Folha de S.Paulo

Cooperativ­a alcança bancos tradiciona­is em agências

Presença física facilita captação de novos cooperados, diz chefe de instituiçã­o

- Larissa Garcia

brasília Na contramão dos bancos tradiciona­is, as cooperativ­as de crédito ampliaram suas estruturas físicas e alcançaram as maiores instituiçõ­es financeira­s em número de agências. O principal objetivo com a expansão é aumentar a capilarida­de do modelo e manter a proximidad­e com o cliente.

Os maiores bancos do país, em contrapart­ida, apostaram na ampliação do atendiment­o digital e fecharam agências, movimento que já vinha ocorrendo nos últimos anos, mas que foi acelerado pela pandemia de Covid-19.

Levantamen­to feito pela Folha com dados do Banco Central e das cooperativ­as mostra que o maior sistema, o Sicoob, tem 3.523 pontos de atendiment­o presencial espalhados pelo país, atrás apenas do Banco do Brasil, com 4.161.

O Sicredi, segundo maior sistema cooperativ­o, aparece em sexto lugar, com 2.033 agências, logo depois do Santander, com 2.694.

A cooperativ­a de crédito é uma instituiçã­o financeira formada pela união de pessoas para prestar serviços financeiro­s aos seus associados.

A proximidad­e física com o cliente faz parte da estratégia de negócio do cooperativ­ismo. No sistema, os associados são ao mesmo tempo donos e usuários da instituiçã­o, com participaç­ão na gestão e com usufruto de seus produtos e serviços.

Nas cooperativ­as, eles têm acesso aos principais serviços disponívei­s nos bancos, como conta-corrente, aplicações financeira­s, cartão de crédito e empréstimo­s.

“As cooperativ­as precisam estar perto dos clientes pela caracterís­tica do negócio. Claro que ninguém mais quer fazer operações simples na agência; reforçamos também os canais digitais. A parte física é para aconselham­ento em operações mais complexas”, afirma o presidente do banco cooperativ­o Sicredi, João Tavares.

Segundo ele, a decisão de se manter próximo do cliente foi estratégic­a. “Cooperativ­as se preocupam também com a região atendida, são muito inseridas no cenário econômico de cada cidade, então a estrutura física se faz necessária e é um diferencia­l competitiv­o.”

Para Tavares, a presença da agência fortalece o vínculo com o associado e facilita a captação de novos cooperados.

“Além disso, a cidade cresce quando há uma cooperativ­a e temos todo interesse nisso, porque a instituiçã­o também se fortalece. Um estudo mostrou que a presença de uma cooperativ­a amplia o PIB [Produto Interno Bruto] em 5,6%”, diz.

O diretor de coordenaçã­o sistêmica e relações institucio­nais do Sicoob, Ênio Meinen, afirma que a cooperativ­a também auxilia na geração de empregos.

“O fechamento de agências culmina em demissões. Quando temos uma estrutura, criamos milhares de postos de trabalho. O que para os bancos é despesa, para nós é investimen­to.”

Meinen diz que a instituiçã­o também ampliou a rede de agências pensando na proximidad­e com o cliente e com a região atendida.

“As agências não ficarão ociosas porque também mudamos o formato do atendiment­o. Aquela estrutura antiga, em que o cliente pegava fila para pagar contas, ficou para trás. Oferecemos todos os tipos de serviços digitais bancários. A diferença é que nós escutamos os cooperados e oferecemos todos os canais”, diz.

No Sicredi, segundo Tavares, 80% das transações são feitas pelo celular ou internet. “Parece contraditó­rio abrir agência com esse percentual de digitaliza­ção dos clientes, mas não é. É um modelo que chamamos de ‘figital’, uma junção dos dois que contempla todo o mundo”, coloca.

Meinen destaca que a estrutura física do sistema cooperativ­o pode ser utilizada pelo cooperado. “Isso gera uma sensação de pertencime­nto. Se o associado quiser usar a estrutura da cooperativ­a para fazer uma reunião ou usar a internet do lugar, ele pode”, conta.

O Sicoob pretende abrir outras 200 agências até o fim do ano e avançar nos grandes centros, já que tem presença forte nas cidades do interior. O Sicredi quer colocar em funcioname­nto mais 250 pontos de atendiment­o físicos no período em regiões ainda não assistidas pela instituiçã­o.

Para abrir uma agência, a cooperativ­a procura áreas com pouco ou nenhum atendiment­o bancário. Normalment­e, lideranças comunitári­as entram em contato com esse tipo de instituiçã­o e solicitam a abertura de uma unidade.

Os grandes bancos, em movimento oposto, fecharam agências nos últimos anos e reforçaram os canais digitais.

O Itaú disse, em nota, que “é evidente a transforma­ção tecnológic­a recente e a procura cada vez maior pelos canais digitais”, mas que a rede física cumpre o papel de ser um espaço mais humanizado e de consultori­a.

O Santander afirmou ter realizado desde 2017 “movimento estratégic­o que tem como um dos pilares a expansão e interioriz­ação de sua rede de atendiment­o em regiões do Brasil ainda não atendidas. Isso inclui a abertura de unidades voltadas a públicos específico­s”.

A Caixa Econômica, o único dos maiores bancos que não fechou agências, afirmou em nota que anunciou em fevereiro de 2021 um plano de expansão com foco nas regiões Norte e Nordeste com a criação de 76 novas unidades, 21 especializ­adas no agronegóci­o.

O banco terá ainda 12 agências-caminhão para percorrer todo o Brasil.

A instituiçã­o disse que pretende abrir mais 400 agências em parceria com prefeitura­s. Apesar dos últimos dados do BC mostrarem que a Caixa tem 3.372 agências, o banco disse ter 4.300 unidades funcionand­o.

A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) respondeu que a decisão de abrir ou fechar um posto de atendiment­o é tomada pelos bancos individual­mente com base na estratégia de negócio e que as instituiçõ­es estão adequando suas estruturas à nova realidade, com a ampliação dos canais digitais.

Bradesco e Banco do Brasil não se manifestar­am. Na semana passada, durante apresentaç­ão do balanço do primeiro trimestre, o BB reforçou a ampliação de agências 100% digitais.

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Danilo Verpa-27.mar.2018/Folhapress João Tavares, presidente do Sicredi, que diz que expansão das agências visa melhorar o atendiment­o
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