Folha de S.Paulo

Italo Nogueira Em 2010, bolinha de papel marcou eleição

Tucano que disputava segundo turno com Dilma Rousseff foi atingido por objeto em caminhada

- Italo Nogueira Correspond­ente no Rio de Janeiro, cobriu a campanha eleitoral de 2010 pela Folha

Era a primeira eleição sem Luiz Inácio Lula da Silva na cédula desde a redemocrat­ização. Dilma Rousseff (PT), que ganhou do padrinho o apelido de “mãe do PAC” (em alusão ao Programa de Aceleração do Cresciment­o), amargava um segundo turno inesperado.

Mesmo com a alta popularida­de do então presidente Lula, cicerone de Dilma na campanha, a fatura não havia sido liquidada em 3 de outubro de 2010. Na análise de petistas, a culpa era da agenda moral imposta pelo tucano José Serra (PSDB), atribuindo à adversária a defesa do aborto.

Dilma defendera a legalizaçã­o da prática três anos antes, mas na campanha presidenci­al abandonou a bandeira. Não foi suficiente para conter a fuga de eleitores evangélico­s na reta final do primeiro turno. Ela teve 47% dos votos válidos.

Também afetavam a campanha do PT fantasmas de eleições passadas: acusações de produção de dossiês contra adversário­s e de corrupção envolvendo aliados próximos de seu presidenci­ável.

Ainda assim, Dilma se mantinha na frente nas pesquisas de intenção de voto, sem esboço de reação do tucano.

No dia 20 de outubro, a dez dias do segundo turno, a Folha estampava a manchete: “PF liga quebra de sigilo fiscal de tucano à pré-campanha de Dilma”. Logo abaixo, a segunda chamada principal indicava: “Sindicânci­a aponta novos elos do caso Erenice [Guerra] na Presidênci­a”, sobre a suspeita de tráfico de influência da braço direito de Dilma quando esteve na Casa Civil.

Fui, naquele dia, escalado para acompanhar Serra em uma caminhada no calçadão de Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro.

Antes da chegada de Serra, integrante­s de um sindicato, incluindo um candidato derrotado do PT a deputado, já estavam no local segurando cartazes contra o tucano.

Quando o candidato do PSDB chegou, correligio­nários puxaram e rasgaram as cartolinas. Um grupo maior de militantes do PT se aproximou, deflagrand­o uma briga.

O presidenci­ável entrou numa loja para esperar a confusão acabar. Depois de alguns minutos, quando ainda ocorria um empurra-empurra, decidiu manter a caminhada.

Foram 15 minutos de cotovelada­s e troca de sopapos. Serra se aproximava dos metros finais do calçadão quando mastros de bandeira, pedra e toda sorte de objetos começaram a voar sobre o candidato e correligio­nários.

Os cinegrafis­tas das emissoras de TV se afastaram do tumulto. Nesse momento, decidi tentar gravar a cena com meu celular —então um Nokia E71, mais “phone” do que “smart”. Estiquei o braço para cima direcionan­do a câmera para Serra. Alguns segundos depois, ele se abaixou e colocou a mão na cabeça. Protegido por aliados, correu para uma van que o aguardava.

Para quem estava ali, não havia dúvida: Serra fora alvo dos objetos arremessad­os e possivelme­nte acertado por algum deles. O deputado Fer- nando Gabeira (PV) e um pastor que estavam ao seu lado disseram ter visto um rolo de fita adesiva atingi-lo.

No mesmo tumulto, uma repórter da TV Globo levou uma pedrada.

Logo em seguida, Serra se deixou fotografar com um gelo na cabeça. Desceu da van e andou por mais alguns metros demonstran­do incômodo. Não havia ferimento aparente. O tucano deixou a zona oeste direto para um hospital. Foi submetido a uma tomografia e orientado a ficar de repouso por um dia.

Dilma, por sua vez, lamentou o episódio e pediu para que a militância se pautasse “pelo princípio da fraternida­de e da solidaried­ade”.

A guerra de versões começaria à noite, quando o SBT veiculou sua reportagem sobre o tumulto. A emissora flagrou Serra sendo alvo de uma bolinha de papel ao sair da loja, cerca de 15 minutos antes do vídeo que eu havia gravado.

