ANÁ­LI­SE Omis­são do Con­gres­so am­plia in­cer­te­zas so­bre des­fe­cho da cri­se

Folha De S.Paulo - - Poder - UIRÁ MA­CHA­DO

Se o Con­gres­so ti­ves­se fei­to a li­ção de ca­sa, ha­ve­ria me­nos dú­vi­das so­bre o des­fe­cho da cri­se que sa­co­de o go­ver­no de Mi­chel Temer (PMDB).

Não se sa­be se o pre­si­den­te dei­xa­rá o car­go. Ca­so is­so acon­te­ça, não se sa­be se se­rá por re­nún­cia, im­pe­a­ch­ment, cas­sa­ção (no Tri­bu­nal Su­pe­ri­or Elei­to­ral) ou aber­tu­ra de pro­ces­so pe­nal no Su­pre­mo Tri­bu­nal Fe­de­ral (STF).

Es­sa incerteza faz par­te do jo­go. O que não de­ve­ria fazer par­te do jo­go é a incerteza quan­to às re­gras a se­rem se­gui­das a par­tir daí.

De acor­do com a Cons­ti­tui­ção, se os car­gos de pre­si­den­te e vi­ce fi­ca­rem va­gos nos úl­ti­mos dois anos do man­da­to, a es­co­lha do no­vo che­fe do Exe­cu­ti­vo ocor­re em até 30 di­as, em elei­ções in­di­re­tas —is­to é, só de­pu­ta­dos e se­na­do­res par­ti­ci­pam da vo­ta­ção.

As re­gras des­se pro­ces­so elei­to­ral, po­rém, não es­tão na Cons­ti­tui­ção de 1988. Elas pre­ci­sa­ri­am ter si­do de­fi­ni­das por lei es­pe­cí­fi­ca —a qual o Con­gres­so não apro­vou.

Com is­so, não se sa­be ao cer­to, en­tre ou­tras coi­sas, qu­em po­de­rá en­trar na cor­ri­da. Em con­di­ções nor­mais, juí­zes, mem­bros do Mi­nis­té­rio Pú­bli­co, mi­nis­tros, go­ver­na­do­res e pre­fei­tos, por exem­plo, pre­ci­sam dei­xar o car­go seis me­ses an­tes da dis­pu­ta.

Va­le­rá es­se cri­té­rio? Ou ha­ve­rá in­ter­pre­ta­ção di­fe­ren­te à luz da si­tu­a­ção ex­cep­ci­o­nal?

Tam­bém não se sa­be co­mo se­rá a vo­ta­ção. Um can­di­da­to pre­ci­sa ser es­co­lhi­do por mais de 50% dos con­gres­sis­tas (513 de­pu­ta­dos e 81 se­na­do­res)? Há se­gun­do tur­no?

A incerteza exis­te pois, sem re­gras atu­ais, a re­fe­rên­cia é a lei 4.321, de 1964. Apro­va­da na di­ta­du­ra, ela de­ter­mi­na que a elei­ção pa­ra pre­si­den­te e vi­ce se dê de for­ma se­pa­ra­da (não em cha­pa úni­ca) e só ad­mi­te se­gun­do tur­no após du­as ro­da­das de vo­ta­ção.

Co­mo es­sas di­re­tri­zes pa­re­cem in­com­pa­tí­veis com a Cons­ti­tui­ção, o mais pro­vá­vel é que o STF de­fi­na o ri­to —co­mo no im­pe­a­ch­ment de Dil­ma Rous­seff (PT).

Nem mes­mo a for­ma da dis­pu­ta, con­tu­do, é pon­to pa­cí­fi­co. Con­gres­sis­tas ten­tam apro­var uma emen­da à Cons­ti­tui­ção pa­ra es­ta­be­le­cer vo­ta­ção in­di­re­ta só nos úl­ti­mos seis me­ses do man­da­to.

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