Folha de S.Paulo

Final de 1976 entre River e Boca ainda gera polêmica

- Alex Sabino e Bruno Rodrigues

Até março deste ano, antes de os rivais decidirem a Supercopa Argentina, só um gol havia sido marcado em uma final disputada entre Boca Juniors e River Plate. Gol controvers­o de uma partida tensa, histórica e que, depois daquele 22 de dezembro de 1976, ninguém mais pôde ver novamente.

Não há registros em vídeo da cobrança de falta de Rubén Suñé, que decidiu o Nacional há 42 anos, com vitória do Boca por 1 a 0. A partida foi transmitid­a ao vivo para o país, mas o que aconteceu com a fita (desapareci­da) é alvo de várias teorias, nenhuma delas comprovada.

O único fato concreto é que o jogador do Boca cobrou a falta enquanto o goleiro do River, Ubaldo Fillol, ainda arrumava a barreira. Fez o gol.

Neste sábado (10), as duas equipes fazem, em La Bombonera, a primeira partida da decisão da Libertador­es, e apenas a segunda final relevante na história envolvendo uma das maiores rivalidade­s sul-americanas.

Na Supercopa de 2018, o River Plate venceu o rival por 2 a 0 e sagrou-se campeão, mas trata-se de um troféu recente e de pouca expressão.

“Fiquei com tanta raiva que me lembro muito pouco daquele jogo. Não merecíamos perder. Nosso time era melhor que o do Boca. Bem melhor”, relembra à Folha o goleiro Fillol, que oito anos depois foi jogar no Flamengo.

O sentimento amargo em relação àquela partida é compartilh­ado pelo colega de equipe Leopoldo Luque, campeão com Fillol da Copa do Mundo de 1978 pela seleção.

“Me sinto um pouco culpado [pelo lance]. Cheguei a dar um pique, estava quase chegando na bola para evitar que [Suñé] fosse chutar, mas ele cobrou”, diz Luque. “Que se perca dessa maneira, ainda mais em um clássico, é frustrante.”

A edição especial da revista argentina El Gráfico sobre o título do Boca, publicada em 28 de dezembro de 1976, traz a imagem do árbitro Arturo Ithurralde levantando os braços e autorizand­o a cobrança de falta.

A revista também procura esclarecer uma outra polêmica daquele jogo: um suposto pênalti do goleiro do Boca, Hugo Gatti, sobre Luque.

Na seção dedicada ao lance, com fotos do momento no qual Gatti derruba o atacante, a El Gráfico diz no texto de apoio das imagens: “Gatti vai para o chão e chega primeiro na bola, tocando para um dos lados. Não houve infração.”

Mais de 40 anos depois, Leopoldo Luque segue irredutíve­l quanto ao lance e defende que sofreu a penalidade.

“Fui arrancando com a bola e ia chutar, mas não consegui. Ele me toca e, bem... foi dentro da área. Seu braço pega no peito do meu pé direito e me derruba”, afirma o exatleta do River Plate.

O 1 a 0 deu ao Boca o título do Nacional, que se juntou ao Metropolit­ano conquistad­o no primeiro semestre para consagrar o bicampeona­to em 1976 sob o comando do técnico Juan Carlos Lorenzo.

Rubén Suñé, que ainda não tinha feito nenhum gol em toda a temporada, marcou seu primeiro e único naquele ano justamente diante do arquirriva­l. O suficiente para imortalizá-lo na história do Boca.

Hoje, o ex-camisa 5 tem uma estátua no hall de entrada da Bombonera, ao lado de outros grandes ídolos como Diego Maradona, Juan Román Riquelme e Martín Palermo.

“Foi uma das melhores noites da minha vida. Durante todo o ano eu não havia marcado um gol, e esta noite coube a mim marcar o que nos dá o campeonato”, afirmou Suñé à El Gráfico, ainda nos vestiários do estádio Cilindro, em Avellaneda, antes de seu último banho como um mero mortal nas páginas da maior rivalidade da Argentina.

Último encontro pela Libertador­es teve uso de gás e foi suspenso

Na última vez em que Boca Juniors e River Plate se enfrentara­m pela Copa Libertador­es, a partida acabou antes do apito final, e a resolução sobre o clássico virou caso de tribunal.

Em duelo pelas oitavas de final do torneio em 2015, o River venceu o jogo de ida por 1 a 0, no Monumental de Nuñez, e foi à Bombonera precisando apenas de um empate para garantir a classifica­ção. As equipes foram para o intervalo com 0 a 0 no placar e, no retorno para o segundo tempo, começou a confusão.

Um torcedor do Boca encontrou uma brecha na grade da arquibanca­da e espirrou gás de pimenta na direção do túnel inflável que fazia o acesso do vestiário visitante ao campo.

Alguns jogadores do River Plate voltaram ao gramado enjoados e com os olhos vermelhos, irritados pela ação do gás. A partida ficou paralisada por mais de uma hora, até que as autoridade­s decidiram suspender o clássico.

A decisão sobre como resolver o prosseguim­ento do jogo, então, foi para os tribunais.

Dois dias depois, a Conmebol informou que o Boca Juniors estava eliminado da Copa Libertador­es por conta do incidente. Além da eliminação, precisou arcar com uma multa de US$ 200 mil (cerca de R$ 598 mil) e um jogo com portões fechados na Libertador­es do ano seguinte.

O River se classifico­u para as quartas de final e, posteriorm­ente, conquistou o título, seu terceiro na história.

As torcidas se provocam até hoje pelo episódio do gás. A Borrachos del Tablón, principal organizada do River, diz que o Boca “usou o gás e abandonou a Copa”, além de ter “chorado por ver o torneio pela televisão”.

Já a La Doce, barra brava do Boca, retruca dizendo que quem abandonou foi o rival, que “ganhou a Copa no Paraguai”, em referência ao local da sede da Conmebol, onde foi decidida a suspensão do clube da Copa Libertador­es.

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Juan Mabromata - 14.mai.15/AFP Vangioni lava o rosto após ser atingido por gás na Bombonera

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