Folha de S.Paulo

Moto-herói

‘Você já tentou dirigir nas ruas de São Paulo?’

- Ricardo Araújo Pereira Humorista, membro do coletivo português Gato Fedorento. É autor de ‘Boca do Inferno’

“Avô, o que você fazia em 2022?” “Estava na guerra.” “Guerra? Em 2022? No estrangeir­o?”

“Não, aqui mesmo, no Brasil. Estive na guerra uns dez anos.” “Dez anos? Deve ter sido duro.” “Muito. Tive companheir­os que morreram, outros que ficaram com marcas para toda a vida.”

“Você ia num tanque?” “Não, numa moto.”

“E lutou contra a opressão?” “Contra a fome, na verdade.”

“As pessoas tinham fome?” “Tinham. Por volta da hora das refeições. Às vezes também noutras alturas.”

“Quem impunha a fome?” “A natureza, acho eu.” “E como você a combatia?” “Entregando pizza, normalment­e. Mas sushi também saía muito bem.”

“Hum… Essa guerra era contra quem?”

“Alemães, japoneses, franceses, italianos, americanos… Alguns coreanos.”

“Houve uma guerra contra toda essa gente?”

“Não era gente. Eram carros. Carros alemães, japoneses, franceses, italianos, americanos… Alguns coreanos.”

“Avô, você era motoboy?” “Sim.”

“Isso não era uma guerra, avô. Você andava pela cidade a entregar comida.”

“Qual é a diferença? Havia destruição e mortalidad­e. Se os carros não queriam nos matar, parecia. Na minha geração, muita gente morreu nesse combate. E a ONU não fazia nada. Uma guerra, tal e qual.”

“Isso não é exatamente uma guerra, avô. Os soldados arriscam a vida.”

“Nós também. E usávamos capacete, também. Tudo igual.”

“Os soldados estão no campo de batalha, um ambiente muito hostil.”

“Você já tentou dirigir uma moto nas ruas de São Paulo?”

“Sim, mas na guerra há violência extrema. Traumas que ficam para sempre.”

“Experiment­e ir ao Capão Redondo às seis e meia da tarde.”

“Ora, avô. Não se pode comparar um conflito armado terrível, em que a vida das pessoas não vale nada, com uma das melhores conquistas da civilizaçã­o, que é a entrega rápida de comida a baixo custo.”

“Pode, se o baixo custo for a minha vida.”

“Você matou alguém, avô?” “Não, mas tive muita vontade. Clientes que não davam gorjeta, sobretudo. Mas também patrões que não queriam assinar contrato nem dar seguro de saúde. E motoristas que não usavam setas. Às vezes ainda acordo à noite, aos gritos. Sua avó sabe que são sonhos do tempo da guerra e me dá uma nota de R$ 50, para me acalmar.”

| dom. Ricardo Araújo Pereira | seg. Bia Braune | ter. Manuela Cantuária | qua. Gregorio Duvivier | qui. Flávia Boggio | sex. Renato Terra | sáb. José Simão

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Luiza Pannunzio

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