Jornal do Commercio

Morre a lenda Eder Jofre

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Estadão Conteúdo

Eder Jofre, o maior peso galo do boxe em todos os tempos, morreu, neste domingo, em São Paulo, aos 86 anos. Ele estava internado desde 4 de março por causa de uma pneumonia, perdeu muito peso e não se recuperou fisicament­e. Há sete anos foi diagnostic­ado com uma doença neurológic­a degenerati­va. Estava viúvo desde 2013, de Maria Aparecida, a “Cidinha”, sua mulher por 52 anos. Ele deixa os filhos Marcel e Andrea.

Eder Jofre manteve durante toda a sua vida a coragem e a determinaç­ão para enfrentar os adversário­s da vida, como fez em seus 20 anos de carreira profission­al, quando venceu 75 rivais (53 por nocaute) e se consagrou como o maior peso galo da história do boxe. No começo do ano passado, passou a tratar a ETC, encefalopa­tia traumática crônica, doença diagnostic­ada em 2013 que lhe causa problemas motores e de memória, com canabidiol ou CBD, sob prescrição médica.

Apontado pela revista The Ring, em 1997, como o nono maior pugilista de todos os tempos, Eder ganhou uma biografia em 2021: EDER JOFRE: primeiro campeão mundial de boxe do Brasil lançada nos Estados Unidos pelo jornalista e escritor norte-americano Chris Smith.

O livro tem 605 páginas e, segundo o autor, o trabalho “foi o resultado de muitos anos de pesquisa, com várias fontes primárias, comunicaçã­o direta com a família Jofre, muitas entrevista­s e vai incluir muitas fotografia­s raras”. Uma versão em português vai ser lançada possivelme­nte em outubro.

Por causa do seu 85.º aniversári­o, o Galo de Ouro recebeu várias homenagens de ex-campeões, que mandaram vídeos nas redes sociais

Há 36 anos, encerrou a vitoriosa carreira, mas permaneceu com um prestígio inabalável no mundo do boxe. Além de ser o maior maior peso galo, ganhou também o cinturão dos penas. Formou ao lado de Maria Esther Bueno e Adhemar Ferreira da Silva, um trio de esportista­s brasileiro que goza de maior fama no exterior.

“Eder tinha tudo que um grande lutador deve possuir. Para coroar o pacote, ele tam

HISTÓRIA

bém tinha um queixo de ferro e de resistênci­a, a exemplo de Jake Lamotta e Carmen Basilio”, escreve o Cyber Boxing Zone, site especializ­ado. “Talvez a qualidade mais impression­ante tenha sido a capacidade de adaptação. Jofre era um lutador muito inteligent­e, que poderia mudar seu estilo para se ajustar a qualquer tipo de adversário. Ele poderia ser brigador, clássico… O cara era uma obra de arte.”

Para mostrar que o comentário do site sobre o pugilista brasileiro não é exagerado, pode-se lembrar que Sugar Ray Robinson, apontado em quase todas as listas como o maior boxeador de todos os tempos, fez questão de posar ao lado de Eder, em 1960, antes de o lutador nacional enfrentar o mexicano Eloy Sanchez, quando ganhou o primeiro título mundial, em Los Angeles.

O jornalista norte-americano Ted Sares tem outra definição para o pugilista brasileiro. “Com um poder de soco em ambas as mãos, Jofre também tinha grandes habilidade­s técnicas e reflexos, ao melhor estilo Sugar Ray Robinson”, analisa. “Ele tinha o gancho e o direito em linha reta; um inferno. Ele tinha tudo. Um perfurador de corpos.”

PRESTÍGIO

Com tanto reconhecim­ento nos Estados Unidos, Eder entrou para o Hall da Fama do boxe em 1992. “A maioria dos fãs norte-americanos não tiveram a oportunida­de de vê-lo em ação, mas nos anos 60 Eder Jofre foi considerad­o o melhor lutador libra por libra em todo o mundo”, afirma Ed Brophy, diretor executivo do Hall da Fama. No ano passado, teve seu nome colocado também no hall da fama da Costa Oeste.

Em livrarias de Nova York é possível comprar pôsteres do ex-pugilista por US$ 30 (R$ 51) ou camisetas com o rosto do campeão por US$ 40 (R$ 68). Algo impensável em São Paulo, onde nasceu na Rua do Seminário e passou a infância no Parque Peruche “Eder Jofre só não é maior por causa da falta de imagens de seus combates”, diz o escritor Thomas Hauser, que escreveu, entre muitas outras obras, biografias de Muhammad Ali. “Jofre foi um dos maiores de todos os tempos.”

Em agosto de 2018, Eder Jofre foi para as telonas, ao ter sua vida retratada no longa “10 segundos para vencer”. O ator Osmar Prado, que é Kid Jofre (pai de Eder) na obra, teve trabalho impecável. Só faltou chamar Daniel Oliveira, que represento­u Eder, de “salame”, como fazia o treinador.

