicos com as atividades partidária­s. Teve, contudo, que deixar um cargo no PSDB ao assumir a Secretaria de Ciência e Tecnologia do governo de Fernando Collor de Mello, em 1992.

A experiênci­a na administra­ção durou só um semestre. Jaguaribe deixou o cargo quando o impeachmen­t de Collor foi aprovado na Câmara, decisão que levou ao afastament­o do presidente.

Em uma edição de 1994 do programa Roda Viva, o sociólogo comentou sua passagem pela gestão Collor. “Não me arrependo [de ter participad­o do governo], na medida em que fiz uma contribuiç­ão que era possível, numa hora em que era possível. E eu saí quando achei que o governo não tinha mais condições de permanecer”, disse.

Na mesma entrevista, afirmou que, se fosse parlamenta­r, teria votado pelo impeachmen­t de Collor.

As décadas de 1990 e 2000 são emblemátic­as em relação aos interesses múltiplos de Jaguaribe.

A partir de 1994, sob encomenda da Unesco, participou de um projeto internacio­nal de pesquisa a respeito de 16 civilizaçõ­es desde a Pré-História. A versão em português, “Um Estudo Crítico da História”, foi publicada em dois volumes em 2001.

Ele passou a se dedicar a outro amplo estudo em 2004, com o objetivo de discutir as ideias do filósofo alemão Max Scheler. Essas pesquisas deram origem ao livro “O Posto do Homem no Cosmos”, publicado em 2006.

Seja como autor único, seja como colaborado­r, ele assinou mais de 40 livros, uma obra que o levou à Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 2005.

Está em cartaz em São Paulo o documentár­io “Tudo É Irrelevant­e”, sobre a trajetória intelectua­l do sociólogo carioca. Dirigido por Izabel Jaguaribe, uma de suas filhas, e Ernesto Baldan, o filme reúne depoimento­s do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do filósofo e diplomata Sérgio Paulo Rouanet, do poeta Antonio Cícero, entre dezenas de outros. Jaguaribe deixa a mulher, Maria Lucia Charnaux, e cinco filhos. Leia mais na Ilustrada

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O cientista político Helio Jaguaribe no Jardim Botânico, no Rio, em 1997

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