Após mostrar cenas do tumulto, narrou da seguinte forma os fatos subsequent­es. “Cerca de 20 minutos depois de ser atingido [pela bola de papel, Serra] retoma a caminhada. Mais à frente, José Serra recebe um telefonema e logo em seguida leva a mão à cabeça, que não tem um ferimento aparente”.

A reportagem se propagou online em algumas horas. Lula proferiu no dia seguinte (21) uma de suas conhecidas analogias com o futebol ao comparar Serra ao goleiro chileno Roberto Rojas, que simulou ter sido atingido por um sinalizado­r num jogo contra o Brasil no Maracanã em 1989.

“Ontem, venderam o dia inteiro que esse homem [Serra] tinha sido agredido. [...] Uma mentira mais grave do que a mentira daquele goleiro Rojas”, disse Lula.

O vídeo que fiz pelo celular só ganhou relevância no dia seguinte, por ser o único registro do momento mais intenso do conflito.

O Jornal Nacional do dia 21 exibiu uma reportagem de sete minutos em que o perito Ricardo Molina exibe o “frame” do vídeo em que Serra é, na sua avaliação, atingido pelo que parece ser um rolo de fita adesiva. Ele chamou de dois “eventos” distintos, o “evento bolinha” e o “evento rolo de fita”.

A Folha, o Estado de S. Paulo e O Globo também publicaram textos no dia 22 explicando o que ocorrera —os três jornais tinham repórteres acompanhan­do o ato. O próprio SBT reconheceu, dois dias depois, que a imagem da bolinha de papel trata de outro ponto da caminhada e afirmou que não tinha imagens do momento mais tenso da briga.

A Folha pediu então uma perícia a outro profission­al, que confirmou a ocorrência, mas examinando um quadro distinto daquele visto pelo perito consultado pela TV Globo. O jornal optou por não publicar a informação, tendo em vista que a agressão fora confirmada, sendo irrelevant­e o segundo em que ocorreu.

Nada foi suficiente, porém. O esforço jornalísti­co foi ironizado por Lula e militantes do PT. Internauta­s fizeram as próprias análises das imagens, questionan­do a conclusão de Molina. O episódio ficou eternament­e conhecido como o “caso da bolinha de papel”.

Descobri, por ocasião deste texto, que o Grupo Globo mantém uma página para explicar as circunstân­cias dessa cobertura na seção “acusações falsas” —ao lado de temas mais espinhosos, como o escândalo Proconsult (sobre a apuração dos votos nas eleições para governador do Rio de Janeiro, em 1982) e da aquisição de direitos da Copa do Mundo de 2002.

O episódio também foi objeto do filme “O Mercado de Notícia”, dirigido por Jorge Furtado. Um documentár­io sobre jornalismo que comete erros básicos na execução do ofício: apura dentro de uma ilha de edição, não vai ao local do fato, não busca testemunha­s nem ouve o outro lado.

O filme afirma que a imprensa discutiu uma agressão que ninguém viu e se propõe a tentar identifica­r quem arremessou a bolinha de papel. É mais uma peça que garante a resistênci­a de uma das primeiras e mais bem sucedidas fake news eleitorais fabricadas no país na era da internet.

No dia seguinte ao ataque a Serra, Dilma foi alvo de uma bexiga cheia d’água no Paraná. Ela atingiu o capô do carro em que estava, sem ferir ninguém. Mesmo sem nenhuma imagem registrand­o o fato, o ato presenciad­o pela imprensa nunca foi questionad­o.

O caso da bolinha de papel foi lembrado nesta eleição após a facada sofrida por Jair Bolsonaro (PSL) em Juiz de Fora. Alguns coletivos de jornalista­s se propuseram a analisar as imagens a fim de pôr em xeque a agressão. A tentativa, desta vez, não prosperou.

As investigaç­ões do caso Erenice e do dossiê dividiram espaço com a polêmica do calçadão Campo Grande por alguns dias. Dilma venceu em 31 de outubro com 56%.

Erenice sofreu censura da Comissão de Ética Pública da Presidênci­a (sem efeito prático), mas teve a denúncia arquivada por falta de prova. O caso da quebra de sigilo de tucanos tramita até hoje na Justiça Federal de São Paulo.

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Fotos Rafael Andrade - 20.out.10/Folhapress José Serra reage após ser alvejado por objeto durante caminhada no Rio de Janeiro
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O presidenci­ável tucano usa gelo na cabeça após ser atingido em caminhada no Rio de Janeiro

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