“10 segundos para vencer” retrata a vida de Eder com emoção, elegância e respeito. Como deveria ser. Finalmente o esporte brasileiro ganhou um espaço no cinema. Coisa que nos Estados Unidos, por exemplo, trata-se de algo corriqueir­o. A obra foi destaque no Festival de Gramado

A lendária revista The Ring classifico­u Eder como o 9º melhor de todos os tempos. Dan Cuoco, diretor da Internatio­nal Boxing Research Organizati­on (Organizaçã­o Internacio­nal de Pesquisa de Boxe), vai além. “Vi muitas lutas dele e posso dizer, sem medo de errar, que Eder Jofre foi o melhor boxeador que nasceu abaixo do Equador.”

O respeito por Eder vem também até do único adversário a vencê-lo em 20 anos de carreira. “Foi o maior adversário da minha carreira. Fiquei em pânico quando descobri que iria lutar com ele. Era muito resistente e um grande pegador”, afirma o japonês Masahiko Fightning Harada, que bateu o brasileiro duas vezes. Em 1965 e 1966, ambas no Japão. No total, Eder lutou 81 vezes, com 75 vitórias (53 nocautes) e 4 empates.

Eder também se transformo­u em ídolo de lendas do boxe. “Quando penso em Brasil, penso em Eder Jofre. Assisti a muitos teipes de suas lutas e gostava do seu estilo agressivo. Foi um grande campeão”, diz Mike Tyson, ex-campeão mundial dos pesados.

O mexicano Carlos Zarate, outro grande campeão dos galos, mas nos anos 70, também enumera elogios ao brasileiro. “Gostaria muito de ter lutado contra Eder. Fomos grandes lutadores, mas melhor assim. Um poderia perder e poderia ter sido eu”, disse o pugilista, que ganhou 63 vezes por nocaute em 66 vitórias.

O também mexicano José Sulaymán, presidente do Conselho Mundial de Boxe, prevê. “Não acredito que o Brasil tenha outro Eder Jofre. Ele parou de lutar há mais de três décadas e quem gosta de boxe sabe quem é Eder Jofre. Ainda se fala muito dele. Vocês (brasileiro­s) devem se orgulhar dele tanto quanto nós nos orgulhamos.”

Apesar do peso da idade, Eder segue se exercitand­o, mantém bom reflexo e continua com um forte soco. “75 anos! Puxa vida! Passou rápido. Mas não posso me queixar. Deus foi bom comigo”, agradece o Galo de Ouro.

TÍTULO RECONHECID­O

O Conselho Mundial de Boxe (CMB) reconheceu Eder Jofre como campeão mundial dos pesos galos, em 2019, durante convenção anual da entidade em Cancún, no México. Presente ao evento, levado por Andrea, sua filha, Eder recebeu um cinturão especial e foi bastante aplaudido pelo público presente. Com isso, Eder, passou a ser dono de três títulos mundiais.

Após levantamen­to feito por Antonio Oliveira, genro de Eder Jofre, o Conselho Nacional de Boxe (CNB), por intermédio de sua presidente, Geysa Caryny, levou os documentos até o conhecimen­to de Mauricio Sulaiman, presidente do CMB, que concordou em conceder mais um cinturão para o ex-boxeador brasileiro.

Os títulos de Eder passam a ser: campeão dos galos pela Associação Mundial de Boxe (AMB) com a vitória sobre o mexicano Joe Medel, em 12 de setembro de 1962, no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo.

O segundo título, o do Conselho Mundial de Boxe (CMB) na categoria galo, foi obtido em Tóquio, no Japão, ao vencer Katsutoshi Aoki, em 1963.

O terceiro cinturão do lutador foi conquistad­o em 1973, nos pesos penas, quando o brasileiro derrotou o cubano naturaliza­do espanhol Jose Legra, por pontos, após 15 assaltos eletrizant­es, no Ginásio Nilson Nelson, em Brasília.

Uma das lutas mais aguardadas de Eder Jofre foi realizada no Ibirapuera em 1962, diante do britânico Johny Caldwell. Mais de 20 mil pessoas vibraram com o triunfo do pugilista nacional frente ao então campeão europeu.

Em 1992, Eder Jofre teve seu nome incluído na terceira edição do Hall da Fama, em Canastota, Nova York. Cinco anos mais tarde, o brasileiro foi apontado como o nono melhor boxeador em todas as categorias pela tradiciona­l revista norte-americana The Ring. Em 2021, entrou para o Hall da Fama da Costa Oeste.

Após disputar a Olimpíada de Melbourne-1956, Eder lutou profission­almente de 1957 a 1976. Seu cartel é de 81 lutas, com 75 vitórias (50 nocautes), 4 empates e 2 derrotas. Jamais foi nocauteado ou sofreu queda.

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Ex-pugilista brasileiro manteve durante toda a sua vida a coragem e a determinaç­ão para enfrentar os adversário­s da vida

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