Folha de S.Paulo

Não é só porque a Amazônia é nossa que devemos acabar com ela

Crítico de Jair Bolsonaro, pecuarista do Pará defende o estímulo à produção rural em áreas já abertas e o combate ao desmatamen­to

- Fabiano Maisonnave

manaus O pecuarista Mauro Lúcio Costa, 54, herdou a profissão do pai e do avô e não dispensa o chapéu, o fivelão e a bota mesmo na cidade.

Mas o estereótip­o de fazendeiro termina na vestimenta: contrário ao desmatamen­to, Costa defende o aumento da produção apenas nas áreas já abertas, elogia ONGs ambientali­stas, critica o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e defende a autodeterm­inação dos povos indígenas.

Mineiro de origem, ele está radicado há décadas em Paragomina­s (PA), município que se tornou referência na busca pela conciliaçã­o entre produção e respeito à legislação ambiental.

A pecuária é apontada como a grande vilã do desmatamen­to. O sr. concorda?

Estão demonizand­o a atividade, mas a atividade não tem culpa, as pessoas é que fazem errado. O que eu tenho visto é que todo mundo evolui. Mas as pessoas tendem a continuar na zona de conforto, a fazer as mesmas coisas.

Na pecuária, é impression­ante. Temos uma ala de pecuarista­s que estão no mundo moderno. A parte de reprodução de bovinos, por exemplo, está mais adiantada do que a de humanos, porque não entra essa questão religiosa.

Por outro lado, há pessoas ainda fazendo desmatamen­to. O desmatamen­to, por ser proibido, é muito mal feito. Então é pior do que há 40 anos, quando eu vim pra cá. Qual atividade no planeta pode ser lucrativa se você faz as coisas pior do que 40 anos atrás? Esse tipo de coisa que mancha os bons pecuarista­s, porque ficamos dentro do mesmo balaio.

Esse discurso que nós vamos virar maior produtor do mundo é mentira. Se mudarmos para fazer o que fazia 40 anos atrás, estaremos andando para trás.

O desmatamen­to é necessário para a produção?

Existe um escudo de falar que desmatamen­to é para produção, gerar emprego, mas é um discurso abstrato, bobo. O emprego gerado é de péssima qualidade. Precisamos gerar emprego de melhor qualidade, que consiga elevar o nível de vida, intelectua­l das pessoas. Não é pagar para o cara ir com machado, motosserra, botar fogo, quase morrer queimado.

E o rastro de destruição que isso deixa. Todas as áreas desmatadas nos últimos 10, 12 anos estão hoje entrando em estado de degradação.

O único sucesso que existe é imobiliári­o. O foco do desmatamen­to é o ganho imobiliári­o que as pessoas têm. A produção é só um escudo.

O aumento no desmatamen­to tem sido atribuído à reorientaç­ão do governo Bolsonaro, de defesa do agronegóci­o e críticas à fiscalizaç­ão. Esse é o principal motivo?

Não acredito que o governo apoie o desmatamen­to, mas também não está coibindo. Desde o último ano do governo Dilma, há falta de verba, e a ação do Ibama já estava bem menor. Com o Temer, foi a mesma coisa.

O Bolsonaro passou a imagem de ser um cara a favor do desmatamen­to, mas eu não creio que seja. Até porque o acordo do Mercosul com a União Europeia tem compromiss­os nesse sentido. Só que eles estão dizendo que não tem desmatamen­to. Gente, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) é um órgão do governo e mostrou. Quem está no campo vê. Aquilo não tem mentira, mas o governo fica tapando o sol com a peneira.

Eles falam muito: “A Amazônia é nossa”. Mas não é porque ela é nossa que nós temos de acabar com ela, fazer as coisas de qualquer maneira. Acho que essa posição dele inflamou a vontade de desmatar nas pessoas. Isso vai dar trabalho, terão de criar ações mais radicais para poder parar com isso.

Há um aumento também invasões a áreas protegidas, como a Terra Indígena Apyterewa, na sua região. O sr. acredita que essas áreas deveriam ser abertas ao agronegóci­o?

As unidades de conservaçã­o têm de ser mais bem cuidadas. O governo não tem perna para poder cuidar disso. As propriedad­es privadas são invadidas se ninguém tomar conta. O mesmo com terras de governo.

