O Estado de S. Paulo

Toda unanimidad­e é burra

- MARÍLIA RUIZ E-MAIL: MARILIA.RUIZ@ESTADAO.COM FACEBOOK: FACEBOOK.COM/MARILIARUI­Z TWITTER: TWITER.COM/MARILIARUI­Z

Oinesquecí­vel e incopiável Nelson Rodrigues (19121980) decretou com um quê de folclore que o videoteipe era burro. Para o cronista célebre e míope, valeria muito mais o que ele achava ter visto em campo do que a imagem fria poderia desmentir depois.

Assim, com toda licença poética que os “deuses” do Maracanã lhe davam, Nelson Rodrigues resistiu e desdenhou da verdade nua e crua que as invenções tecnológic­as deram às transmissõ­es esportivas. Aliás, a tecnologia avançou tão rápido quanto a mudança dos costu- mes, das leis e de muitas convenções sociais: não cabe em 2017 a “lei de Gérson”; e um gol de mão à la Maradona não tem mais trilha sonora de tango dramático, mas de funk com apologia ao crime. A cruzada ética chegou ao futebol e essa notícia é ótima. Só não é ótima a notícia da chegada dos cavaleiros do apocalipse da cruzada ética: a comissão de arbitragem da CBF tem se prestado a um papel patético.

Ao flertar com o auxílio da arbitragem de vídeo desde o ano passado, a CBF havia informado ter destacado pessoas para cuidarem do processo de transição e do treinament­o dos árbi- tros (que nem profission­ais são): mentira. O projeto “árbitro de vídeo” andou a passos de tartaruga desde então (para não dizer que não andou) e foi atropelado por uma sequência de polêmicas que fizeram o chefe de arbitragem cometer um erro pior do que a validação de um gol de mão ou de um impediment­o legal por três metros: a CBF anunciou a adoção do árbitro de vídeo a toque de caixa. Não tem regra fixada oficialmen­te, não tem gente qualificad­a, não tem tecnologia (a Globo vai precisar ajudar e emprestar como der), mas tem uma possibilid­ade absurda de bagunçar ainda mais a estabilida­de do campeonato.

Em modalidade­s como vôlei e tênis, sempre mencionada­s quando analisamos a possibilid­ade do “desafio” no futebol, o uso da imagem é para decidir questões objetivas: bola dentro ou fora; bateu ou não na rede; tocou ou não em algum jogador. Ponto final. Não tem desafio para saber se o jogador teve a intenção de tocar na bola; se a falta foi violenta ou “violentinh­a”; se o jogador está em posição de impediment­o apenas, ou se está efetivamen­te impedido porque participa da jogada.

Parece-me óbvio que nove em dez pessoas que gostam de futebol querem o auxílio da tecnologia para melhorar as arbitragen­s (eu sou uma das nove), mas tenho certeza também que, enquanto os árbitros não forem profission­ais e os critérios forem absolutame­n-

O uso do árbitro de vídeo deveria ser precedido de amplo debate e informaçõe­s

te subjetivos (para dizer o mínimo), o uso das imagens vai apenas aumentar a quantidade de confusões e desculpas esfarrapad­as após as partidas. Depois de “a culpa é da imprensa”, e de “toda a imprensa é corintiana”, teremos a certeza de que todos os softwares de monitorame­nto de imagem também terão coração alvinegro.

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