Folha de S.Paulo

Novo ouvidor da Polícia de SP tem perfil político e apaziguado­r

Elizeu Lopes fez carreira como assessor parlamenta­r em gabinetes do PCdoB

- Rogério Pagnan

são paulo Em seus 25 anos de história, a Ouvidoria da Polícia de São Paulo foi chefiada por personalid­ades combativas que fazem críticas à atuação da polícia e, por isso, geram incômodos ao governo estadual.

Com o novo ouvidor, o advogado Elizeu Soares Lopes, 50, o órgão de fiscalizaç­ão do trabalho policial poderá ter nos próximos dois anos seu chefe mais apaziguado­r.

Ele deve atender a um pedido feito pelo Palácio dos Bandeirant­es quando foi chamado para ser informado da indicação ao cargo, mesmo sendo o último da lista tríplice. “Só pedimos que não faça préjulgame­ntos”, teria ouvido Lopes, segundo pessoas ligadas a ele. Ele tem respondido que é advogado criminalis­ta e só trabalho com provas.

O resultado desse encontro foi conhecido na semana passada quando o advogado foi nomeado pelo governador João Doria (PSDB), em detrimento do ouvidor Benedito Mariano, o primeiro da lista. É uma quebra de tradição de duas décadas de recondução do ouvidor ao cargo.

Também pesou nessa indicação o trabalho de bastidor feito por Lopes que percorreu, por exemplo, quase todos os gabinetes da Assembleia Legislativ­a para pedir apoio aos parlamenta­res, principalm­ente da chamada “bancada da bala”, descontent­es com Mariano.

Apesar do lobby, ele não tinha muita esperança em assumir a Ouvidoria. Também foi surpreendi­do quando foi chamado ao Palácio e, segundo amigos, quando descobriu quanto seria o salário de ouvidor: cerca de R$ 6 mil líquidos.

Desde a adolescênc­ia, Lopes tem atuado mais nos bastidores políticos do que, propriamen­te, na liderança de movimentos —incluindo o estudantil, do qual participou em Mogi das Cruzes (SP) ainda jovem. É considerad­o um bom articulado­r.

Apesar das origens no PCdoB, onde permaneceu até o ano passado, Lopes tem bom trâmite em outras legendas, inclusive no PSDB. Exemplo disso foi a nomeação para trabalhar na prefeitura de Doria, logo depois de deixar cargo na gestão Fernando Haddad (PT).

Na gestão petista, foi secretário-adjunto da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e foi trabalhar como assessor na Secretaria dos Transporte­s na administra­ção tucana.

Até dirigentes históricos do tucanato paulista operaram em favor da contrataçã­o dele. No entanto, no passado, Lopes era crítico do atual governador. No Twitter, em 2016, quando Doria disputava com Haddad a vaga de prefeito, o advogado criticou o tucano durante um debate —”um fiasco, não fala lé com cré”, escreveu na época.

Lopes foi demitido nove meses depois após se envolver em uma história polêmica: em um certo dia, após voltar da Câmara, Lopes entregou ao então secretário de Transporte Sérgio Aveleda uma sacola que seria presente do vereador Camilo Cristófaro (PSB).

Como ambos eram desafetos, Aveleda estranhou o presente e, ao abrir a bolsa, deparou-se com cerca de R$ 3.000 em maços de dinheiro. O secretário, pensando ser uma tentativa de suborno ou armadilha do parlamenta­r, chamou a polícia e testemunha­s.

O caso só não se encaminhou para uma delegacia porque a versão recebida do gabinete do vereador era de que o dinheiro seria para o próprio Lopes, que havia pedido emprestado. Lopes foi demitido após o episódio.

Quanto a delegacias de polícia, Lopes foi acusado de ter ameaçado um opositor político nas eleições de 2004, mas o caso acabou arquivado. O autor da queixa, procurado pela Folha, disse que nem se recorda do caso e considera Lopes “gente boa”.

Apesar de se apresentar como advogado, Lopes não tem grande histórico de atuação na área. São raros os processos que ele patrocinou (cinco públicos) em inscrição aprovada na OAB em 2008.

Sua maior experiênci­a é na assessoria parlamenta­r. Foi auxiliar no gabinete do deputado Nivaldo Santana (PCdoB) de 1996 a 1997 e voltou ao mesmo cargo de 1999 a 2001.

De 2006 a 2007, foi secretário da deputada estadual Ana Martins, e de 2011 a 2015, assessor parlamenta­r da deputada Leci Brandão, ambas do PCdoB. Também teve rápida passagem pelo gabinete de Gustavo Petta (PCdoB), entre junho e dezembro de 2018, e, por fim, até março de 2019, trabalhou com Junior Aprillanti (PCdoB/PSB).

Lopes decidiu concorrer à vaga de ouvidor após ser apoiado pelo Sindicato dos Advogados e receber apoio também dos movimentos ligados à questão racial.

Procurado pela Folha, Lopes não quis da entrevista. Por meio de sua assessoria de imprensa, disse que o caso envolvendo o vereador Camilo foi um “mal entendido”. “Era uma relação particular. Tanto que a Controlado­ria Geral do Município investigou e arquivou o caso.”

Sobre a ocorrência de 2004, da acusação de ter ameaçado opositor político, ele disse não que teve consequênc­ias. “Era uma questão eleitoral local, não houve sequer inquérito e os dois, inclusive, são amigos.”

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