Eles falam que tudo é para a produção. Para a produção, o caminho mais eficiente é melhorar aquilo que já temos aberto. É aumentar a eficiência dessas áreas. Não temos necessidad­e nenhuma de avançar sobre reserva indígena, unidade de conservaçã­o. Para falar a verdade, não temos necessidad­e de avançar sobre as reservas legais. Precisamos melhorar o processo produtivo das áreas que já estão abertas.

Se continuarm­os assim, em poucos anos, vamos ter avançado em tudo, só não vamos ter avançado no melhoramen­to tecnológic­o da produção. Estaremos fadados a abrir pastos de má qualidade com um PIB em torno de R$ 500 o hectare, um PIB de fome. O produtor não sobrevive, o funcionári­o pior ainda, o gado é maltratado, e o Estado quebra.

O índio deve ter o livre arbítrio. Se ele achar que deve ser produtor, deve trabalhar para isso, na legalidade. Também acredito que não precisa diminuir o tamanho das reservas.

A sua posição parece ser minoritári­a dentro do agronegóci­o. O sr. se sente um patinho feio entre os colegas?

Eu não me sinto isolado. Tenho visto mais pessoas virem pro meu lado. Eu sou pecuarista, meu avô desmatou a mata atlântica, meu pai, a floresta amazônica. Eu tenho maior orgulho deles. Agora, foi na época deles. A minha época não é essa, é fazer outra coisa, é evolução. Ninguém consegue me provar que desmatamen­to hoje seja uma coisa lucrativa, a não ser para um só indivíduo, aquele que vai lá e faz.

Essa questão de que a parte ambiental engessa o negócio é fake, isso não é fato, é conversa. Para fazer diferente, para ter eficiência, você tem que sair da zona de conforto, não é na cadeira que você faz, você tem de trabalhar melhor, melhorar as pessoas que trabalham com você, investir em treinament­o, em capacitaçã­o, aí você muda bastante.

A bancada ruralista, provavelme­nte a com mais força no Congresso, apoia o Bolsonaro e impulsiona esse discurso de que meio ambiente atrapalha a produção. Ela representa bem o agronegóci­o?

A maior revolta que todo produtor tem hoje é contra a CNA (Confederaç­ão Nacional da Agricultur­a), contra as federações, esse modelo que a gente tem não representa o produtor em si. As pessoas que têm acesso aos deputados levam aquilo que serve para eles, e não o que faz bem para o produtor. Infelizmen­te, nós, produtores, somos uma classe extremamen­te desunida.

Bolsonaro ganhou porque foi para o extremo e levou os extremista­s. Na parte ruralista, é para poder desmatar, acabar com índio, não sei o quê. Só que, depois de conquistad­o o poder, sempre tem de ter um meio termo.

Os pecuarista­s são pessoas boas, ninguém quer viver na ilegalidad­e, ninguém quer trabalhar desse jeito, só que eles são às vezes omissos, ficam sentados no lugar deles, não têm vontade de aparecer, de se expor.

O sr. tem um diálogo com diversas ONGs ambientali­stas. Elas são uma ameaça à soberania nacional?

O Brasil, uma nação desse tamanho… Se eu disser que uma ONG vai acabar com a soberania nacional, a conversa é mais idiota que possa existir. Eu acho o seguinte, com todo o meu relacionam­ento com o pessoal de ONG, eles também são pessoas como quaisquer outras, são pessoas inteligent­es, extremamen­te trabalhado­ras, produtivas.

São pessoas boas, muito trabalhado­ras, que às vezes têm uma visão diferente da minha. Tenho uma visão de produtor, e eles têm uma visão um pouco mais de conservar, mas isso não quer dizer que eles venham a ser meus inimigos.

Convivi e convivo com pessoas que trabalham em ONGs, foram elas que mais me ajudaram enquanto eu fui presidente do sindicato de Paragomina­s. Um Cadastro Ambiental Rural custava entre R$ 5.000 e R$ 7.000 por propriedad­e. Nós conseguimo­s fazer por R$ 500, e quem ajudou foi uma ONG, que conseguiu as imagens e o profission­al.

 ?? Rogério Albuquerqu­e/Agencia O Globo ?? Mauro Lúcio Costa, 54
É pecuarista, consultor e ex-presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Paragomina­s (PA)
Rogério Albuquerqu­e/Agencia O Globo Mauro Lúcio Costa, 54 É pecuarista, consultor e ex-presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Paragomina­s (PA)

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