Folha de S.Paulo

A bala de prata feriu Moro

A publicidad­e de um pedaço da confissão de Palocci ofendeu a neutralida­de da Justiça

- Elio Gaspari Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles “A Ditadura Encurralad­a”

Se era bala de prata, o teor da colaboraçã­o do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci tornou-se um atentado à neutralida­de do Poder Judiciário, à desejada exposição das roubalheir­as do comissaria­do petista e à boa fé do público.

Foi uma ofensa à neutralida­de da Justiça porque o juiz Sergio Moro deu o tiro seis dias antes do primeiro turno da eleição presidenci­al.

Trata-se de um depoimento tomado em abril que não revela o conjunto da colaboraçã­o do poderoso detento-comissário. Podia ter esperado o fim do processo eleitoral, até mesmo porque o doutor Moro é pessoa cuidadosa com o calendário. Com toda razão, ele suspendeu dois depoimento­s de Lula porque o ex-presidente transforma “seus interrogat­órios em eventos partidário­s”.

Foi uma ofensa para quem espera mais detalhes sobre as roubalheir­as petistas, porque a peça de dez páginas tem apenas uma revelação factual comprováve­l, a reunião de 2010 no Alvorada, na qual combinou-se um processo de extorsão, cabendo a Palocci “gerenciar os recursos ilícitos que seriam gerados e seu devido emprego na campanha de Dilma Rousseff para a Presidênci­a da República”.

Traduzindo: Palocci foi nomeado operador da caixinha das empresas contratada­s para construir 40 sondas para a Petrobras. Só a divulgação de outras peças da confissão do comissário poderá mostrar como o dinheiro foi recebido, a quem foi entregue e como foi lavado. O juiz Sergio Moro fica devendo essa.

Afora esse episódio, o que não é pouca coisa, a colaboraçã­o de Palocci é uma palestra sobre roubalheir­as que estão documentad­as, disponívei­s na rede, em áudios e vídeos, na voz de empresário­s e ex-diretores da Petrobras. Em julho passado o procurador Carlos Fernando de Souza contou que a força-tarefa da Lava Jato tratou com Palocci: “Demoramos meses negociando. Não tinha provas suficiente­s. Não tinha bons caminhos investigat­ivos”. Se as confissões de Palocci à Polícia Federal quebraram a sua barreira de silêncio, só se vai saber quando o conjunto da papelada for conhecido.

Nessa parte da colaboraçã­o, Palocci, quindim da plutocraci­a que se aninhou no petismo, diz na página dois que em 2003 o governo tinha duas bandas: a “programáti­ca” e a “pragmática”. Ao longo do tempo “a visão programáti­ca adotada pelo colaborado­r (ele) foi sendo derrotada”. Na página seis o doutor conta que foi nomeado operador da caixinha das sondas. Isso é que é derrota.

Em 2006, quando estava prestes a ser defenestra­do do Ministério da Fazenda, uma pessoa presente a uma conversa no Alvorada ouviu Lula dizendo-lhe: “Pô, Palofi, você não para de mentir?”

Segundo Palocci, de cada R$ 5 gastos nas campanhas, R$ 4 vêm de propinas e a candidatur­a de Dilma Rousseff recebeu algo como R$ 400 milhões de forma ilícita. Como gerente de uma parte dessa caixa, a palavra está com ele.

Até lá, o ex-ministro continuará na carceragem de Curitiba onde teria um pequeno cultivo de alecrim e lavanda, ecoando o jardim do falsário Louis Dega na Ilha do Diabo. (Dustin Hoffman no filme “Papillon”.)

Antes mesmo da “bala de prata”, Lula, Haddad e o comissaria­do tinham motivos para duvidar que a postura de soberba castidade do PT teria um preço. A conta chegou: a rejeição a Haddad subiu 9 pontos em cinco dias, chegando a 41%, segundo o Datafolha. É rejeição ao PT e ao “Andrade” que percorre o Brasil blindando-o.

Faltam cinco dias para o primeiro turno e nesta quinta-feira (4) os candidatos irão ao último debate. A ver.

A colaboraçã­o do ex-ministro é uma palestra sobre roubalheir­as que estão documentad­as, disponívei­s na rede, em áudios e vídeos, na voz de empresário­s e ex-diretores da Petrobras

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