Folha de S.Paulo

Troca-troca

- MARILIZ PEREIRA JORGE COLUNAS DA SEMANA segunda: Juca Kfouri e PVC, quarta: Tostão, quinta: Juca Kfouri, sábado: Mariliz Pereira Jorge, domingo: Juca Kfouri, PVC e Tostão

No futebol, as mudanças cada vez mais dinâmicas ainda não são assimilada­s pelos torcedores

“AQUI NÃO te amamos, morra Neymar”, foi uma das frases repetidas por parte da torcida durante o amistoso entre a Chapecoens­e e o Barcelona, nesta semana. Atitude bastante antidespor­tiva que quebrou um pouco o clima da confratern­ização do jogo e totalmente equivocada diante da ocasião.

Não dá para desejar a morte de uma pessoa nunca. Jamais a de um jogador justamente na homenagem feita a dezenas de outros que morreram de forma trágica. Mas os torcedores do Barça não parecem dispostos a perdoar a saída do atacante, que ainda foi chamado de “puta do PSG”.

Nesse episódio sobrou até para o jornalista que cravou a transferên­cia do jogador para o time francês. Marcelo Bechler, do Esporte Interativo, recebeu ameaças e precisou fechar seus perfis nas redes sociais por causa do assédio negativo.

Neymar caiu em desgraça na Espanha, não apenas entre os torcedores, mas também entre os jornalista­s, e será julgado porque resolveu que era hora de mudar. Foi chamado de vendido e mercenário. Em Barcelona, cartazes com sua foto, traziam estampada a frase “se busca traidor”, com cifrões ao lado.

A explicação para tanta revolta, dizem, é porque o contrato tinha sido renovado até 2021 e também porque o jogador não convocou a torcida para fazer um anúncio formal e uma despedida. Parece que sobra paixão pelo time e falta habilidade para lidar com o fato de que cada vez menos os clubes terão ídolos que permaneçam lá durante o tempo que suas carreiras durarem.

Isso não é uma novidade no mercado de trabalho, onde cada vez mais os profission­ais ficam menos tempo na mesma empresa e estão sempre à procura de novos desafios, que envolvam mais dinheiro ou apenas satisfação pessoal. É uma tendência do século 21. No futebol, as mudanças cada vez mais dinâmicas, talvez ainda não tenham sido assimilada­s, pelo menos em relação aos jogadores.

O troca-troca entre os treinadore­s é até exagerado. No Brasil a média de permanênci­a no mesmo emprego é de cinco meses. Na Alemanha, um ano e dois meses. Dá para ver a diferença no resultado. Mas esse é outro assunto.

“Eu queria algo novo, diferente”, disse Neymar. Não deveria ser difícil entender essa necessidad­e vinda de alguém com 25 anos. As pessoas, no entanto, preferem achar que a decisão foi movida a dinheiro. Bobagem. Certamente não é o cerne da questão, mas ser remunerado à altura de sua excelência não deveria ser pecado. É bom lembrar que Neymar deixou o Santos a caminho do time espanhol por mais dinheiro e, claro, por mais desafios na carreira.

Craques de várias gerações serão eternament­e lembrados pelos clubes onde se tornaram ídolos. Impossível desassocia­r a imagem de Nilton Santos do Botafogo, de Zico do Flamengo, de Rogério Ceni do São Paulo, de Sócrates do Corinthian­s. O futebol mundial também tem inúmeros exemplos. Steven Gerrard no Liverpool, Paolo Maldini no Milan e Totti na Roma. Alguns jamais vestiram a camisa de outro time e ficarão para a história também por sua lealdade.

Neymar deu adeus ao Barcelona, virou a página da história e vai escrever outros capítulos memoráveis. Daqui a pouco passa a raiva e os fãs do esporte devem voltar a focar no que importa, no futebol de qualidade do craque, que pretende ser o melhor do mundo. Se a chance estiver no PSG, não tem dinheiro que pague.

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